Venerável Joanna
Na literatura espírita, Joanna de Ângelis se destaca
largamente por meio do medianeiro Divaldo Pereira Franco
(1927-2025), espírito sábio, o qual faz inúmeros
leitores recorrerem ao dicionário para decifrarem alguns
termos cultos e apropriados dentro da linguagem da
erudita entidade; todavia, Joanna nos traz profundas
meditações por meio de seus recados oportunos e
psicologicamente apropriados a espíritos imperfeitos
como todos nós.
Para tal narrativa, nos atemos aos livros A Veneranda
Joanna de Ângelis (LEAL) e Joanna e Jesus (Federação
Espírita do Paraná – FEP) e apresentamos as vidas dessa
ilustre entidade. Na época de Jesus, tal espírito foi
Joana de Cusa, esposa de um intendente romano, homem de
difícil relacionamento, por isso, em Cafarnaum, ela
procurou o Mestre para se aconselhar. O Mestre, após
ouvi-la, consolou-a a respeito da fé e da sua
necessidade de compartilhar o lar com o marido tão
austero e que não aceitava a crença que a esposa
gostaria de compartilhar com ele, por neutralizar o
diálogo no dia a dia, e Cusa tinha uma razão para estar
ao lado dela.
Mais tarde, os anos transcorridos, ela experimentou a
viuvez, transferiu-se para Roma e arrumou trabalho para
sustentação, cuidando dos filhos de damas nobres,
esquecendo que um dia havia compartilhado de condições
sociais confortadoras. Identificada com as claridades do
Evangelho, então nascente, pelos seus seguidores, foi
presa junto aos cristãos e no ano 68 d.C., no Coliseu
Romano, em um triste espetáculo, a velha discípula de
Jesus estava amarrada em um poste para ser queimada ao
lado de seu jovem filho.
Havia uma condição para se evitar a sentença dada aos
cristãos: abjurar a crença e render adoração ao
principal deus idolatrado pelos romanos – Júpiter. Ela
não aceitou. Repreendeu o filho desesperado que lhe
implorou para que abjurasse, e morreram queimados
juntamente aos demais seres corajosos que deram essas
vidas pelo Cristo. Logo em seguida, as labaredas
consumiram seu corpo junto a quinhentos adeptos dos
ensinamentos de Jesus, mas libertou-se para alcançar no
plano espiritual o Mestre a quem se dedicou e com quem
aprendeu uma lição de amor.
Reapareceu no século XIII, como Clara, na cidade de
Assis, na Itália, quando Francisco Bernardone também lá
vivia, relembrava a simplicidade do Evangelho de Jesus e
vivenciava a fraternidade. Adepta da simplicidade, ela
adotou uma vida em consonância com o que buscava, a
pureza nas ações e a separação dos bens materiais; sua
fé e dedicação dariam sinais do espírito virtuoso que
naquela vida aplicaria seu testemunho em prol do
próximo. Quando sarracenos (denominação dada pelos
cristãos aos árabes ou muçulmanos) invadiram Assis e
poderiam adentrar o claustro, onde Clara residia com
outras religiosas, não os temeu. Ela reuniu as
companheiras em prece ardorosa a Jesus e realmente o
grupo invasor se afastou, deixando-as livres de uma
brutalidade.
Noutra ocasião novos conquistadores invadiram a cidade e
novamente convocou as enclausuradas para junto dela
cobrirem as cabeças com cinza e foi perante o líder
invasor lhe pedir clemência e a liberação de Assis, o
que lhe foi atendido. Frisamos o espírito destemido e
voltado ao bem comum. Clara desencarnou aos sessenta
anos, deixando sua marca indelével de dedicação a Jesus.
Em plena Idade Média, junto a Francisco, ambos renovaram
a certeza nas almas que com eles conviveram e buscavam a
esperança e a certeza no porvir.
No século XVII, na pequena cidade do México, de nome São
Miguel Nepantla, reencarnou como Juana de Asbaje y
Ramirez de Santillana. Desde pequena, aos cinco anos, a
menina era um prodígio em termos culturais, recitava e
redigia versos! Sonhava na juventude em ingressar na
universidade, fato incomum, pois somente os rapazes
podiam estudar naquela época. Juana destacou-se como
poetisa e daí o vice-rei do México resolveu testar seus
conhecimentos e reuniu especialistas para interrogá-la
sobre os mais diversos assuntos. A plateia assistiu
então, surpreendida, aquela jovem de quinze anos
responder com precisão aos especialistas.
