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por Anselmo Ferreira Vasconcelos

 

A intenção e os seus desdobramentos


No bojo do rumoroso julgamento do ex-presidente da República e os seus auxiliares, no qual foram eles condenados por golpe de Estado, entre outras coisas, a questão da intenção, ou seja, propósito e desejo, foi amplamente explorada. Deixando de lado o mérito do julgamento, chamou muito a atenção, por outro lado, a interpretação que muitos operadores do Direito dão ao tema. Não poucos advogados e acadêmicos, aliás, fizeram questão de frisar em suas entrevistas e artigos que a intenção de um crime não é suficiente para condenar ninguém, conforme preconiza a lei do país.

Nesse sentido, um indivíduo pode, por exemplo, ter o desejo de tirar a vida de um desafeto. Pode ainda planejar tal nefasta ação articulando todos os pormenores. Entretanto, se não levar a efeito o ato concreto, segundo as premissas legais vigentes e a opinião de boa parte dos entendidos na matéria, não pode ser-lhe imputado crime algum. Seja como for, tal interpretação foi vencida, pois a maioria dos juízes da Corte Suprema a desconsideraram sumariamente no julgamento em questão.

No que concerne às leis divinas, lente pela qual nenhuma jaça prevalece, identifica-se uma outra visão a respeito do assunto e que merece ser destacada. De modo geral, elas evocam uma percepção diametralmente oposta, absolutamente perfeitas e incorruptíveis em seus propósitos, na qual o Criador tudo considera em seu justo julgamento, cumpre ressaltar. Allan Kardec examinou alguns dos desdobramentos da nossa intenção n’O Livro dos Espíritos. Assim sendo, podemos ler, na resposta à questão nº 549 da referida obra, que “[...] Aquele que intenta praticar uma ação má, pelo simples fato de alimentar essa intenção, chama em seu auxílio maus Espíritos, aos quais fica então obrigado a servir, porque dele também precisam esses Espíritos, para o mal que queiram fazer. Nisto apenas é que consiste o pacto” (ênfase minha).

Já na questão nº 554, que trata dos efeitos de um talismã, as entidades espirituais esclarecem que é “... da pureza da intenção e da elevação dos sentimentos depende a natureza do Espírito que é atraído”. Na pergunta nº 658, que foca na prece, eles informam que A prece é sempre agradável a Deus, quando ditada pelo coração, pois, para Ele, a intenção é tudo. Assim, preferível lhe é a prece do íntimo à prece lida, por muito bela que seja, se for lida mais com os lábios do que com o coração.[...]” (ênfase minha).

Em outro assunto extremamente grave, que representou doloroso flagelo humano em outros tempos, ou seja, os sacrifícios de pessoas realizados com piedosa intenção (ver questão nº 670), as entidades reiteram que, dada a ignorância dos homens, era compreensível que imaginassem estar praticando um ato louvável e respeitoso ao imolar seus semelhantes. Especificamente em tais casos “... Deus atentava unicamente na ideia que presidia ao ato e não neste. À proporção que se foram melhorando, os homens tiveram que reconhecer o erro em que laboravam e que reprovar tais sacrifícios, com que não podiam conformar-se as ideias de Espíritos esclarecidos. [...]” (ênfase minha).

Avançando a análise, temos na questão nº 747, que abarca a questão dos assassinatos, novamente a explicação de que “Deus é justojulga mais pela intenção do que pelo fato” (ênfase minha). Imaginemos, para ilustrar, um policial que no cumprimento do seu dever seja forçado a trocar tiros com um delinquente que não se rende ao auto de prisão, atingindo-o mortalmente no meio do tiroteio. Com relação ao sacrifício da vida para salvar a de outrem (questão nº 951), é considerado pela Espiritualidade maior como um ato sublime, dada a sua intenção e, nestas circunstâncias, não interpretado como um suicídio (na verdade, em muitos casos é visto como um ato heroico).

Vale também ressaltar a questão nº 954, que analisa a imprudência fatal, e respondida pelos Espíritos que “Não há culpabilidade, quando não há intenção ou consciência perfeita da pratica do mal” (ênfase minha). Ou seja, às vezes o indivíduo comete um ato imprudente sem atinar que isso pode lhe custar a própria vida. Por sua vez, a obra O Consolador, ditada pelo Espírito Emmanuel (psicografia de Francisco Cândido Xavier), traz a lume na questão nº 149 as dolorosas consequências após a morte nas quais muitos Espíritos chafurdam. Ressalta o sábio mentor que


“É por isso que observais, tantas vezes, Espíritos sofredores e perturbados fornecendo a impressão de criaturas desamparadas e esquecidas pela esfera da bondade superior, mas, que, de fato, são desamparados por si mesmos, pela sua perseverança no mal, na intenção criminosa e na desobediência aos sagrados desígnios de Deus” (ênfase minha).


Notem que a intenção do indivíduo guia não apenas os seus atos, mas também as consequências daí advindas – sejam elas positivas ou negativas. De modo geral, devemos abastecer os nossos pensamentos com ideias (intenções) saudáveis, construtivas e benfazejas, pois elas nos garantirão paz de espírito. O Espírito Emmanuel propõe, em Caminho, Verdade e Vida (psicografia de Francisco Cândido Xavier), que “O anseio de melhorar-se, o desejo de equilíbrio, a intenção de manter a paz, constituem belos propósitos...”. Já o Espírito Agar, no Dicionário da Alma (também psicografada pelo Francisco Cândido Xavier), diz que “As nossas intenções mais nobres são reconhecidas, onde a justiça da Terra ainda não sabe enxergar” (ênfase minha).

Posto isso, trabalhemos para que nossas intenções na vida sejam sempre as melhores possíveis, a fim de que não nos falte o devido suporte dos bons Espíritos a nos inspirar os rumos.
 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita