Especial

por Anselmo Ferreira Vasconcelos

Arrependimento: algumas considerações

 

Há um momento na sua trajetória milenária que a criatura humana desperta, enfim, para a transcendentalidade da vida. Geralmente extenuada pelos inúmeros erros e equívocos decisórios e/ou emocionalmente abalada por insucessos no campo dos sentimentos sente, afinal, a necessidade de se conectar com algo mais profundo que possa lhe preencher o vazio d’alma e, concomitantemente, trazer respostas. E movida por tal estado de espírito tende a buscar, com sofreguidão, se reencontrar com o Deus.

Mas por onde começar esse processo depurador? Não há outro meio possível a não ser olhando friamente para dentro de si à luz do ideal divino ao qual – aceitemos ou não - todos estamos submetidos. Nesse sentido, o Evangelho fornece-nos o mais perfeito arcabouço moral para o qual devemos nos mirar. De fato, a mensagem de Jesus Cristo “é de vida eterna, que penetra as densas sombras do desconhecimento e desalgema as suas vítimas, trazendo-as à luz da verdade e do Bem...” (ênfase minha), conforme lemos no livro Pelos Caminhos de Jesus, ditado pelo Espírito Amélia Rodrigues (psicografia de Divaldo Franco). Portanto, não há nada superior a essa fonte de luz e esclarecimento na face da Terra. A sua origem é celestial e o seu conteúdo é libertador à medida que instruí a humanidade quanto aos passos indispensáveis para que alcance a felicidade plena.

Ademais, como observa Amélia Rodrigues, “Jesus, porém, na imensa Transjordânia em que a Terra se transformou, continua ensinando e aguardando aqueles que o queiram seguir, para alcançarem, ditosos, a vida eterna com plena liberdade”. Assim sendo, já alcançamos um estágio civilizatório que nos proporciona ampla instrumentalização para que nos iluminemos.

Consoante as diretrizes da Espiritualidade Maior, é chegada a hora de mudanças planetárias profundas para que nos consolidemos como raça civilizada. Nesse cenário crucial, os rebeldes e perversos contumazes não serão mais admitidos. Para eles outros remédios estão sendo já aplicados, como o degredo para mundos ainda mais atrasados do que o nosso, a fim de que se ajustem às leis universais. O Criador, ao que sabemos, não abandona os seus filhos – até mesmo os mais renitentes ao seu amor. E como Pai amoroso propicia aos seus filhos infelizes experiências educativas para que se recuperem e voltem conscientemente ao seu Reino.

Aos que já acordaram para a importância do cultivo do ideal divino, mas ainda receiam ou não sabem o que fazer, alguns passos são deveras fundamentais. Não vislumbramos medida inicial mais apropriada do que o arrependimento dos erros e males causados aos outros. Afinal de contas, o arrependimento é o despertamento efetivo da consciência que, após submetida a um severo autoexame, encontra, nos quadros da vida nos quais o indivíduo percorreu, os momentos em que se perdeu através do abuso das suas prerrogativas, poder, papel, influência, omissões e conduta, de modo geral.

O arrependimento é também uma espécie de fel a brotar das entranhas da alma. Sob tal feito, o infrator acusa-se incessantemente pelos seus delitos ou desvios realizados. Ao implementar uma autoanálise, as suas ações, atitudes, decisões, pensamentos e palavras infelizes provavelmente serão identificadas como espectro avassalador a subtrair-lhe a paz e tranquilidade interior. Tal material mental precisa ser expelido para que o bem-estar seja reconquistado.

A propósito, n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, de autoria de Allan Kardec, há uma mensagem de Santo Agostinho na qual ele assevera: “Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao arrependimento. Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés [...]”. Já n´O Livro dos Espíritos (questão 992) lemos também que a consequência do arrependimento na vida atual proporciona ao Espírito oportunidade de progresso, contanto que tenha tempo suficiente tempo para efetuar a reparação das faltas. Esclarecerem igualmente os Espíritos de luz, na aludida questão, que, “Quando a consciência o exprobra e lhe mostra uma imperfeição o homem pode sempre melhorar-se”.

Como explicou o Mestre, na obra Pelos Caminhos de Jesus“...o inimigo, o adversário do homem, não é outro homem, mas ele mesmo, são as suas paixões e mesquinhezas, seu egoísmo, seu amor-próprio, e esses cruéis verdugos devem ser frenados, corrigidos ...” (ênfase minha). Diante disso, é preciso, pois, apegar-se a Deus rogando-lhe forças, inspiração e coragem para o enfrentamento dos males criados voluntariamente – cabe frisar. Por conseguinte, muita paciência deverá ser requerida ao aspirante da posse de saúde espiritual.

Começando por uma atitude sincera de humildade, o indivíduo outrora algoz deve procurar – como primeiro passo efetivo - as suas vítimas e lhes rogar sincero perdão – algo extremamente difícil para muitos, mas de efeito espiritual extraordinário. Entretanto, não se deve acalentar a ilusão de que todos os prejudicados aceitarão tal pedido de imediato, pois cada um de nós tem as suas próprias limitações e convicções. Assim, é preciso compreender que nem todos estarão dispostos a prontamente proferir o perdão. Seja como for, tal iniciativa é vital para que os elos perdidos possam ser trabalhados mesmo que gradualmente rumo à normalidade.

Como elucida Jesus, na obra acima citada, “[...] Aqueles que se arrependem e buscam ensejo de redenção, encontram-no. Há sempre um lugar no rebanho do amor para as ovelhas que retornam e desejam avançar”.   

Por fim, é muito raro passar pela vida sem ter dado passos errados, particularmente em relação aos outros. Assim sendo, é preciso ter em mente que agir com humildade e pedir perdão não são demonstrações de fraqueza, mas de extrema coragem moral. Portanto, se ainda temos pendências nesse aspecto, é preciso resolvê-las para conquistarmos a paz de espírito.

Se esse for caso, não percamos mais tempo, pois certamente Deus abençoará o nosso esforço!

    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita