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por Mário Frigéri

 

A palavra que ficou no ar


O episódio evangélico de Gadara é um dos mais perturbadores do ministério de Jesus, porque revela, com clareza desconcertante, a escala de valores de uma coletividade diante da presença de um representante do Reino dos Céus. Ali, o Cristo não é rejeitado por blasfêmia, heresia ou ameaça política, mas por algo mais revelador: por ter causado prejuízo econômico. A libertação de um homem – ou de vários, segundo alguns evangelistas – pesa menos que a perda de um rebanho. Gadara não expulsa Jesus por não compreendê-lo; expulsa-o porque compreendeu exatamente o que sua presença significava: transformação, ruptura, desinstalação moral. E isso tem consequências.

Do ponto de vista espiritual, a rejeição do Cristo por uma comunidade não é gesto neutro. Não se trata apenas de “direito de escolha”, mas de opção vibratória e ética. Quando determinada região, povo ou cultura prefere preservar estruturas materiais, interesses imediatos ou hábitos consolidados em detrimento da renovação moral proposta pelo Evangelho, cria-se um bloqueio espiritual coletivo. O Cristo não se impõe; ele se retira. Mas sua retirada não é desistência de assistir aquele povo: é apenas respeito ao livre-arbítrio humano e adiamento de um processo redentor em curso. Onde a luz é recusada, a sombra permanece por mais tempo.

Sob a óptica cármica, Gadara simboliza sociedades que, ao longo da História, afastam deliberadamente princípios superiores de justiça, compaixão e fraternidade para proteger seus “rebanhos” – sejam eles riquezas, poderes, ideologias ou privilégios. A longo prazo, tais escolhas degeneram em forma de estagnação moral, conflitos recorrentes, sofrimento coletivo e ciclos de dor que poderiam ter sido abreviados pela aceitação da oferta regeneradora. Não é Deus quem pune: é a consciência coletiva que se priva de caminhos mais altos e, por isso, percorre rotas mais longas e pedregosas.

O poema que apresentamos a seguir interpreta Gadara não apenas como lugar geográfico, mas como estado de alma social. Cada vez que o Cristo é convidado a se retirar – seja da política, da economia, da cultura ou da vida íntima – algo fica flutuando no ar. Uma sinfonia interrompida. Uma possibilidade perdida. E os barquinhos que se afastam no horizonte não levam apenas um deus feito homem: levam uma chance histórica de redenção, cuja ausência será sentida, mais cedo ou mais tarde, no silêncio que se segue à sua partida. A evocativa imagem de reticências balouçantes na fímbria fugiente do mar, simbolizando os três barquinhos que se afastam, é de Plínio Salgado, em seu livro Vida de Jesus:


SINFONIA INACABADA


O Cristo chega à terra de Gadara

Com seus apóstolos, em três barquinhos;

É madrugada alta… e nos caminhos

Pasciam porcos, numa extensa vara.

 

Ao seu encontro, um endemoninhado

Sai dos sepulcros, nu, a se estorcer:

– Filho de Deus, vieste nos perder?

Que há entre nós? pragueja em alto brado.

 

Jesus pergunta o nome àquele estranho.

– É legião, porque somos bastantes;

Se nos expulsas deste homem, antes,

Deixa-nos ir e entrar nesse rebanho.

 

Mas vendo os porcos tais assombrações,

Desabalaram e no mar caíram;

Os guardadores, de pavor, fugiram

E relataram o fato a seus patrões.

 

Corre a notícia pela terra afora,

A aldeia toda acorre incontinênti;

Se assombra ao ver em paz o ex-demente

E roga ao Cristo que se vá embora.

 

Partir! partir!… partir era preciso!

Não vendo os porcos, tal sentença lavra;

Que importa ao povo, ali, sua palavra,

Se à região só trouxe prejuízo?

 

E a multidão, perplexa, sobre o monte,

Vê os três barquinhos, ao nascer do dia,

A se expungir na fímbria do horizonte,

 

Quais reticências entre o céu e o mar,

Ou notas soltas de uma sinfonia

Inacabada, que ficou no ar…


Mário Frigéri é poeta, escritor, autor e youtuber com a mente e o coração voltados para o esplendor do Evangelho e da Doutrina Espírita. Campinas-SP.
 


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita