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por Roni Ricardo Osorio Maia

 

Venerável Joanna


Na literatura espírita, Joanna de Ângelis se destaca largamente por meio do medianeiro Divaldo Pereira Franco (1927-2025), espírito sábio, o qual faz inúmeros leitores recorrerem ao dicionário para decifrarem alguns termos cultos e apropriados dentro da linguagem da erudita entidade; todavia, Joanna nos traz profundas meditações  por meio de seus recados oportunos e psicologicamente apropriados a espíritos imperfeitos como todos nós.

Para tal narrativa, nos atemos aos livros A Veneranda Joanna de Ângelis (LEAL) e Joanna e Jesus (Federação Espírita do Paraná – FEP) e apresentamos as vidas dessa ilustre entidade. Na época de Jesus, tal espírito foi Joana de Cusa, esposa de um intendente romano, homem de difícil relacionamento, por isso, em Cafarnaum, ela procurou o Mestre para se aconselhar. O Mestre, após ouvi-la, consolou-a a respeito da fé e da sua necessidade de compartilhar o lar com o marido tão austero e que não aceitava a crença que a esposa gostaria de compartilhar com ele, por neutralizar o diálogo no dia a dia, e Cusa tinha uma razão para estar ao lado dela.

Mais tarde, os anos transcorridos, ela experimentou a viuvez, transferiu-se para Roma e arrumou trabalho para sustentação, cuidando dos filhos de damas nobres, esquecendo que um dia havia compartilhado de condições sociais confortadoras. Identificada com as claridades do Evangelho, então nascente, pelos seus seguidores, foi presa junto aos cristãos e no ano 68 d.C., no Coliseu Romano, em um triste espetáculo, a velha discípula de Jesus estava amarrada em um poste para ser queimada ao lado de seu jovem filho.

Havia uma condição para se evitar a sentença dada aos cristãos: abjurar a crença e render adoração ao  principal deus idolatrado pelos romanos – Júpiter. Ela não aceitou. Repreendeu o filho desesperado que lhe implorou para que abjurasse, e morreram queimados juntamente aos demais seres corajosos que deram essas vidas pelo Cristo. Logo em seguida, as labaredas consumiram seu corpo junto a quinhentos adeptos dos ensinamentos de Jesus, mas libertou-se para alcançar no plano espiritual o Mestre a quem se dedicou e com quem aprendeu uma lição de amor.

Reapareceu no século XIII, como Clara, na cidade de Assis, na Itália, quando Francisco Bernardone também lá vivia, relembrava a simplicidade do Evangelho de Jesus e vivenciava a fraternidade. Adepta da simplicidade, ela adotou uma vida em consonância com o que buscava, a pureza nas ações e a separação dos bens materiais; sua fé e dedicação dariam sinais do espírito virtuoso que naquela vida aplicaria seu testemunho em prol do próximo. Quando sarracenos (denominação dada pelos cristãos aos árabes ou muçulmanos) invadiram Assis e poderiam adentrar o claustro, onde Clara residia com outras religiosas, não os temeu. Ela reuniu as companheiras em prece ardorosa a Jesus e realmente o grupo invasor se afastou, deixando-as livres de uma brutalidade.

Noutra ocasião novos conquistadores invadiram a cidade e novamente convocou as enclausuradas para junto dela cobrirem as cabeças com cinza e foi perante o líder invasor lhe pedir clemência e a liberação de Assis, o que lhe foi atendido. Frisamos o espírito destemido e voltado ao bem comum. Clara desencarnou aos sessenta anos, deixando sua marca indelével de dedicação a Jesus. Em plena Idade Média, junto a Francisco, ambos renovaram a certeza nas almas que com eles conviveram e buscavam a esperança e a certeza no porvir.

No século XVII, na pequena cidade do México, de nome São Miguel Nepantla, reencarnou como Juana de Asbaje y Ramirez de Santillana. Desde pequena, aos cinco anos, a menina era um prodígio em termos culturais, recitava e redigia versos! Sonhava na juventude em ingressar na universidade, fato incomum, pois somente os rapazes podiam estudar naquela época. Juana destacou-se como poetisa e daí o vice-rei do México resolveu testar seus conhecimentos e reuniu especialistas para interrogá-la sobre os mais diversos assuntos. A plateia assistiu então, surpreendida, aquela jovem de quinze anos responder com precisão aos especialistas.

A fim de se dedicar aos estudos para compreender Deus, resolveu ingressar no Convento das Carmelitas Descalças, mas não se adaptou devido ao rigor daquela Ordem. Transferiu-se para outra e se filiou à Ordem São Jerônimo da Conceição, como sóror Juana Inés de la Cruz. Passou a viver cercada por livros, em sua cela confortável. No convento, escrevia poemas, ensaios, dramas, peças teatrais, cantos de Natal e música sacra e se correspondia com intelectuais da Europa e América. O amor à Causa de Jesus e ao próximo viria a se demarcar nesse espírito seguidor do Cristo em 1695, quando uma epidemia assolou a região onde vivia, prestou socorro às companheiras enfermas contaminadas por uma peste; além da população local, muitos morreram aos poucos. Juana de Asbaje abatida, destemida, ainda cuidou de muitas internas, contudo, foi vencida aos quarenta e quatro anos, vitimada pela mesma doença.

Reencarnou anos depois no Brasil, na cidade de Salvador-BA, em 1762, filha de rica família baiana. Aos vinte e um anos ingressou no Convento da Lapa e se tornou freira da Ordem das Clarissas, relembrando, desse modo, a vivência de sua época em Assis. Adotou o nome religioso de sóror Joanna Angélica de Jesus, foi escrivã, fato que não era comum uma mulher em cargo público nessa época e no Brasil, ainda era uma colônia de Portugal. Foi abadessa, atribuições compatíveis com o cabedal intelectual desse espírito e que se despontou naquele momento. Suas marcas de amor ao próximo, renúncia e coragem se consolidariam mais adiante, no ano de 1822, durante as lutas pelas tropas portuguesas que se aportaram nas terras brasileiras por não admitirem a separação de Portugal.

Em Salvador se instalou a desordem, a abadessa Joana Angélica, já sabia do perigo iminente de invasão ao convento e das barbaridades que eles já faziam na cidade ao invadirem casas e humilharem os residentes. Ao se aproximarem do convento, ela manteve a porta fechada, até que as monjas fugissem por uma passagem subterrânea do Convento Nossa Senhora da Conceição da Lapa e chegarem a outros locais, como o Convento do Desterro. Sacrificaria sua vida pelo semelhante. Desconhecia a dor que poderia adquirir. Recebeu a tropa com uma única atitude, somente adentrariam no convento, se passassem por cima de seu cadáver, foi o tempo suficiente para que todas as jovens se dispersassem. Foi assassinada por um soldado. Joana Angélica doou mais uma vez sua vida, por uma causa importantíssima: o próximo, tornou-se reconhecida na História do Brasil como Mártir da Independência.

O Espírito Joanna de Ângelis aproximou-se de Divaldo Pereira Franco na década de quarenta, século passado, Ele passou a vê-la mediunicamente todos os dias, tal espírito se manifestava com a fisionomia de uma freira e se apresentou ao médium como Joanna com dois “enes“. Sob a coordenação  de Joanna de Ângelis os trabalhos literários do referido medianeiro ergueu-se de forma grandiosa; o primeiro livro, Messe de Amor, com 60 lições,  foi lançado em 1964, bem como sua oratória vibrante e emocionada empolgou plateias pelo Brasil e no mundo. Joanna também definiu as relevantes diretrizes espirituais transmitidas para a condução da Mansão do Caminho (instituição filantrópica criada por Divaldo e Nílson de Souza Pereira, em Salvador – BA, no ano de 1952).  Além disso, como Um Espírito Amigo, participou junto aos demais espíritos de escol das Instruções dos Espíritos, que estão contidas em O Evangelho segundo o Espiritismo[1].

Assim, caros leitores, Joanna de Ângelis cumpriu existências físicas submetidas às dores morais e físicas, se reabilitou delas e com esmero nos permitiu conhecê-las. Portanto, vimos o amor sem limites experimentado, que se moldou através de percalços pertinentes a quem estagia no corpo na Terra.

 


[1] O Evangelho segundo o Espiritismo – Capítulo IX – Bem-aventurados os que são dóceis e pacíficos – item 7: A paciência. Capítulo XIII – Muitos os chamados, poucos os escolhidos – itens 13 a 15: Será dado àquele que tem.

 

Roni Ricardo Osorio Maia reside em Volta Redonda (RJ).


  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita