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Natural de Itapetinga e atualmente residente em
Vitória da Conquista, ambos municípios da Bahia,
Allan Kardec Cardoso Lessa (foto) – que
mais tarde assinaria suas obras com Allan de
Kard – desde criança apresentava talento
artístico na criação de brinquedos e estórias
fantásticas, em que ele mesmo era o personagem
indispensável, isolando-se da convivência por
horas a fio.
Portador de dislexia, teve grande dificuldade em
ser alfabetizado, embora apresentasse grande
facilidade com a matemática, além de
extraordinária memória. Artista muito criativo,
transforma tudo que lhe vem as mãos em obra de
arte. Escultor e pintor, cria técnicas
inusitadas. Realizou diversas exposições
individuais e coletivas. Autodidata, nunca
cursou Arte, num saber intuitivo, inclusive na
arquitetura e na engenharia.
Na década de 2010 se notabilizou com diversas
obras expostas nos espaços públicos da cidade de
Vitória da Conquista e cidades vizinhas. Em 2018
criou o Museu de Kard, o maior Museu de arte
contemporânea do Norte e Nordeste, numa área de
meio milhão de metros quadrados, um grande
equipamento cultural que tem levado o nome de
Vitória da Conquista para diversas partes do
Mundo.
Trabalhador incansável do movimento Espírita,
fundou Casas Espíritas, em Vitória da Conquista
e fora desta, fundou uma creche juntamente com
seus familiares, realizou por mais de uma década
um trabalho de grande importância junto aos
presidiários e faz parte do corpo diretivo da
União Espírita de Vitória da Conquista há duas
décadas. Parece ter uma energia inesgotável,
diante dos enormes desafios que acaba por criar
pra si mesmo. Esse é o nosso entrevistado.
Pelo seu nome, estamos todos a imaginar que você
nasceu espírita. É isso mesmo?
Sim. Meu pai foi o primeiro a se tornar espírita
na família, na pequena Livramento de Nossa
Senhora-BA, na década de 1950. Tendo sofrido
muita perseguição religiosa por fundar o
primeiro centro espírita daquela cidade,
mudou-se para Vitória da Conquista. Quanto a meu
nome, me sinto muito honrado por envergá-lo, por
isso digo que não tenho um nome e sim um
ultimato. Para não confundir minha trajetória
artística com o grande Kardec, adotei o nome
artístico Allan de Kard.
O que gostaria de relatar dessa relação com o
Espiritismo desde a infância?
Ter nascido num lar espírita, e com este nome,
acredito ter uma forte razão de ser. Os
postulados espíritas sempre me foram familiares,
o conhecimento inato explica isso.
E como surgiu a ideia do Museu a Céu Aberto?
Sou portador de dislexia, de forma que aos 10
anos de idade eu nem lia nem escrevia. E este
desafio fazia com que eu me isolasse em meus
QUINTAIS IMAGINÁRIOS. Ali vivia uma experiência
fantástica no mundo das ideias, era uma vivência
particular, tão somente minha, ali era eu, o
autor, diretor, roteirista etc., sem conflitos
com quem quer que seja. No entanto tinha a
intuição que em algum momento teria que
abandonar meus QUINTAIS IMAGINÁRIOS, para as
relações com o mundo e assim foi. Em 2016, vivi
um revés de ordem moral muito doloroso, que me
levou ao fundo do poço. No auge da dor reuni os
cacos, me ergui e decidi reunir o que tinha de
bom em mim para socorrer as pessoas que se
encontravam em estado pior que o meu. Assim
voltei a fazer um trabalho que já fazia no
presídio desde 1997. E lá, enxugando lágrimas e
erguendo caídos, encontrei lenitivo pra minha
dor. Criamos uma Biblioteca e um Clube de
leitura, construímos a muitas mãos um belo
jardim dentro do presídio. 2017 foi um ano
sabático, isolado dos burburinhos do mundo, e
pude refletir profundamente no sentido da dor e
em quanto esta pode nos mobilizar para grandes
realizações. Foi então que me lembrei dos
quintais imaginários de minha infância. E pensei
comigo mesmo: Por que não transformar os meus
QUINTAIS IMAGINÁRIOS, que era uma experiência
particular, em uma experiência coletiva? Assim
nasceu o Museu de Kard. Talvez, se não fosse
essa experiência de dor intensa que vivenciei,
não teria mobilizado forças interiores para esse
grande desafio.
Indique para os leitores as redes sociais e
localização.
O Museu de Kard está localizado na BA 262, saída
para Brasília, Vitória da Conquista-BA.
Instagram @allandekard, Facebook Allan Kardec
Cardoso Lessa , YouTube Allan de Kard, Google
Museu de Kard. (N.R.:
Assista a pequeno vídeo sobre o Museu clicando
em Museu
de Kardec.)
Fale-nos sobre a inspiração para montagem e as
pesquisas envolvidas.
O meu fazer artístico está fincado nos 4 grandes
saberes humanos, a saber: Filosófico,
Científico, Religioso e Artístico. Isto porque a
construção de todo o conhecimento se dá por meio
da Razão, Intuição, Sentimentos e Sensações. O
conhecimento construído com base na razão e
sensação é do domínio da ciência; razão e
intuição, do domínio da filosofia; intuição e
sentimentos da religião e sentimentos e
sensações, das artes. Assim posso dizer que na
minha arte Ciência e Religião dão-se as mãos,
enquanto filosofo através da arte. As minhas
obras impressionam pela dimensão física, mas
principalmente pela mensagem imortal sedimentada
em cada uma delas. A Doutrina Espírita é sem
dúvida o manancial inesgotável de inspiração
para o meu trabalho.
Como você relaciona esse esforço cultural com o
pensamento espírita?
A ferramenta arte visual a meu ver é muito pouco
explorada pelo esforço divulgador dos postulados
espíritas. A iniciativa de construir um Museu de
Arte Espírita, talvez única no mundo, contribui
enormemente, sobretudo pelo caráter inovador da
proposta. E ainda se comunica com um público
muito diverso, que dificilmente entraria em
contato com os postulados espíritas pelas vias
conhecidas, principalmente em face do
preconceito religioso. Daí um Museu que não
carrega rótulos, mas tem em toda parte o
Espiritismo, tem-se comunicado com eficiência,
principalmente entre os jovens e crianças das
escolas que visitam intensamente o Museu.
Onde ele está localizado geograficamente?
Localiza-se em Vitória da Conquista-BA, numa
área de meio milhão de m², sendo assim o segundo
maior Museu a céu aberto do Brasil. O primeiro é
o INHOTIM, em Minas Gerais.
Dessa vivência toda com a organização e
montagem, o que foi mais marcante?
Sou um artista movido pelos desafios e empreendo
um esforço quase que solitário na construção
deste sonho. De forma que sou, ao mesmo tempo,
arquiteto, engenheiro, paisagista, guia,
jardineiro, administrador etc., e, nas horas de
folga, artista.
Algo mais que gostaria de acrescentar?
O Museu de Kard ainda está em construção e
estará enquanto durar a vigência de meu mandato
terreno, que espero durar pelo menos mais dez
anos, pois estou vivendo e gostando. Criamos uma
pessoa jurídica responsável legal pelo Museu,
trata-se de uma OCIP (Organização Civil de
Interesse Público), de forma a preservar este
patrimônio Cultural para as gerações futuras.
Suas palavras finais.
Considero essa uma experiência largamente
exitosa, podendo ser replicada em outras partes,
e espero com isso contribuir com a difusão e
divulgação dos princípios imortais exarados pela
doutrina Espírita. Agradeço imensamente a
oportunidade.

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