Um abraço do além
O tempo corria apressado no aeroporto daquela
grande cidade brasileira. Olavo Dias, homem de
bem e trabalhador espírita, caminhava entre os
passageiros. Estava prestes a viajar. Tudo certo
para o embarque. Faltava apenas se apresentar no
balcão.
Nesse instante, sentiu braços fortes em um
abraço súbito. Era Noel. Malvestido, o mesmo
rosto humilde de anos atrás, quando se
conheceram em uma confeitaria.
Naquele dia distante, Olavo o vira ser acusado
de roubo de pães. Interveio afirmando que era
seu empregado, salvando-o da humilhação. Noel
depois confessou o furto e sua triste situação:
filhos com fome, doente e sem trabalho. Olavo
levou ajuda, visitou sua casa, ofereceu consolo
e dignidade. Tornaram-se amigos, ligados pela
caridade.
Agora, no aeroporto, o reencontro parecia
casual. Mas Noel tinha uma missão: impedir que
Olavo embarcasse. Entre palavras de gratidão, o
tempo passou. Quando Olavo se deu conta e tentou
seguir, o voo já havia partido.
Mais tarde, veio a notícia: o avião sofrera um
acidente, sem sobreviventes. Atônito, Olavo
buscou Noel para agradecer-lhe. Voltou à antiga
casa em São Paulo. Foi atendido pela esposa de
Noel. A resposta o surpreendeu: “O Noel? Ele
faleceu há dois meses.”
Seria possível? Um sonho? Uma visão? Mas Olavo
sabia o que vivera. Sentira o abraço, ouvira a
voz, reconhecera o olhar grato daquele a quem
ajudara. E, agora, fora salvo.
A espiritualidade, invisível aos olhos
materiais, age com sabedoria. A bondade retorna
a quem a pratica, como eco além da matéria. O
gesto fraterno de Olavo abriu portas no além.
Noel voltou para retribuir, como instrumento de
misericórdia. E Olavo, salvo por um amigo do
outro lado da vida, pôde refletir sobre os
desígnios da Providência.
O bem, quando sincero e desinteressado, se
transforma em luz, escudo e proteção. Não se
perde. Apenas aguarda o tempo de florescer.
Referência:
Texto adaptado da página Dois
meses antes, do livro Almas em Desfile,
de Hilário Silva, psicografia de Francisco
Cândido Xavier – FEB.