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por Paulo Hayashi Jr.

 

A fé raciocinada e a profecia autorrealizável


Desde tempos imemoriais, a vida do ser humano é vinculada à existência de algum propósito de vida. Uma missão, uma tarefa, algum objetivo de existência que transforma não apenas a pessoa em si, mas deixa um legado para o mundo. É a existência que, assim como na clássica frase do general romano Júlio César, permite dizer: Vi, vim, venci. Entretanto, nem sempre a vida acontece do jeito esperado. Planejar e querer é uma questão. Realização é outra.

Para não apenas tentar compreender a questão, mas de certo modo também ajudá-la em sua resolução, alguns teóricos e cientistas procuraram buscar respostas e estudar alternativas para que a pessoa não ficasse dependente da sorte, ou da roda da fortuna. Dentre as várias possibilidades, uma delas vem despertando atenção nos últimos tempos, que é a profecia autorrealizável. Profecia autorrealizável, efeito placebo, efeito Pigmaleão são alguns nomes para este fenômeno de interação entre o ser humano e seu contexto e que cujas expectativas e atitudes positivas permite a obtenção dos bons resultados.

Na área bíblica e de estudos da espiritualidade, tais questões podem ser vistas através da fé. Por exemplo, na passagem presente em Marcos (11: 22-24), há a ilustração deste fenômeno: “Tende fé em Deus, porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito. Por isso, vos digo que tudo o que pedirdes, orando, crede que o recebereis e tê-lo-eis”. Além deste trecho, há muitos outros que relacionam à capacidade realizadora do ser humano ao seu condicionamento mental e de fé, tais como: Mateus (17:20), Filipenses (4:13), 1 João (5:4), Hebreus (11:1), Tiago (2:17-18), entre outros.

Já o poeta romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C.) imortalizou tal fenômeno através da história do escultor Pigmaleão que se apaixonou pela própria estátua que criara, tamanha a sua beleza e perfeição e que por isso foi premiado com vida pela deusa Vênus. O que acabou influenciando alguns séculos depois o escritor irlandês Bernard Shaw (1856-1950) que escreveu a peça de teatro Pigmaleão em 1912 e publicado pela primeira vez em 1916. Nesta história, há uma florista do povo que é transformada em alguém da alta sociedade devido ao professor Henry Higgins que percebeu o potencial interior dela e insistiu em sua melhoria. Ou seja, com as condições e os estímulos adequados, é possível transformar positivamente a vida de uma pessoa.

Na área da ciências sociais, um dos precursores nesta área moderna de estudo foi William Thomas que em 1928 fez a seguinte asserção: “se os homens definem as situações como reais, elas são reais em suas consequências” (Thomas, 1928, p.572). Tal passagem destaca a questão da apreciação subjetiva de uma situação por uma pessoa e de seu comportamento “como se fosse”. Para o autor, a questão do contexto é fundamental para a compreensão dos mecanismos internos do indivíduo de fazer a sua leitura e estratégia (Thomas, 1928). Tal estudo vai influenciar o famoso artigo de Robert Merton de 1948 e a sua teoria da profecia autorrealizável. Muitos estudos, em especial na educação, começaram a se desenvolver, mas ainda com muitas questões a serem resolvidas (Wilkins, 1976). De maneira similar, em 1955, Beecher vai escrever um artigo na área de saúde sobre o efeito placebo. O que vem auxiliando tanto no desenvolvimento de tratamentos complementares na área de saúde, quanto até mesmo no aprimoramento dos esportes de alto rendimento (Hurst et al., 2020).

De certo modo, boa parte da ciência que trata do autocuidado, ou dos esforços humanos relacionados ao progresso, tem em sua essência uma conhecida estrutura dos espíritas: a fé raciocinada.

Raciocínio para saber o que se quer e imaginar o resultado desejado. Fé para crer com toda a força de que o resultado virá conforme o esperado. Ou como questiona Goddard (2018, p.37): “Como eu me sentiria se meu desejo já houvesse sido realizado?”

A fé raciocinada constituí a essência do ser humano acreditar em seu potencial e desenvolvê-lo de forma adequada para sair deste mundo como vitorioso. É o equilíbrio entre razão e sentimentos, objetivos e ação, teoria e prática, potencial e realização. Mais do que o trabalho isolado da razão sem o coração, ou vice-versa, tampouco a briga entre eles, o trabalho sinfônico e orquestrado da riqueza do ser humano em conjunto com Deus.

Por isso, os ensinamentos de Emmanuel: “Tua fé raciocinada constituirá, por fim, a lâmpada que Allan Kardec te colocou nas mãos, para que a chama da caridade nela flameje constantemente. Caminharás com ela e por ela atingirás a compreensão real dos ensinamentos do Cristo, aprendendo a servir com Ele, nosso Mestre e Senhor, para que o Reino de Deus se levante no coração dos homens, construindo a felicidade dos homens para sempre” (Emmanuel, 2023). Enfim, que a fé raciocinada nos leve mais longe, mais alto, mais rápido no caminho da perfectibilidade infinita do espírito.

 

Referências:

Beecher, H.K. (1955). The powerful placebo. JAMA 159: 1602–1606

Emmanuel. (2023). Senda para Deus. Brasília: FEB editora.

Goddard, N. (2018). Obras reunidas. Rio de Janeiro: Ed. Clube dos autores.

Hurst, P. et al. (2020). The Placebo and Nocebo effect on sports performance: A systematic

review. European Journal of Sport Science, Vol. 20, No. 3, 279–292.

Merton, R. K. (1948). The self-fulfilling prophecy. The Antioch Review, 8(2), 193–210.

Thomas, W.I. (1928). The child in America. New York, NY: AA Knopf.

Wilkins, W. (1976). The concept of a self-fulfilling prophecy. Sociology of Education 49:175-83

 
  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita