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por Ricardo Baesso de Oliveira

 

O viés da religiosidade


Allan Kardec reconhece que as manifestações espíritas despertam imensa curiosidade, onde quer que apareçam. No texto introdutório à primeira edição da Revista espírita, em janeiro de 1858, Kardec coloca que a rapidez com que em todas as partes do mundo se propagaram os estranhos fenômenos das manifestações espíritas é uma prova do interesse que despertam.

Recentemente, Harvey Whitehouse, antropólogo de Oxford, coloca a religiosidade como um dos relevantes fatores responsáveis pela nossa herança coletiva como espécie.  Whitehouse define religiosidade como a tendência natural para adquirir e disseminar ideias sobre deuses e espíritos. [i]Segundo ele, a religiosidade consiste de um aspecto fundamental da natureza humana; encontra-se de forma geral em praticamente todas as culturas.

O autor se vale da expressão Religião selvagem, para reportar-se ao núcleo comum a todas as religiões, base geral de crenças e práticas compartilhadas pela humanidade em geral. Isso aponta para um viés de religiosidade generalizado e pan-humano. 

As principais crenças relacionadas com a Religião selvagem são: crença no sobrenatural, na vida após a morte, poderes ocultos do ritual, design inteligente da natureza e do cosmos, espíritos, ancestrais, deuses, visão teleológica da vida, segunda a qual tudo que acontece tem um motivo para tal.

A grande questão que Whitehouse coloca é a seguinte: por que esses vieses religiosos surgiram e se mantêm durante os milênios? Como ateu e materialista, o autor não crê em nada disso, mas se interessa em entender como surgiram, e tão precocemente, na evolução humana.

Essas crenças são tão arraigadas na psique humana que até mesmo os bebês têm propensões enraizadas para adquirir essas crenças religiosas selvagens ao longo da sua infância, desde que o ambiente ao seu redor forneça material relevante o suficiente e condições adequadas para absorvê-lo.

Ao examinar esse tema, especificamente na crença em Deus, Kardec, propôs a seguinte questão:       

Que consequência se pode tirar do sentimento intuitivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus?

Na resposta se lê:

Que Deus existe; pois, de onde lhes viria esse sentimento, se não se apoiasse em alguma coisa? [ii]

E explica Kardec:

[...] o sentimento íntimo que temos da existência de Deus não seria fruto da educação e das ideias adquiridas, pois se assim fosse, estaria ausente dos nossos selvagens. Se o sentimento da existência de um ser supremo fosse apenas produto de um ensino, não seria universal e, como sucede com as noções científicas, só existiria nos que houvessem podido receber esse ensino.[iii]

E ainda Kardec:

Ora, uma doutrina não se torna universal, não sobrevive a milhares de gerações, não se implanta de um polo a outro, entre os povos mais diversificados, pertencentes a todos os graus da escala social, se não estiver fundada em algo de positivo.[iv]

Para os espíritas, portanto, a resposta ao questionamento do conceituado antropólogo é simples e direta: as crenças religiosas existem porque são verdadeiras.


 

[i] Herança, Harvey Whitehouse.

[ii] LE item 5.

[iii] LE item 6.

[iv] RE, janeiro 1858.


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita