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por Mário Frigéri

 

O menino Jesus no templo


Lucas foi o único evangelista a registrar o episódio de Jesus, aos doze anos, dialogando com os doutores no Templo de Jerusalém  cena que, séculos depois, inspiraria o pintor francês Jean Auguste Dominique Ingres (1780-1867). Em 1862, enquanto trabalhava em silêncio no quadro que se tornaria célebre como “Jesus entre os Doutores”, o artista era, segundo a Revista Espírita (Ano V, 1862, FEB, p. 246-250), espiritualmente assistido por um antigo mestre da pintura, o Espírito Davi, que o acompanhava e inspirava em sua criação.

Essa intervenção espiritual veio a público por meio de uma comunicação espontânea recebida pela Sra. Dozon, em abril de 1862, na qual o Espírito Davi descreveu com notável precisão a obra ainda desconhecida do público. Segundo ele, Ingres executava, inconscientemente, uma ordem da vontade divina, e o quadro conduziria muitos corações, emocionados pela figura do Menino Jesus, a uma experiência profunda do sagrado. O comunicante chegou a relatar detalhes da composição, das expressões dos doutores e até da ação do anjo protetor do artista.

Diante da possibilidade de mistificação, Allan Kardec determinou a verificação direta do fato. O Sr. Dozon visitou o ateliê de Ingres e encontrou o quadro recém-concluído, confirmando a surpreendente exatidão da descrição espiritual. Posteriormente, ao contemplar a obra exposta, Kardec a considerou uma das páginas mais sublimes da pintura de seu tempo, destacando sobretudo a força interior da cena: a variedade de sentimentos nos doutores e, no Menino, não um orador humano, mas o instrumento silencioso de uma voz celeste.

Consultado, Ingres confessou que não pintara a obra em condições comuns: iniciara-a pela arquitetura, e as figuras surgiram sem planejamento consciente. O episódio foi coroado pela manifestação do Espírito Lamennais, que exaltou a obra como um triunfo do espiritualismo na arte, afirmando que o verdadeiro sentimento do belo caminha lado a lado com a elevação moral. Ao contemplarmos hoje a tela imortalizada por Ingres (que pode ser vista na Internet), revivemos não apenas a admiração de Kardec, mas a certeza de que a arte, quando tocada pelo Espírito, torna-se revelação. Essa contemplação memorável nos levou à composição do seguinte soneto:


JESUS ENTRE OS DOUTORES


Ei-lo no Templo, Jesus, um menino,

Dando aos Doutores a excelsa lição,

E sobrepondo à humana arguição

A intensa luz de Seu Verbo divino.

 

Na face deles é enorme a emoção,

Em cada olhar há surpresa ante o ensino;

Vede que tomba das mãos dum rabino

A antiga Lei de Moisés pelo chão!

 

Entre uma e outra sutil pincelada,

Ingres medita e, de alma inspirada,

Susta no ar o pincel em fulgores...

 

Mas finda a obra e desfeito esse espanto,

A tela mostra, sublime, o encanto

Do Cristo jovem pregando aos Doutores.

 

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Mário Frigéri é poeta, escritor, autor e youtuber com a mente e o coração voltados para o esplendor do Evangelho e da Doutrina Espírita. Campinas-SP.


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita