Necessitados difíceis
Em muitas circunstâncias na Terra, interpretamos as
horas escuras como sendo unicamente aquelas em que a
aflição nos atenaza a existência, em forma de tristeza,
abandono, enfermidade, privação…
O espírita, porém, sabe que subsistem outras, piores
talvez… Não ignora que aparecem dias mascarados de
felicidade aparente, em que o sentimento anestesiado
pela ilusão se rende à sombra.
Tempos em que os companheiros enganados se julgam
certos…
Ocasiões em que os irmãos saciados de reconforto sentem
fome de luz e não sabem disso…
Nem sempre estarão eles na berlinda, guindados, à
evidência pública ou social, sob sentenças exprobatórias
ou incenso louvaminheiro da multidão…
Às vezes, renteiam conosco em casa ou na vizinhança, no
trabalho ou no estudo, no roteiro ou no ideal…
O espírita consciente reconhece que são eles os
necessitados difíceis das horas escuras. Em muitos
lances da estrada, vê-se obrigado a comungar-lhes a
presença, a partilhar-lhes a atividade, a ouvi-los e a
obedecê-los, até o ponto em que o dever funcional ou o
compromisso doméstico lhe preceituem determinadas
obrigações.
Entretanto, observa que, para lhes ser útil, não lhe
será lícito efetivamente aplaudi-los, à maneira do
caçador que finge ternura à frente da presa, a fim de
esmagá-la com mais segurança.
*
Como, porém, exercer a solidariedade, diante deles? —
perguntarás.
Como menosprezá-los se carecem de apoio?
Precisamos, no entanto, verificar que, em muitos
requisitos do concurso real, socorrer não será sorrir.
Todos conseguimos doar cooperação fraternal aos
necessitados difíceis das horas escuras, seja
silenciando ou clareando situações, nas medidas do
entendimento evangélico, sem destruir-lhes a
possibilidade de aprender, crescer, melhorar e servir,
aproveitando os talentos da vida, no encargo que
desempenham e na tarefa que o Mestre lhes confiou.
Mesmo quando se nos façam adversários gratuitos, podemos
auxiliá-los …
Jesus não nos recomendou festejar os que nos apedrejem a
consciência tranquila e nem nos ensinou a arrasá-los.
Mas, ciente de que não nos é possível concordar com eles
e nem tampouco odiá-los, exortou-nos claramente: “amai
os vossos inimigos, orai pelos que vos perseguem e
caluniam!…”
É assim que a todos os necessitados difíceis das horas
escuras, aos quais não nos é facultado estender os
braços de pronto, podemos amar em espírito,
amparando-lhes o caminho, através da oração.
Do livro Opinião espírita, mensagem
psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.
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