A fim de se dedicar aos estudos para compreender Deus,
resolveu ingressar no Convento das Carmelitas Descalças,
mas não se adaptou devido ao rigor daquela Ordem.
Transferiu-se para outra e se filiou à Ordem São
Jerônimo da Conceição, como sóror Juana Inés de la Cruz.
Passou a viver cercada por livros, em sua cela
confortável. No convento, escrevia poemas, ensaios,
dramas, peças teatrais, cantos de Natal e música sacra e
se correspondia com intelectuais da Europa e América. O
amor à Causa de Jesus e ao próximo viria a se demarcar
nesse espírito seguidor do Cristo em 1695, quando uma
epidemia assolou a região onde vivia, prestou socorro às
companheiras enfermas contaminadas por uma peste; além
da população local, muitos morreram aos poucos. Juana de
Asbaje abatida, destemida, ainda cuidou de muitas
internas, contudo, foi vencida aos quarenta e quatro
anos, vitimada pela mesma doença.
Reencarnou anos depois no Brasil, na cidade de
Salvador-BA, em 1762, filha de rica família baiana. Aos
vinte e um anos ingressou no Convento da Lapa e se
tornou freira da Ordem das Clarissas, relembrando, desse
modo, a vivência de sua época em Assis. Adotou o nome
religioso de sóror Joanna Angélica de Jesus, foi
escrivã, fato que não era comum uma mulher em cargo
público nessa época e no Brasil, ainda era uma colônia
de Portugal. Foi abadessa, atribuições compatíveis com o
cabedal intelectual desse espírito e que se despontou
naquele momento. Suas marcas de amor ao próximo,
renúncia e coragem se consolidariam mais adiante, no ano
de 1822, durante as lutas pelas tropas portuguesas que
se aportaram nas terras brasileiras por não admitirem a
separação de Portugal.
Em Salvador se instalou a desordem, a abadessa Joana
Angélica, já sabia do perigo iminente de invasão ao
convento e das barbaridades que eles já faziam na cidade
ao invadirem casas e humilharem os residentes. Ao se
aproximarem do convento, ela manteve a porta fechada,
até que as monjas fugissem por uma passagem subterrânea
do Convento Nossa Senhora da Conceição da Lapa e
chegarem a outros locais, como o Convento do Desterro.
Sacrificaria sua vida pelo semelhante. Desconhecia a dor
que poderia adquirir. Recebeu a tropa com uma única
atitude, somente adentrariam no convento, se passassem
por cima de seu cadáver, foi o tempo suficiente para que
todas as jovens se dispersassem. Foi assassinada por um
soldado. Joana Angélica doou mais uma vez sua vida, por
uma causa importantíssima: o próximo, tornou-se
reconhecida na História do Brasil como Mártir da
Independência.
O Espírito Joanna de Ângelis aproximou-se de Divaldo
Pereira Franco na década de quarenta, século passado,
Ele passou a vê-la mediunicamente todos os dias, tal
espírito se manifestava com a fisionomia de uma freira e
se apresentou ao médium como Joanna com dois “enes“. Sob
a coordenação de Joanna de Ângelis os trabalhos
literários do referido medianeiro ergueu-se de forma
grandiosa; o primeiro livro, Messe de Amor, com
60 lições, foi lançado em 1964, bem como sua oratória
vibrante e emocionada empolgou plateias pelo Brasil e no
mundo. Joanna também definiu as relevantes diretrizes
espirituais transmitidas para a condução da Mansão do
Caminho (instituição filantrópica criada por Divaldo e
Nílson de Souza Pereira, em Salvador – BA, no ano de
1952). Além disso, como Um Espírito Amigo,
participou junto aos demais espíritos de escol das Instruções
dos Espíritos, que estão contidas em O Evangelho
segundo o Espiritismo.
Assim, caros leitores, Joanna de Ângelis cumpriu
existências físicas submetidas às dores morais e
físicas, se reabilitou delas e com esmero nos permitiu
conhecê-las. Portanto, vimos o amor sem limites
experimentado, que se moldou através de percalços
pertinentes a quem estagia no corpo na Terra.
Roni Ricardo Osorio Maia reside em Volta
Redonda (RJ).