Entrevista

por Wellington Balbo

Um dos autores de História Geral do Espiritismo fala-nos sobre seus livros


 
Lucas Berlanza (foto) nasceu na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1992 e ainda reside na Cidade Maravilhosa nos dias de hoje. Jornalista e escritor, atualmente dirige o Instituto Liberal. Estudioso do Espiritismo, atua como expositor do Grupo Espírita Francisco de Assis, na Ilha do Governador (RJ), além de escrever artigos e livros sobre a temática espírita e participar de grupos particulares. Para falar sobre seu mais novo livro, assim como acerca de outros temas, Lucas nos concedeu a entrevista abaixo:

 

Como o Espiritismo entrou em sua vida?

Uma parcela significativa de minha família paterna era de origem umbandista. Praticava-se, porém, uma modalidade de Umbanda em que havia reuniões exclusivamente dedicadas à leitura de textos das obras de Allan Kardec. Eu me identificava muito mais com aquelas reuniões de leitura do que com os rituais e solicitei, por volta dos sete anos de idade, que me encaminhassem a uma instituição na qual eu pudesse efetivamente estudar em grupo aquelas obras. Foi o que fez meu pai procurar o Grupo Espírita Francisco de Assis, do qual se tornou dedicado colaborador. Minha avó, pouco tempo depois, me presenteou com meu primeiro exemplar de O Livro dos Espíritos.

Você escreveu, em parceria com Eric Pacheco, o livro História Geral do Espiritismo. O que encontrará o leitor ao tomar contato com essa obra?

Trata-se de um esforço para sumarizar o histórico do Espiritismo na Terra desde a sua fundação até os dias de hoje, transcendendo as abordagens que enfocam este ou aquele episódio ou que se atêm à França e ao Brasil. Para esse fim, foi fundamental o esforço do Eric por, através de seu canal “Espiritismo em Kardec” no Youtube, travar contato com representantes do movimento espírita em diferentes países do mundo. Ainda que não houvesse, quando ele começou a empreender esse trabalho, o propósito de escrever o livro, ele já estava, sem o saber, amealhando informações que aproveitaríamos posteriormente em nossa obra. Começando por traçar uma visão panorâmica dos antecedentes, da emergência e do desenvolvimento do Espiritualismo Moderno, movimento geral que tem por marco os fenômenos mediúnicos de Hydesville em 1848, sintetizamos, em seguida, a biografia do mestre francês, com ênfase para suas concepções pedagógicas e seu interesse pelo magnetismo animal; formulamos um resumo teórico dos princípios do Espiritismo e do conteúdo de cada uma das obras fundamentais, inclusive as edições da Revista Espírita; apreciamos o quadro do Espiritismo na França depois da morte de Kardec e delineamos seu crescimento no Brasil e suas manifestações em diferentes nações do globo. Ao final, apresentamos uma vasta galeria de autores e médiuns destacados que integram essa trajetória até a contemporaneidade, resumindo suas biografias e as propostas que defendiam ou defendem. Não deixamos de lado questões sensíveis, como as diversas divisões sofridas pelo movimento espírita, mas nos limitamos a expor um quadro descritivo, permitindo que o leitor se aprofunde no estudo de cada tópico que o interessar particularmente, consulte os pesquisadores originais cujos dados reunimos no trabalho e tire suas próprias conclusões.

E novidades, mais algum livro prestes a ser publicado?

Dentro da temática relativa ao Espiritismo, antes de “História Geral do Espiritismo”, editado pelo CCDPE, publiquei, em lançamento independente, também em coautoria com o Eric e com outro amigo, o Artur Felipe, o opúsculo “O Espiritismo perante seus inimigos e desafios contemporâneos”. Mais recentemente, na mesma modalidade, mas como único autor, lancei “O progresso à luz do Espiritismo”. A novidade é que o CCDPE editará meu livro “O erro antiespírita”, de natureza apologética, que oferece um contraponto às críticas ao Espiritismo formuladas pelo pensador francês René Guénon em seu clássico “O erro espírita” e, subsidiariamente, pelo sacerdote católico Boaventura Kloppenburg em seu livro “Espiritismo: Orientação para os católicos”. Acredito que a defesa do Espiritismo contra as alegações de seus contraditores é um esforço importante, mais do que para responder ao que dizem, para fortalecer a convicção dos espíritas, já que não há fé raciocinada se não pudermos enfrentar os argumentos que se voltam contra nós. 

Desde o seu nascimento, o Espiritismo passou por diversos desafios ao longo das décadas, desde os ataques das religiões, a chamada loucura espírita, as dificuldades do movimento espírita pós Kardec e tantos outros. Hoje vivemos tempos diferentes, desafios distintos. Em sua ótica, quais os grandes desafios que enfrenta, atualmente, o movimento espírita?

Felizmente, embora ainda sujeitos ao escárnio, não sofremos mais, pelo menos não habitualmente, as perseguições de ordem mais intensa que se verificavam no século XIX e que existiram, também, nos regimes autoritários do século XX.  O Espiritismo, principalmente no Brasil, desfruta de um nível de respeitabilidade social suficiente para conviver de maneira mais ou menos pacífica com outras ideias. Nossos erros do passado, porém, continuam a pesar hoje. A falta de ênfase nos fundamentos kardecianos cobra seu preço. Novos delírios seduzem os incautos e médiuns claramente mal-intencionados, com direito a manifestarem personagens de desenhos animados como se fossem Espíritos, expõem-nos ao ridículo e exploram as redes sociais para seus fins escusos. Uma contaminação político-ideológica, mais forte que as que já existiram no passado, tem tido sucesso em arrastar setores do movimento espírita para contendas que não lhe cabem e para a adoção de valores de índole materialista essencialmente opostos aos preconizados pelos Espíritos superiores. Influenciadores e mesmo pseudocoaches começaram a comercializar as próprias figuras como grandes “especialistas”, cobrando tanto por cabeça para ensinar aos tolos o “verdadeiro Espiritismo”. Obras sensacionalistas se difundem como detentoras de um conhecimento revolucionário, como se os livros de Kardec fossem extremamente nebulosos. Nosso maior problema, eu diria, é um problema humano: o orgulho, que provoca o atrevimento dos ignorantes.

Sem querer entrar de forma mais profunda no que traz seu livro “O erro antiespírita”, peço que compartilhe com nossos leitores alguns elementos que possam levar-nos a defender a Doutrina Espírita com racionalidade, pois com certa frequência percebemos que há carência de bons argumentos nas discussões em que os espíritas se envolvem.

Acredito que, em primeiro lugar, o espírita deve visar a fortalecer a própria convicção, compenetrando-se dos fundamentos estabelecidos por Allan Kardec. A maior parte das críticas movidas contra o Espiritismo consiste em reciclagens dos mesmos ataques realizados pelos contemporâneos de nosso fundador. A primeira atitude a ser tomada por quem deseja se dedicar a uma atividade apologética em relação à doutrina seria consultar detidamente os esforços no mesmo sentido que foram efetuados pelo próprio Kardec. Além disso, seria prudente avaliar a oportunidade e a finalidade com que se lança a uma polêmica. O principal alvo deve ser o público em geral que pode ser exposto a mentiras, para esclarecê-lo, não as pessoas que estão extremamente afeiçoadas às suas posições e preconceitos; cada um oferece suas resistências e tem seu tempo. Precisamos entender as prioridades. Por exemplo, vejo muitos espíritas querendo discutir com adeptos de denominações religiosas cristãs, como o Catolicismo ou alguma das diversas divisões do Protestantismo, com o objetivo de fazê-los reconhecerem que o Espiritismo seria outra espécie do mesmo gênero a que tais religiões pertencem, como se ele fosse uma nova “igreja” cristã e quisesse que as demais, no sentido formal, o apreciassem como tal. Ora, que me importa se católicos ou batistas reconhecem o Espiritismo como cristão ou não? Na acepção com que eles empregam, a rigor, a palavra “cristão”, o Espiritismo, de fato, não caberia, reduzindo-se a contenda a um problema semântico. Da mesma forma, não faz sentido querer convencer céticos materialistas ligados ao campo científico com argumentos que procuram apresentar o Espiritismo como uma espécie do mesmo gênero que a Química ou a Física, por exemplo, porque essa jamais foi a proposta de Kardec. Em resumo: a melhor forma de argumentar e saber em que polêmicas entrar e quais evitar é estudando cuidadosamente como Kardec agia e adaptando seu exemplo e suas lições ao cenário do debate contemporâneo.

Para alguém que está iniciando agora os estudos espíritas, o que você indica de livros, canais em redes sociais, blogs e coisas do gênero a fim de que se possa adquirir um bom conhecimento doutrinário.

Não quero soar clichê, mas realmente penso que qualquer livro espírita tem por objetivo principal dar suporte à divulgação e à reflexão sobre a obra de Kardec. Todas as atenções devem se voltar para ela. Para alguém que está iniciando, recomendo “O Que é o Espiritismo” e a sequência das obras fundamentais, incluindo a Revista Espírita. Nada, absolutamente nada as substitui. Depois de Kardec, costumo citar os brasileiros Deolindo Amorim e Herculano Pires como meus autores espíritas de predileção. Tenho o hábito de cooperar com os canais de Youtube Espiritismo em Kardec e Instituto Goiano de Estudos Espíritas, bem como já estive algumas vezes no Núcleo Espírita de Filosofia e no canal da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Há vários amigos que desenvolvem iniciativas interessantes, mas tudo deve ser acompanhado confrontando-se todos os conteúdos com o que está escrito nas obras de Kardec.

