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por Hugo Alvarenga Novaes

 

A boa destruição


A palavra “destruição” costuma despertar medo e dor. Em nossa mente, ela se associa ao fim, à perda, ao vazio que se abre quando algo se desfaz. É natural que assim seja, pois o instinto de conservação, inscrito em nós pela sabedoria divina, faz com que defendamos a vida e temamos o aniquilamento. No entanto, o Evangelho nos recorda que o amor é a lei suprema, e que tudo, até o que parece ruir, se ordena sob o amparo dessa mesma lei. Há, portanto, um aparente paradoxo entre o mandamento de Jesus “amai-vos uns aos outros” e a ideia de destruição. Mas esse paradoxo se desfaz quando compreendemos o sentido espiritual da vida.

Allan Kardec, ao estudar as leis morais em O Livro dos Espíritos, ensina que a destruição é apenas aparência. Nada realmente se perde, porque a essência da vida é indestrutível. O que se desfaz na matéria renasce sob outra forma, obedecendo à lei de renovação que governa o Universo. Assim como a semente precisa morrer para que a planta viva, tudo o que parece perecer apenas se transforma, num contínuo movimento de progresso sob a direção de Deus.

Na terceira parte da obra, no capítulo “Da Lei de Destruição”, Kardec esclarece que Deus, em Sua sabedoria, permite que os seres se consumam para que o equilíbrio da criação se mantenha. A morte, as mudanças e até as grandes crises que sacodem a humanidade são instrumentos de progresso, meios de purificação e reajuste. O que chamamos de tragédia é, muitas vezes, um impulso divino que renova estruturas caducas e faz surgir um novo tempo.

A destruição é, portanto, uma etapa da vida, não o seu oposto. Quando vemos uma floresta consumida pelo fogo, tendemos a lamentar sua perda; mas o solo, fertilizado pelas cinzas, prepara-se para novos brotos. Da mesma forma, quando o sofrimento nos visita, ele incendeia o que é velho em nós, abrindo espaço para o que deve florescer. Deus, em Sua misericórdia, transforma a dor em escola e o desmoronamento em começo.

Contudo, há uma diferença essencial entre a destruição que obedece à lei divina e aquela que nasce do abuso humano. A primeira é instrumento de equilíbrio e renovação; a segunda, fruto do egoísmo, da violência e do prazer de fazer sofrer, representa o domínio da matéria sobre o Espírito e o esquecimento das leis de amor. Destruir por maldade é ferir a harmonia da criação. Destruir, pela necessidade natural da vida, é participar do movimento que conduz todas as coisas à perfeição.

Nada é inútil no plano de Deus. Os flagelos, as dores e as transformações que parecem castigos são, em essência, remédios espirituais. Por meio deles, Deus desperta consciências adormecidas, purifica sentimentos e apressa o progresso moral da humanidade. Quantos corações não se voltam ao bem após o sofrimento? Quantas civilizações não se erguem mais sábias após o ruir de seus próprios excessos?

Quando o homem compreende essa lei, aprende a confiar. Passa a ver na destruição não o fim, mas o movimento necessário que conduz à renovação. Toda dor, quando suportada com fé, instrui. Toda perda, quando aceita com serenidade, transforma. A destruição, vista sob a luz do Espírito, é um bem que ainda não aprendemos a reconhecer plenamente.

O Espírito, que é imortal, segue sempre adiante, atravessando as fases da existência como o sol que se oculta apenas para renascer no horizonte seguinte. De cada ruína, brota uma semente de vida nova; de cada noite, uma aurora. A destruição é o trabalho silencioso da vida em sua eterna reconstrução.

Assim, mesmo quando tudo parece findar, é a Vida que recomeça, silenciosa e eterna, sob o olhar amoroso de Deus que nunca destrói para punir, mas apenas para ensinar a recomeçar.

Fonte: KARDEC, A. O Livro dos Espíritos, 3ª parte, cap. 6, q. 728–765.
 


 
 

     
     

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