A palavra que ficou no ar
O episódio evangélico de Gadara é um dos mais
perturbadores do ministério de Jesus, porque revela, com
clareza desconcertante, a escala de valores de uma
coletividade diante da presença de um representante do
Reino dos Céus. Ali, o Cristo não é rejeitado por
blasfêmia, heresia ou ameaça política, mas por algo mais
revelador: por ter causado prejuízo econômico. A
libertação de um homem – ou de vários, segundo alguns
evangelistas – pesa menos que a perda de um rebanho.
Gadara não expulsa Jesus por não compreendê-lo;
expulsa-o porque compreendeu exatamente o que sua
presença significava: transformação, ruptura,
desinstalação moral. E isso tem consequências.
Do ponto de vista espiritual, a rejeição do Cristo por
uma comunidade não é gesto neutro. Não se trata apenas
de “direito de escolha”, mas de opção vibratória e
ética. Quando determinada região, povo ou cultura
prefere preservar estruturas materiais, interesses
imediatos ou hábitos consolidados em detrimento da
renovação moral proposta pelo Evangelho, cria-se um
bloqueio espiritual coletivo. O Cristo não se impõe; ele
se retira. Mas sua retirada não é desistência de
assistir aquele povo: é apenas respeito ao
livre-arbítrio humano e adiamento de um processo
redentor em curso. Onde a luz é recusada, a sombra
permanece por mais tempo.
Sob a óptica cármica, Gadara simboliza sociedades que,
ao longo da História, afastam deliberadamente princípios
superiores de justiça, compaixão e fraternidade para
proteger seus “rebanhos” – sejam eles riquezas, poderes,
ideologias ou privilégios. A longo prazo, tais escolhas
degeneram em forma de estagnação moral, conflitos
recorrentes, sofrimento coletivo e ciclos de dor que
poderiam ter sido abreviados pela aceitação da oferta
regeneradora. Não é Deus quem pune: é a consciência
coletiva que se priva de caminhos mais altos e, por
isso, percorre rotas mais longas e pedregosas.
O poema que apresentamos
a seguir interpreta Gadara não apenas como lugar
geográfico, mas como estado de alma social. Cada vez que
o Cristo é convidado a se retirar – seja da política, da
economia, da cultura ou da vida íntima – algo fica
flutuando no ar. Uma sinfonia interrompida. Uma
possibilidade perdida. E os barquinhos que se afastam no
horizonte não levam apenas um deus feito homem: levam
uma chance histórica de redenção, cuja ausência será
sentida, mais cedo ou mais tarde, no silêncio que se
segue à sua partida. A evocativa imagem de reticências
balouçantes na fímbria fugiente do mar, simbolizando os
três barquinhos que se afastam, é de Plínio Salgado, em
seu livro Vida
de Jesus:
SINFONIA INACABADA
O Cristo chega à terra de Gadara
Com seus apóstolos, em três barquinhos;
É madrugada alta… e nos caminhos
Pasciam porcos, numa extensa vara.
Ao seu encontro, um endemoninhado
Sai dos sepulcros, nu, a se estorcer:
– Filho
de Deus, vieste nos perder?
Que há entre nós? pragueja
em alto brado.
Jesus pergunta o nome àquele estranho.
– É
legião, porque somos bastantes;
Se nos expulsas deste homem, antes,
Deixa-nos ir e entrar nesse rebanho.
Mas vendo os porcos tais assombrações,
Desabalaram e no mar caíram;
Os guardadores, de pavor, fugiram
E relataram o fato a seus patrões.
Corre a notícia pela terra afora,
A aldeia toda acorre incontinênti;
Se assombra ao ver em paz o ex-demente
E roga ao Cristo que se vá embora.
Partir! partir!… partir era preciso!
Não vendo os porcos, tal sentença lavra;
Que importa ao povo, ali, sua palavra,
Se à região só trouxe prejuízo?
E a multidão, perplexa, sobre o monte,
Vê os três barquinhos, ao nascer do dia,
A se expungir na fímbria do horizonte,
Quais reticências entre o céu e o mar,
Ou notas soltas de uma sinfonia
Inacabada, que ficou no ar…
Mário Frigéri é poeta, escritor, autor e youtuber com a
mente e o coração voltados para o esplendor do Evangelho
e da Doutrina Espírita. Campinas-SP.
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