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por Paulo Hayashi Jr.

 

Os três cérebros e a alimentação justa e adequada


A saúde é um termo bem amplo e que pode estar conectado tanto com a ausência de doenças, como também, com uma condição de completo bem estar físico, mental, emocional e até mesmo social[1]. Além da própria espiritualidade (Maslow, 1970). Para Hipócrates, pai da Medicina, a saúde tem uma conexão com aquilo que comemos, com os nossos alimentos. Por isso, a seguinte observação: “Que seu alimento seja seu remédio” - Hipócrates. O que torna a pessoa corresponsável pela sua própria saúde. Assim, pode-se questionar:  aquilo que você costuma consumir te torna mais saudável ou não? Você cuida bem de si mesmo? Ou você se alinha com a observação de Paulo de Tarso: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (Rom 7:19)?

Mas, ao invés de tratarmos da maneira tradicional a relação estômago-alimento, para este artigo iremos propor a relação cérebro-alimento, em especial através do uso do modelo de cérebro triúno de Paul MacLean (1949). Tal teoria está em alinhamento com a doutrina espírita, em especial através das obras de André Luiz, com destaque para o livro No Mundo Maior. Outro pressuposto a ser usado neste artigo, a alimentação não é somente pela boca, mas por todos os nossos cinco sentidos físicos (visão, audição, tato, olfato, paladar). São os inputs que são transformados internamente e auxiliam na qualidade e quantidade de nossos outputs. O que influencia no comportamento e na capacidade do indivíduo trilhar o caminho da saúde e viver de forma plena e produtiva.

Para MacLean (1977, 1985), o aparelho cerebral humano foi sendo desenvolvido aos longos dos milênios através de adaptações frente ao meio ambiente e que o cérebro foi assumindo novas funções e por isso, criando estruturas que iam incorporando a anterior. O que acabaria formando camadas como em um sítio arqueológico. Com isso, há o cérebro inicial ou reptiliano, o cérebro intermediário ou límbico e por fim, o neocórtex. A tríade instinto, emoções e pensamentos está, de forma geral, arranjada neste modelo triúno, de “três em um” (Prada, Iandoli, Lopes, 2020). O cérebro triúno de Paul MacLean vem sendo pesquisado desde o final da década de 1940, mas somente a partir da década de 1960 é que é possível dizer que o autor tenha compilado e organizado melhor as suas ideias. Mas, para este artigo em específico, vamos usar o pressuposto teórico que cada cérebro precisa de alimentos específicos para restaurar suas forças e energias para continuar atuando de forma adequada.  Neste caso, o cérebro reptiliano ou inicial necessita de alimentos físicos para a sobrevivência. Tal como os répteis, as aves, ou os mamíferos primitivos, o cérebro reptiliano necessita de alimentos tangíveis, ricos em nutrientes que alimentem o corpo carnal. Caso haja a devida satisfação do cérebro reptiliano, ele irá funcionar de forma adequada. Todavia, a abundância pode trazer problemas também, tal como o excesso de açúcar pode comprometer todo o corpo, por exemplo. Ou o excesso de colesterol, de ferritina e até mesmo, de vitaminas. É preciso o equilíbrio, tal como na virtude da moderação proposto por Aristóteles. A escassez é ruim, bem como o excesso. A moderação, a temperança são virtudes para o equilíbrio e para a satisfação de forma justa e adequada.

Já o cérebro límbico, centro processador das emoções, necessita se alimentar de emoções, sensações, sentimentos e outras manifestações de afeto, amor, proteção, pertencimento que dê força e energia para tal região do corpo. Emoções negativas, perturbadoras ou até mesmo a escassez podem trazer prejuízos ou deficiências de funcionamento, irreversíveis ou não. Por outro lado, o excesso e o apego podem ser prejudiciais também, tal como nas paixões ferozes que cegam uma pessoa, ou o apego demasiado ao passado que perturba. Ou então, a paralisia de crescimento devido ao excesso de proteção. Ou também o excesso de “castração” e  “poda” dos pais, por exemplo, em relação aos seus filhos. Como uma árvore, o ser humano necessita da correta adubação e também, das regas, estímulos e cuidados para o crescimento acertado.

Por sua vez, o cérebro racional necessita de alimentos que favorecem a cognição, o aprendizado, a criatividade, a idealização do futuro. Não mais o alimento físico ou emocional, mas o alimento quintessenciado, tal como pensamentos edificantes, construtivos e que leve a uma condição cognitiva melhorada. A apreciação da beleza, do belo, da estética que leva aos caminhos de Deus parecem ser alimentos deste tipo de cérebro também. As orações, por sua vez, parecem ter um caráter transversal e impactam todos os tipos de cérebro. Seu poder vai além da questão emocional ou cognitiva para transcender as forças físicas e não físicas do indivíduo. Algo que vai além e que pode melhorar toda a condição do indivíduo.

Por outro lado, o excesso deste tipo de alimento pode paralisar as ações no presente, ou o contato emocional justo para a criação de ansiedades e outros problemas relacionados ao desperdício de tempo e de oportunidades. Muita expectativa do futuro, mas pouca ação para resolver o problema.

Neste sentido, através do cérebro triúno de MacLean, é possível compreender a observação de Hipócrates de forma mais ampla e não somente ao alimento físico. O ser humano apresenta uma riqueza muito grande e o seu corpo físico que permite estar encarnado é uma maravilha para a realização das obras, em especial quando respeitado e tratado bem. Não é de se estranhar que o corpo seja o primeiro templo de Deus em nós. “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Cor 6:19).

Para manter esta parceria, o  Quadro 1 procura resumir a relação dos bons alimentos para os diferentes cérebros de MacLean.

 

Quadro 1 - Exemplo de tipos de “alimentos’ saudáveis  x cérebro triúno de Paul MacLean

 

Sentidos físicos

Cérebro Reptiliano

Cérebro Límbico

Neocórtex

Visão

Aparência atrativa da comida

Aparência atrativa de si mesmo

Retrato de alguém que ama.

Sorriso

Aceno

 

Visualização ativa e imaginação criativa

Audição

Barulho de talheres e de pratos

Música dançante

Som conhecido e tranquilizador

Mantras

Oração

Palavras e frases afirmativas

Notícias reconfortadoras

Voz de alguém conhecido e que se ama

Música calma

Risos

Mantras

Oração

 

Música clássica

Oração

Tato

Exercício físico

Caminhada

Massagem

Acupuntura

Shiatsu

Abraço

Autoabraço

Beijo

Aperto de mão de alguém querido

 

 

Olfato

Cheiro de comida

Cheiro de limpeza

Perfume conhecido de alguém que ama

Perfume de flores sutis

Incenso

 

Paladar

Alimentos frescos, diversos e  em bom estado de conservação.

Chás de ervas medicinais.

 

Comida com recordação de infância.

Receita de família.

 

Fonte: elaboração própria.


Na saúde e na doença, o corpo será escudeiro fiel e responderá com aquilo que você fizer com ele. É o famoso “jumentinho” de Francisco de Assis[2]. Para alguns imprudentes, o ditado “garbage in, garbage out[3]”. Para outros, mais prudentes saberá escolher com cuidado o seu alimento, bem como a sua quantidade. O refinamento do gosto e do bom senso é essencial para o avanço do ser. Assim, cabe a cada um ter o bom gosto (qualitativo) e o bom senso (quantitativo) de alimentar direito cada um dos cérebros para que os resultados e os benefícios venham com a contento no tempo. Como na saúde e na vida, nada é por acaso e tudo está de acordo com as leis de Deus, em especial com aquilo que cada um faz com a sua própria existência. Sejamos, portanto, responsáveis pela boa alimentação de nossos sentidos para que no futuro, quando o inverno chegar, não sejamos pegos desprevenidos e acusados de imprudentes. Tenhamos não apenas a consciência, mas a força de vontade e o esforço para conquistarmos a nossa perfectibilidade, mesmo que seja pouco a pouco. No somatório dos tempos, teremos acumulado tesouro valioso para podermos dizer: eu fui o santo remédio para mim mesmo. Eu estou bem para fazer o bem. Como é bom estar bem para fazer o bem!


Referências
:

MacLean, P.D. (1985). Brain Evolution Relating to Family, Play, and the Separation Call. Arch Gen. Psychiatry, 42, April, pp.405-417.

MacLean, P.D. (1977). The triune brain in conflict. Proc. 11th Eur. Conf. Psychosom. Res., Heidelberg 1976, Psychother. Psychosom.28:207-220.

MacLean, P.D. (1949). Psychosomatic disease and the ‘‘visceral’’ brain: recent developments bearing on the Papez theory of emotion. Psychosom Med, 21:338– 53.

Maslow, A. H. (1970). Religion, values and peak-experiences. New York: Viking.

Prada, I.L.S., Iandoli Jr, D., Lopes, S.l.S. (2020). O cérebro triúno a serviço do espírito. São Paulo: AmeBrasil.

 

[1] Para acessar clique aqui: Link 1

[2] Para acessar clique aqui: Link 2

[3] “Lixo que entra, lixo que saí”


  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita