A boa destruição
A palavra “destruição” costuma despertar medo e dor. Em
nossa mente, ela se associa ao fim, à perda, ao vazio
que se abre quando algo se desfaz. É natural que assim
seja, pois o instinto de conservação, inscrito em nós
pela sabedoria divina, faz com que defendamos a vida e
temamos o aniquilamento. No entanto, o Evangelho nos
recorda que o amor é a lei suprema, e que tudo, até o
que parece ruir, se ordena sob o amparo dessa mesma lei.
Há, portanto, um aparente paradoxo entre o mandamento de
Jesus “amai-vos uns aos outros” e a ideia de destruição.
Mas esse paradoxo se desfaz quando compreendemos o
sentido espiritual da vida.
Allan Kardec, ao estudar as leis morais em O Livro
dos Espíritos, ensina que a destruição é apenas
aparência. Nada realmente se perde, porque a essência da
vida é indestrutível. O que se desfaz na matéria renasce
sob outra forma, obedecendo à lei de renovação que
governa o Universo. Assim como a semente precisa morrer
para que a planta viva, tudo o que parece perecer apenas
se transforma, num contínuo movimento de progresso sob a
direção de Deus.
Na terceira parte da obra, no capítulo “Da Lei de
Destruição”, Kardec esclarece que Deus, em Sua
sabedoria, permite que os seres se consumam para que o
equilíbrio da criação se mantenha. A morte, as mudanças
e até as grandes crises que sacodem a humanidade são
instrumentos de progresso, meios de purificação e
reajuste. O que chamamos de tragédia é, muitas vezes, um
impulso divino que renova estruturas caducas e faz
surgir um novo tempo.
A destruição é, portanto, uma etapa da vida, não o seu
oposto. Quando vemos uma floresta consumida pelo fogo,
tendemos a lamentar sua perda; mas o solo, fertilizado
pelas cinzas, prepara-se para novos brotos. Da mesma
forma, quando o sofrimento nos visita, ele incendeia o
que é velho em nós, abrindo espaço para o que deve
florescer. Deus, em Sua misericórdia, transforma a dor
em escola e o desmoronamento em começo.
Contudo, há uma diferença essencial entre a destruição
que obedece à lei divina e aquela que nasce do abuso
humano. A primeira é instrumento de equilíbrio e
renovação; a segunda, fruto do egoísmo, da violência e
do prazer de fazer sofrer, representa o domínio da
matéria sobre o Espírito e o esquecimento das leis de
amor. Destruir por maldade é ferir a harmonia da
criação. Destruir, pela necessidade natural da vida, é
participar do movimento que conduz todas as coisas à
perfeição.
Nada é inútil no plano de Deus. Os flagelos, as dores e
as transformações que parecem castigos são, em essência,
remédios espirituais. Por meio deles, Deus desperta
consciências adormecidas, purifica sentimentos e apressa
o progresso moral da humanidade. Quantos corações não se
voltam ao bem após o sofrimento? Quantas civilizações
não se erguem mais sábias após o ruir de seus próprios
excessos?
Quando o homem compreende essa lei, aprende a confiar.
Passa a ver na destruição não o fim, mas o movimento
necessário que conduz à renovação. Toda dor, quando
suportada com fé, instrui. Toda perda, quando aceita com
serenidade, transforma. A destruição, vista sob a luz do
Espírito, é um bem que ainda não aprendemos a reconhecer
plenamente.
O Espírito, que é imortal, segue sempre adiante,
atravessando as fases da existência como o sol que se
oculta apenas para renascer no horizonte seguinte. De
cada ruína, brota uma semente de vida nova; de cada
noite, uma aurora. A destruição é o trabalho silencioso
da vida em sua eterna reconstrução.
Assim, mesmo quando tudo parece findar, é a Vida que
recomeça, silenciosa e eterna, sob o olhar amoroso de
Deus que nunca destrói para punir, mas apenas para
ensinar a recomeçar.
Fonte: KARDEC, A. O Livro dos Espíritos, 3ª
parte, cap. 6, q. 728–765.
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