Senão quando
perfeito
Em todo texto, muitas vezes na linha de um parágrafo,
sempre há detalhes – e que sempre passa desapercebido
numa leitura rápida – que trazem profundo significado,
seja no todo ou no contexto específico de uma linha de
raciocínio. Vez por outra, numa leitura mais atenta,
eles saltam aos olhos. O hábito de estudar e pesquisar
permite descobrir esses tesouros ocultos, embora ali
expostos e escritos, mas não percebidos.
Os textos de Kardec são assim. Escritos há quase dois
séculos, são fonte riquíssima de detalhes que
gradativamente vamos descobrindo, seja pelo próprio
amadurecimento do leitor, seja pela evolução das ideias
e mesmo pelas modificações sociais que vão permitindo
identificar ângulos antes não percebidos, embora quando
descobertos vemos como são claros e óbvios.
Um deles – entre outros, claro – está no item 10 do
capítulo 8 – Bem-aventurados aqueles que têm puro o
coração, em O Evangelho Segundo o Espiritismo.
A afirmação está inserida no subtítulo Verdadeira
pureza. Mãos não lavadas. A afirmação está no 3º.
parágrafo do item acima referido: “(...) o homem não
chega a Deus senão quando está perfeito (...)”. O texto,
no seu todo, está repleto de observações muito valiosas,
antes e depois da afirmação em destaque. Mas, avalie-se
calmamente o alcance e profundidade da afirmação.
Embora seja algo óbvio e claro o que ali está afirmado,
notemos as perspectivas que abre para maior entendimento
dos fundamentos do Espiritismo, envolvendo a evolução –
onde estão inseridos o aprimoramento moral, as
experiências da pluralidade das existências e outros – e
mesmo para perfeita compreensão das Leis de Deus, onde
não há qualquer tipo de privilégio ou preferências. O
esforço é individual, apesar das experiências coletivas,
e referido estado de perfeição – embora relativo, já que
ninguém alcança o Criador – deverá ser conquista do
Espírito por meio de laborioso aprendizado.
E este “está perfeito” traduz-se por total ausência de
apegos ou malícias, libertação do egoísmo e orgulho,
tolas vaidades, pretensões e outras posturas
incompatíveis com a perfeição que a evolução produz no
espírito, embora o ritmo dela dependa do próprio
protagonista, de seus esforços ou descuidos com a
questão.
Percebe-se, com clareza, que o interesse é nosso mesmo.
Somos nós mesmos que devemos nos interessar e progredir,
para chegar a Deus. No texto onde a afirmação está
inserida, todavia, o Codificador refere-se aos objetivos
da religião, que são exatamente conduzir a criatura
humana na direção dessa compreensão. Sugiro ao leitor
consultar o referido item 10. Afinal, não estamos
solitários ou abandonados no evoluir. Vários outros
meios e fatores nos ajudam nessa direção, mas a
perfeição – repito, ainda que relativa – é fruto do
esforço continuado de cada um, apesar da convivência
coletiva, que muito influi em tudo isso.
Nada de ilusões, portanto. A sabedoria do Criador assim
estabeleceu. Prossigamos trabalhando por esse ideal
nesse gigantesco processo de aprendizado.
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