A fé raciocinada e a profecia
autorrealizável
Desde tempos imemoriais, a vida do ser humano é
vinculada à existência de algum propósito de vida. Uma
missão, uma tarefa, algum objetivo de existência que
transforma não apenas a pessoa em si, mas deixa um
legado para o mundo. É a existência que, assim como na
clássica frase do general romano Júlio César, permite
dizer: Vi, vim, venci. Entretanto, nem sempre a vida
acontece do jeito esperado. Planejar e querer é uma
questão. Realização é outra.
Para não apenas tentar compreender a questão, mas de
certo modo também ajudá-la em sua resolução, alguns
teóricos e cientistas procuraram buscar respostas e
estudar alternativas para que a pessoa não ficasse
dependente da sorte, ou da roda da fortuna. Dentre as
várias possibilidades, uma delas vem despertando atenção
nos últimos tempos, que é a profecia autorrealizável.
Profecia autorrealizável, efeito placebo, efeito
Pigmaleão são alguns nomes para este fenômeno de
interação entre o ser humano e seu contexto e que cujas
expectativas e atitudes positivas permite a obtenção dos
bons resultados.
Na área bíblica e de estudos da espiritualidade, tais
questões podem ser vistas através da fé. Por exemplo, na
passagem presente em Marcos (11: 22-24), há a ilustração
deste fenômeno: “Tende fé em Deus, porque em verdade vos
digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e
lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer
que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será
feito. Por isso, vos digo que tudo o que pedirdes,
orando, crede que o recebereis e tê-lo-eis”. Além deste
trecho, há muitos outros que relacionam à capacidade
realizadora do ser humano ao seu condicionamento mental
e de fé, tais como: Mateus (17:20), Filipenses (4:13), 1
João (5:4), Hebreus (11:1), Tiago (2:17-18), entre
outros.
Já o poeta romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C.)
imortalizou tal fenômeno através da história do escultor
Pigmaleão que se apaixonou pela própria estátua que
criara, tamanha a sua beleza e perfeição e que por isso
foi premiado com vida pela deusa Vênus. O que acabou
influenciando alguns séculos depois o escritor irlandês
Bernard Shaw (1856-1950) que escreveu a peça de teatro
Pigmaleão em 1912 e publicado pela primeira vez em 1916.
Nesta história, há uma florista do povo que é
transformada em alguém da alta sociedade devido ao
professor Henry Higgins que percebeu o potencial
interior dela e insistiu em sua melhoria. Ou seja, com
as condições e os estímulos adequados, é possível
transformar positivamente a vida de uma pessoa.
Na área da ciências sociais, um dos precursores nesta
área moderna de estudo foi William Thomas que em 1928
fez a seguinte asserção: “se os homens definem as
situações como reais, elas são reais em suas
consequências” (Thomas, 1928, p.572). Tal passagem
destaca a questão da apreciação subjetiva de uma
situação por uma pessoa e de seu comportamento “como se
fosse”. Para o autor, a questão do contexto é
fundamental para a compreensão dos mecanismos internos
do indivíduo de fazer a sua leitura e estratégia
(Thomas, 1928). Tal estudo vai influenciar o famoso
artigo de Robert Merton de 1948 e a sua teoria da
profecia autorrealizável. Muitos estudos, em especial na
educação, começaram a se desenvolver, mas ainda com
muitas questões a serem resolvidas (Wilkins, 1976). De
maneira similar, em 1955, Beecher vai escrever um artigo
na área de saúde sobre o efeito placebo. O que vem
auxiliando tanto no desenvolvimento de tratamentos
complementares na área de saúde, quanto até mesmo no
aprimoramento dos esportes de alto rendimento (Hurst et
al., 2020).
De certo modo, boa parte da ciência que trata do
autocuidado, ou dos esforços humanos relacionados ao
progresso, tem em sua essência uma conhecida estrutura
dos espíritas: a fé raciocinada.
Raciocínio para saber o que se quer e imaginar o
resultado desejado. Fé para crer com toda a força de que
o resultado virá conforme o esperado. Ou como questiona
Goddard (2018, p.37): “Como eu me sentiria se meu desejo
já houvesse sido realizado?”
A fé raciocinada constituí a essência do ser humano
acreditar em seu potencial e desenvolvê-lo de forma
adequada para sair deste mundo como vitorioso. É o
equilíbrio entre razão e sentimentos, objetivos e ação,
teoria e prática, potencial e realização. Mais do que o
trabalho isolado da razão sem o coração, ou vice-versa,
tampouco a briga entre eles, o trabalho sinfônico e
orquestrado da riqueza do ser humano em conjunto com
Deus.
Por isso, os ensinamentos
de Emmanuel: “Tua fé raciocinada constituirá, por fim, a
lâmpada que Allan Kardec te colocou nas mãos, para que a
chama da caridade nela flameje constantemente.
Caminharás com ela e por ela atingirás a compreensão
real dos ensinamentos do Cristo, aprendendo a servir com
Ele, nosso Mestre e Senhor, para que o Reino de Deus se
levante no coração dos homens, construindo a felicidade
dos homens para sempre” (Emmanuel, 2023). Enfim, que a
fé raciocinada nos leve mais longe, mais alto, mais
rápido no caminho da perfectibilidade infinita
do espírito.
Referências:
Beecher, H.K. (1955). The powerful
placebo. JAMA 159: 1602–1606
Emmanuel. (2023). Senda para Deus.
Brasília: FEB editora.
Goddard, N. (2018). Obras reunidas.
Rio de Janeiro: Ed. Clube dos autores.
Hurst, P. et al. (2020). The
Placebo and Nocebo effect on sports performance: A
systematic
review.
European Journal of Sport Science, Vol. 20, No. 3,
279–292.
Merton, R. K. (1948). The
self-fulfilling prophecy. The Antioch Review, 8(2),
193–210.
Thomas, W.I. (1928). The child in
America. New York, NY: AA Knopf.
Wilkins, W. (1976). The concept of a
self-fulfilling prophecy. Sociology of Education
49:175-83