O mal que nos faz mal é...
Uma pessoa
escreveu-nos o seguinte:
Em relação ao matrimônio e divórcio, tenho uma
dúvida. Se esta união no plano espiritual se
refere a um resgate entre dois seres, pode uma
das partes dar um fim no relacionamento em
qualquer altura, mesmo sabendo que a outra parte
ainda alimenta sentimentos em relação ao
parceiro? O que pensar das separações e do
divórcio? Como podemos aceitar melhor o fim de
um relacionamento? Como podemos saber que este
débito já está quitado? E os outros membros da
família (filhos, pais, etc.) como ficam? Têm
eles também que passar por essa prova?
Para falarmos de divórcio é necessário falar
primeiramente de casamento, tema sobre o qual
Emmanuel, que foi o mentor espiritual da obra de
Chico Xaver, escreveu o seguinte:
“O colégio familiar tem suas origens sagradas na
esfera espiritual. Em seus laços, reúnem-se
todos aqueles que se comprometeram, no Além, a
desenvolver na Terra uma tarefa construtiva de
fraternidade real e definitiva.” (O
Consolador, pergunta 175.)
“O matrimônio na Terra é sempre uma resultante
de determinadas resoluções tomadas na vida do
Infinito, antes da reencarnação dos Espíritos,
razão pela qual os consórcios humanos estão
previstos na existência dos indivíduos, no
quadro escuro das provas expiatórias ou no
acervo de valores das missões que regeneram e
santificam.” (O Consolador, pergunta
179.)
Toda vez que ocorre uma separação quebra-se um
compromisso, que ficará, então, adiado,
transferido, relegado para uma futura
oportunidade. Esse é o entendimento dado por
André Luiz ao evento chamado divórcio:
"Divórcio, edificação adiada, resto a pagar no
balanço do espírito devedor. Isso geralmente
porque um dos cônjuges, sócio na firma do
casamento, veio a esquecer que os direitos na
instituição doméstica somam deveres iguais.
Auxiliemos, na Terra, a compreensão do casamento
como sendo um consórcio de realizações e
concessões mútuas, cuja falência é preciso
evitar.” (Sol nas Almas, cap. 10.)
É evidente que nos casos em que o divórcio tenha
interrompido a programação que os cônjuges
fizeram antes de reencarnar, os compromissos não
solvidos persistirão, visto que a fuga ao dever
não é capaz de liberar o devedor da
responsabilidade assumida.
Tal é, com certeza, o motivo pelo qual os
instrutores espirituais aceitam o divórcio, mas
não o incentivam, embora seja evidente que
existem situações em que ele se apresente como a
única opção possível, adiando-se então a
realização, que será retomada oportunamente,
quando isso se tornar possível.
Para Emmanuel, coerentemente com esse
entendimento, o divórcio deve ser cogitado como
medida de última instância. Eis o que ele
escreveu:
"Ergueste o lar por amor e tão só pelo amor
conseguirás conservá-lo. Inegavelmente não se te
nega o direito de adiar realizações ou dilatar o
prazo destinado ao resgate de certos débitos, de
vez que ninguém pode aceitar a criminalidade em
nome do amor. Entretanto, nos dias difíceis do
lar recorda que o divórcio é justo, mas na
condição de medida articulada em última
instância.” (Na Era do Espírito, cap.
11.)
José Herculano Pires, o sempre admirado e
respeitado pensador espírita, trouxe-nos também
sua contribuição sobre o assunto:
“Quem ama sabe tolerar e perdoar. As
dificuldades serão superadas dia a dia pelo
cultivo do amor. O cultivo do amor é como o
cultivo da arte. E quem romper um casamento de
amor, por simples intolerância, não encontrará
mais remédio para a sua solidão." (Na Era do
Espírito, cap. 11.)
De forma resumida, com fundamento no que os
ensinos espíritas apresentam, podemos concluir:
1) O Espiritismo aceita o divórcio quando os
cônjuges já se encontram separados. O divórcio
será então uma forma jurídica de legalizar o que
de fato já se consumou.
2) O divórcio deve ser medida de última
instância, quando não mais exista nenhum clima
de convivência entre os cônjuges.
3) Divórcio é, em verdade, uma edificação
adiada, resto a pagar no balanço do espírito
devedor.
4) Todos os problemas gerados a partir da
separação conjugal pesarão na folha daquele que
lhe foi a causa.
Esperamos que estas explicações satisfaçam à
dúvida dos que nos leem.
Quanto à melhor forma de aceitar o fim de um
relacionamento, cremos que o cônjuge lesado deve
manter a esperança e a confiança em Deus, com a
certeza de que na vida será sempre melhor
receber a ofensa ou a agressão do que sermos
aquele que ofende ou agride.
O mal que nos faz mal – lembra-nos Divaldo
Franco –
não é o mal que nos fazem, mas o mal que
fazemos. Já o amor, quando verdadeiro, ele fará
bem sempre e a todos nós.