O lado sombrio dos que buscam a luz no
meio espírita
Para todo argumento que evidencia as idiossincrasias do
movimento de divulgação espírita, surge um
contra-argumento — na maioria das vezes religioso e, em
tantas outras, sem base alguma.
A internet abriu um leque infinito de oportunidades para
a divulgação doutrinária. É possível, inclusive, que os
meios convencionais, como cursos e encontros
presenciais, passem a ter sua eficácia questionada.
Contudo, essa liberdade trouxe excessos. Existem
canais cujo conteúdo resume-se a apontar erros alheios,
focando especialmente em divulgadores que geram mais
"ibope" (likes). É uma posição tentadora: do
conforto do lar, com tempo para editar e confrontar o
conteúdo criticado com as obras de Kardec, o crítico
passa para os incautos a imagem de um baluarte da
doutrina. Mas restaria saber: diante de uma plateia
real, entre encarnados e desencarnados, esse crítico
manteria a mesma habilidade ou estaria livre de erros?
O problema é que tais canais pouco contribuem, pois
apenas escancaram interpretações subjetivas e pessoais.
Tentar mudar palestrantes e blogueiros é um erro quase
doutrinário; eles já são conhecidos pelo que entregam.
No outro extremo, vemos casas espíritas geridas com "mão
de ferro", onde toda decisão — da reforma do telhado à
nova tarefa — é pautada em "orientações dos Espíritos".
Embora digam que a decisão final é dos encarnados, criam
um ambiente de insegurança onde todos aguardam sinais místicos para
agir. Há casos de interpretação de sonhos que fariam
Freud rolar no mundo espiritual. Questiona-se: o
propósito nobre de construir ou ampliar justifica essa
dependência mediúnica para questões administrativas?
Recentemente, entre 2025 e 2026, acompanhamos polêmicas
sobre a mediunidade. É curioso notar: a maioria dos que
ditam regras sobre o tema não são médiuns, não estudaram
a fundo ou sequer leram O Livro dos Médiuns. Por
outro lado, há quem conheça a letra da obra, mas não
consegue acrescentar em vivência, porque como indivíduos
conhecem, mas como membros de um time, se perdem.
O ponto central é o excesso. A divulgação do
Espiritismo, para muitos, tornou-se uma profissão: coaches financeiros,
médiuns cobrando por "cartas do além", palestrantes que
misturam o Evangelho com autopromoção profissional e o
uso persistente dos Espíritos para validar agendas
políticas. Como dizem os especialistas: todo excesso
esconde uma falta.
Há uma inversão clara de valores. A ordem natural
deveria ser: aprender (como fez Ernesto Bozzano),
internalizar, transformar informação em conhecimento e,
só então, divulgar. Como diria a máxima: "Pregue o
Evangelho; se for preciso, use palavras".
Infelizmente, vemos a era do "espírita polímata".
Autoproclamar-se ou aceitar tal título — ostentado por
gênios como Da Vinci ou Santos Dumont — revela uma falta
de autocensura e de humildade. Onde vamos parar? Médiuns
cobrando por consolo e divulgadores em pedestais de
vaidade combinam com o que o Espiritismo ensina?
A "Luz" tem sido ofuscada pela névoa densa da ignorância
e do personalismo. Não se trata de julgar a moral
alheia, mas de um pedido de atenção. Precisamos rever o
planejamento de nossas casas e programas de estudo.
Falta humildade. Nem tudo o que é "bem produzido" é
feito na luz; muitas vezes, é apenas a sombra do orgulho
projetada por quem busca os holofotes, mas esqueceu-se
da transformação interior.
O movimento espírita não ficou "bagunçado" após a
pandemia; ele enfrenta desafios de sustentabilidade
desde que saiu das mãos de Kardec. Frequentemente
criticado por suas origens nas elites francesas, o
Espiritismo sobreviveu graças ao prestígio de quem o
abraçou, mas hoje o cenário é outro. O meio está repleto
de intelectuais que estudam a fisiologia da glândula
pineal, mas ignoram o aspecto moral da doutrina,
tratando-o como algo de foro íntimo e interpretativo.
A conta chegará para todos nós que batemos no peito
dizendo-nos espíritas, mas que praticamos a doutrina
mais para os outros do que para o nosso próprio
aperfeiçoamento. Divulgar o Espiritismo sem iluminar a
própria sombra é carregar o peso de respostas que não se
vivem. Ninguém é missionário sozinho. Trabalhar em
conjunto não é buscar consenso absoluto, mas unir
diferentes aptidões para, coletivamente, travar o "bom
combate".