O
viés da
religiosidade
Allan Kardec
reconhece que as
manifestações
espíritas
despertam imensa
curiosidade,
onde quer que
apareçam. No
texto
introdutório à
primeira edição
da Revista
espírita, em
janeiro de 1858,
Kardec coloca
que a rapidez
com que em todas
as partes do
mundo se
propagaram os
estranhos
fenômenos das
manifestações
espíritas é uma
prova do
interesse que
despertam.
Recentemente,
Harvey
Whitehouse,
antropólogo de
Oxford, coloca a
religiosidade
como um dos
relevantes
fatores
responsáveis
pela nossa
herança coletiva
como espécie.
Whitehouse
define religiosidade como
a tendência
natural para
adquirir e
disseminar
ideias sobre
deuses e
espíritos. [i]Segundo
ele, a
religiosidade
consiste de um
aspecto
fundamental da
natureza humana;
encontra-se de
forma geral em
praticamente
todas as
culturas.
O autor se vale
da expressão Religião
selvagem,
para reportar-se
ao núcleo comum
a todas as
religiões, base
geral de crenças
e práticas
compartilhadas
pela humanidade
em geral. Isso
aponta para um
viés de
religiosidade
generalizado e
pan-humano.
As principais
crenças
relacionadas com
a Religião
selvagem são:
crença no
sobrenatural, na
vida após a
morte, poderes
ocultos do
ritual, design
inteligente da
natureza e do
cosmos,
espíritos,
ancestrais,
deuses, visão
teleológica da
vida, segunda a
qual tudo que
acontece tem um
motivo para tal.
A grande questão
que Whitehouse
coloca é a
seguinte: por
que esses vieses
religiosos
surgiram e se
mantêm durante
os milênios?
Como ateu e
materialista, o
autor não crê em
nada disso, mas
se interessa em
entender como
surgiram, e tão
precocemente, na
evolução humana.
Essas crenças
são tão
arraigadas na
psique humana
que até mesmo os
bebês têm
propensões
enraizadas para
adquirir essas
crenças
religiosas
selvagens ao
longo da sua
infância, desde
que o ambiente
ao seu redor
forneça material
relevante o
suficiente e
condições
adequadas para
absorvê-lo.
Ao examinar esse
tema,
especificamente
na crença em
Deus, Kardec,
propôs a
seguinte
questão:
Que
consequência se
pode tirar do
sentimento
intuitivo, que
todos os homens
trazem em si, da
existência de
Deus?
Na resposta se
lê:
Que Deus existe;
pois, de onde
lhes viria esse
sentimento, se
não se apoiasse
em alguma
coisa? [ii]
E explica
Kardec:
[...] o
sentimento
íntimo que temos
da existência de
Deus não seria
fruto da
educação e das
ideias
adquiridas, pois
se assim fosse,
estaria ausente
dos nossos
selvagens. Se o
sentimento da
existência de um
ser supremo
fosse apenas
produto de um
ensino, não
seria universal
e, como sucede
com as noções
científicas, só
existiria nos
que houvessem
podido receber
esse ensino.[iii]
E ainda Kardec:
Ora, uma
doutrina não se
torna universal,
não sobrevive a
milhares de
gerações, não se
implanta de um
polo a outro,
entre os povos
mais
diversificados,
pertencentes a
todos os graus
da escala
social, se não
estiver fundada
em algo de
positivo.[iv]
Para os
espíritas,
portanto, a
resposta ao
questionamento
do conceituado
antropólogo é
simples e
direta: as
crenças
religiosas
existem porque
são verdadeiras.
[i] Herança,
Harvey
Whitehouse.