Na época que viveu Kardec, em algumas situações, houve comunicações de alguns Espíritos a sugerir que se comercializasse a mediunidade e entregasse o dinheiro obtido com esse comércio aos pobres. O próprio Kardec, ao tomar contato com essa informação, fez evocações e descobriu tratar-se de Espíritos mistificadores. Em uma de suas respostas, você toca nesse sensível ponto da comercialização dentro do movimento dito espírita. Pois bem, diante disso, quais as sugestões que você pode apresentar para que possamos transmitir uma informação espírita fiel à obra de Kardec.

Como judiciosamente diria Herculano Pires, em matéria de Espiritismo, somos todos aprendizes. Aqueles de nós que têm mais habilidade para a divulgação e a reflexão sobre a doutrina são, no máximo, operários de uma mensagem que foi revelada sob a coordenação dos Espíritos superiores, por definição, mais elevados que nós. O primeiro cuidado para sermos fiéis na transmissão da obra de Kardec é, portanto, termos ciência do nosso lugar. Não faz sentido querer comercializar a própria expertise, apresentar-se como o “professor experimentado” de Espiritismo que vai educar as pessoas. Isso não significa que, estando em um mundo material, dispensemos recursos materiais mobilizados a favor da mensagem espírita. Como bem disse o próprio Kardec, seus livros, para serem impressos e disponibilizados ao público, precisavam e precisam ser vendidos, como boa parte dos demais livros também ainda precisa. Centros espíritas precisam de sustento financeiro para se manterem. Canais do Youtube podem perfeitamente, a meu juízo, ser monetizados, empregando-se os recursos obtidos não como lucro para os responsáveis pelos canais, mas como forma de qualificar a tecnologia empregada. Basta entender que os recursos estão a serviço da causa espírita, e que a causa espírita e o próprio divulgador espírita não constituem produtos em si mesmos.

Você colabora com um grupo espírita particular. Fale um pouco mais sobre essa experiência e o que vem a ser um grupo espírita particular.

Na época de Kardec, a principal unidade do movimento espírita não eram os centros, mas os grupos espíritas particulares, mantidos por círculos íntimos de amigos ou famílias, que se dedicavam ao estudo e à evocação de Espíritos. As sociedades de pesquisa, como a Sociedade Parisiense, serviam de pontos de reunião e se dedicavam a finalidades específicas, mas a força do Espiritismo, segundo o próprio Kardec, estava nos grupos particulares. Defendo que, hoje, deveria ser disseminado um modelo híbrido, em que os centros espíritas atuais seriam entendidos como instituições culturais de divulgação do Espiritismo que estimulariam o desenvolvimento dos grupos particulares. Não penso que um tipo de organização deveria substituir o outro, mas acredito que os grupos particulares são essenciais, e foi um erro o movimento espírita abdicar deles da maneira por que abdicou. Participo de um grupo desde 2022. Reunimo-nos virtualmente e evocamos Espíritos, tanto de familiares quanto de personalidades do mundo da Filosofia ou Espíritos citados nas obras de Kardec, além de estudarmos as obras fundamentais formulando perguntas aos Espíritos e reservarmos espaço às manifestações espontâneas, pois o nosso fundador acreditava que ambas as formas de contato com os Espíritos (evocações e manifestações espontâneas) eram necessárias. Nossas sessões têm por objetivo identificar, sem provocação desrespeitosa aos Espíritos, o fornecimento de evidências de independência das ideias expressas nas comunicações mediúnicas em relação aos próprios médiuns e/ou aos membros do grupo, para fins de registro e reforço da convicção espírita; obter, através do concurso do diálogo com os Espíritos, comunicações instrutivas que ajudem a pensar sobre determinado tópico de interesse do Espiritismo e de suas consequências, bem como conselhos particulares para os membros; e auxiliar, através do diálogo, os Espíritos em sofrimento que se manifestarem ou forem evocados. Por enquanto, mantemos esse material entre nós, mas há a intenção de, no futuro, editar uma parte dele para publicação, sempre com o propósito de estimular outros espíritas a organizar seus próprios grupos. O Espiritismo é um espiritualismo experimental. Não podemos perder essa característica. Que os outros condenem a evocação de Espíritos; o espírita deve se servir dela.

Deixe uma mensagem final aos leitores de nossa revista.

Foi um prazer participar desta conversa. Desejo a todos que sempre aproveitemos o máximo que pudermos os ensinos compilados por Kardec!

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita