Amar ou tolerar
Durante toda a sua peregrinação, Jesus divulgou o
exercício da caridade e a prática do amor ao próximo,
sentimentos contrapostos ao orgulho, à prepotência, à
vaidade e ao egoísmo.
Isso ficou claro no Sermão da Montanha, quando falou
sobre as bem-aventuranças, utilizando analogias e
alegorias. Procurou construir parábolas que melhor
explicassem o contexto histórico da época, facilitando a
compreensão didática para as pessoas mais simples, a fim
de que entendessem o sentido moral dos acontecimentos.
Desde as épocas mais remotas da Antiguidade, a sociedade
era dividida em classes sociais, de acordo com a
condição socioeconômica. As pessoas passaram a tratar o
próximo como semelhante apenas quando ele estivesse no
mesmo nível social e econômico.
O preconceito sempre foi muito forte, independentemente
da cor da pele ou da acumulação de riquezas. Como
exemplo, quando a democracia surgiu na Grécia, ela não
era para todos, mas somente para os “iguais”. Os iguais,
segundo os gregos, eram os bem-nascidos, pertencentes às
antigas famílias que deram origem à civilização
helênica, não os estrangeiros e muito menos os escravos.
Passaram-se séculos, e ainda hoje não nos tratamos como
iguais, a não ser quando há interesses pessoais
envolvidos. Os meios de comunicação demonstram que as
desigualdades existem tanto na periferia quanto nos
bairros de luxo. Jesus, em todas as suas parábolas,
falava da igualdade perante a Lei Divina e de tratarmos
o próximo como gostaríamos de ser tratados, numa
reciprocidade de atitudes.
Aprendemos muito pouco ao longo dos séculos. Somos
espíritos ainda muito atrasados moralmente e precisamos
de mais tempo para promover nossa reforma íntima.
“O caminho de resgate e elevação permanece cheio de
espinhos. O trabalho constituir-se-á de lutas, de
sofrimentos, de sacrifícios, de suor, de testemunhos.
Toda a preparação é necessária no capítulo da
resistência; entretanto, sobretudo isto é indispensável:
revestir-se a alma de caridade, que é amor sublime.”1
Segundo o Espiritismo, o verdadeiro amor é um sentimento
altruísta que se manifesta na caridade, na renúncia e na
busca pelo bem do outro, sem exigir posse ou
reconhecimento. É um amor que liberta, acolhe, respeita
e constrói; que ultrapassa o tempo e as diferenças,
estendendo-se a todos, pois somos irmãos na mesma
jornada evolutiva.
Essa visão representa uma ruptura com antigos modelos
culturais, crenças arraigadas que se tornaram paradigmas
aceitos sem questionamento. Um exemplo claro foi a
crença da superioridade racial do homem branco
ocidental, mantida até meados do século XX. Desconstruir
esse paradigma exigiu tempo, pois, em todos os
continentes, existiu a ideia de superioridade de um
grupo sobre outros, quase como uma herança cultural
transgeracional.
Emmanuel buscou nos educar, mostrando que não podemos
modificar a realidade no ritmo que desejamos, mas isso
não nos impede de fazer o que está ao nosso alcance para
torná-la melhor. Independentemente da nossa condição,
sempre teremos oportunidades de ajudar, ainda que pouco,
seja material ou moralmente, aqueles que cruzam nosso
caminho.
“Não tens contigo os elementos precisos para sustentar a
harmonia nos lugares onde a Humanidade surge ameaçada de
caos e perturbação; mas o Amor Supremo já te entregou a
possibilidade de manter a ordem, quando não seja dentro
da própria casa, pelo menos no espaço diminuto em que te
dedicas ao trato pessoal.” 2
O planeta Terra é um mundo de expiações e provas. Ainda
precisaremos de muitos séculos para transformá-lo em um
mundo de regeneração. Basta observarmos os meios de
comunicação para perceber que os interesses divergentes
entre os povos inviabilizam ações coletivas de correção
das desigualdades, da miséria, da fome e da destruição
ambiental, sem mencionar as guerras.
As ações humanitárias globais são poucas e, quando
estudamos A Caminho da Luz, percebemos que a
espiritualidade utiliza as desigualdades como escola de
aprendizado para espíritos ainda presos ao orgulho e à
vaidade.
No Império Romano, por exemplo, o poder era imposto pela
força:
“Denso nevoeiro obscurecia todas as consciências, e a
sociedade alegre e honesta foi pasto de crimes
humilhantes. (...) As classes abastadas aproveitaram-se
da pletora de poder, instalando-se no carro da opressão,
que deixava atrás de si um rastro fumegante de revolta e
de sangue.” 3
Na Idade Média, a Igreja, um dia perseguida, assumiu o
papel de repressora ideológica:
“A repressão das heresias foi o pretexto de sua
consolidação na Europa, tornando-se o flagelo do mundo
inteiro. (...) Crimes tenebrosos foram perpetrados ao pé
dos altares, em nome d’Aquele que é amor, perdão e
misericórdia.” 3
Assim, percebemos que muitos dos desafios sociais atuais
são desdobramentos de séculos de desajustes morais. A
espiritualidade, por sua vez, organiza as encarnações
para oferecer aos espíritos a oportunidade de reparar
erros por meio da caridade e do amor, onde antes
perseguiam, excluíam ou destruíam aqueles que
consideravam obstáculos.
Referências:
1) Xavier,
F. C.; Vinha de Luz (1951) - Emmanuel; cap. 5 -
“Com Amor”; Ed. FEB.
2) Xavier,
F. C.; Rumo Certo (1971) - Emmanuel; cap. 7 -
“Assunto de Todos”; Ed. FEB.
3) Xavier,
F. C.; A Caminho da Luz (1938) - Emmanuel; cap. XIII - O
Império Romano e seus desvios e cap. XVIII - Os abusos
do poder religioso; Ed. FEB.
4) Wikipédia
– Enciclopédia Livre.
|