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por Eder Andrade

 

Amar ou tolerar


Durante toda a sua peregrinação, Jesus divulgou o exercício da caridade e a prática do amor ao próximo, sentimentos contrapostos ao orgulho, à prepotência, à vaidade e ao egoísmo.

Isso ficou claro no Sermão da Montanha, quando falou sobre as bem-aventuranças, utilizando analogias e alegorias. Procurou construir parábolas que melhor explicassem o contexto histórico da época, facilitando a compreensão didática para as pessoas mais simples, a fim de que entendessem o sentido moral dos acontecimentos.

Desde as épocas mais remotas da Antiguidade, a sociedade era dividida em classes sociais, de acordo com a condição socioeconômica. As pessoas passaram a tratar o próximo como semelhante apenas quando ele estivesse no mesmo nível social e econômico.

O preconceito sempre foi muito forte, independentemente da cor da pele ou da acumulação de riquezas. Como exemplo, quando a democracia surgiu na Grécia, ela não era para todos, mas somente para os “iguais”. Os iguais, segundo os gregos, eram os bem-nascidos, pertencentes às antigas famílias que deram origem à civilização helênica, não os estrangeiros e muito menos os escravos.

Passaram-se séculos, e ainda hoje não nos tratamos como iguais, a não ser quando há interesses pessoais envolvidos. Os meios de comunicação demonstram que as desigualdades existem tanto na periferia quanto nos bairros de luxo. Jesus, em todas as suas parábolas, falava da igualdade perante a Lei Divina e de tratarmos o próximo como gostaríamos de ser tratados, numa reciprocidade de atitudes.

Aprendemos muito pouco ao longo dos séculos. Somos espíritos ainda muito atrasados moralmente e precisamos de mais tempo para promover nossa reforma íntima.


“O caminho de resgate e elevação permanece cheio de espinhos. O trabalho constituir-se-á de lutas, de sofrimentos, de sacrifícios, de suor, de testemunhos.
Toda a preparação é necessária no capítulo da resistência; entretanto, sobretudo isto é indispensável: revestir-se a alma de caridade, que é amor sublime.”
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Segundo o Espiritismo, o verdadeiro amor é um sentimento altruísta que se manifesta na caridade, na renúncia e na busca pelo bem do outro, sem exigir posse ou reconhecimento. É um amor que liberta, acolhe, respeita e constrói; que ultrapassa o tempo e as diferenças, estendendo-se a todos, pois somos irmãos na mesma jornada evolutiva.

Essa visão representa uma ruptura com antigos modelos culturais, crenças arraigadas que se tornaram paradigmas aceitos sem questionamento. Um exemplo claro foi a crença da superioridade racial do homem branco ocidental, mantida até meados do século XX. Desconstruir esse paradigma exigiu tempo, pois, em todos os continentes, existiu a ideia de superioridade de um grupo sobre outros, quase como uma herança cultural transgeracional.

Emmanuel buscou nos educar, mostrando que não podemos modificar a realidade no ritmo que desejamos, mas isso não nos impede de fazer o que está ao nosso alcance para torná-la melhor. Independentemente da nossa condição, sempre teremos oportunidades de ajudar, ainda que pouco, seja material ou moralmente, aqueles que cruzam nosso caminho.


“Não tens contigo os elementos precisos para sustentar a harmonia nos lugares onde a Humanidade surge ameaçada de caos e perturbação; mas o Amor Supremo já te entregou a possibilidade de manter a ordem, quando não seja dentro da própria casa, pelo menos no espaço diminuto em que te dedicas ao trato pessoal.”
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O planeta Terra é um mundo de expiações e provas. Ainda precisaremos de muitos séculos para transformá-lo em um mundo de regeneração. Basta observarmos os meios de comunicação para perceber que os interesses divergentes entre os povos inviabilizam ações coletivas de correção das desigualdades, da miséria, da fome e da destruição ambiental, sem mencionar as guerras.

As ações humanitárias globais são poucas e, quando estudamos A Caminho da Luz, percebemos que a espiritualidade utiliza as desigualdades como escola de aprendizado para espíritos ainda presos ao orgulho e à vaidade.

No Império Romano, por exemplo, o poder era imposto pela força:


“Denso nevoeiro obscurecia todas as consciências, e a sociedade alegre e honesta foi pasto de crimes humilhantes. (...) As classes abastadas aproveitaram-se da pletora de poder, instalando-se no carro da opressão, que deixava atrás de si um rastro fumegante de revolta e de sangue.”
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Na Idade Média, a Igreja, um dia perseguida, assumiu o papel de repressora ideológica:


“A repressão das heresias foi o pretexto de sua consolidação na Europa, tornando-se o flagelo do mundo inteiro. (...) Crimes tenebrosos foram perpetrados ao pé dos altares, em nome d’Aquele que é amor, perdão e misericórdia.”
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Assim, percebemos que muitos dos desafios sociais atuais são desdobramentos de séculos de desajustes morais. A espiritualidade, por sua vez, organiza as encarnações para oferecer aos espíritos a oportunidade de reparar erros por meio da caridade e do amor, onde antes perseguiam, excluíam ou destruíam aqueles que consideravam obstáculos.


Referências:

1) Xavier, F. C.; Vinha de Luz (1951) - Emmanuel; cap. 5 - “Com Amor”; Ed. FEB.

2) Xavier, F. C.; Rumo Certo (1971) - Emmanuel; cap. 7 - “Assunto de Todos”; Ed. FEB.

3) Xavier, F. C.; A Caminho da Luz (1938) - Emmanuel; cap. XIII - O Império Romano e seus desvios e cap. XVIII - Os abusos do poder religioso; Ed. FEB.

4) Wikipédia – Enciclopédia Livre.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita