O amor sob dessemelhantes abordagens
Consistirá o amor em diferentes estágios identificados
nos grupos de substâncias químicas que atuam no corpo
físico? A testosterona e o estrogênio alimentam a
luxúria? Será que a atração sexual provém apenas da
produção de dopamina, norepinefrina e serotonina? Será
que a oxitocina, produzida pelo hipotálamo, uma glândula
cerebral, e liberada tanto por homens quanto por
mulheres durante o orgasmo, consegue manter, por longos
anos, uma união afetiva entre casais?
Hellen Fischer, uma das estudiosas do assunto, afirma
que o amor tende a desaparecer em pouco tempo. Para ela
a oxitocina “sensibiliza os nervos nas contrações
musculares, porém o efeito dessas substâncias é pouco
duradouro, resultando no esfriamento do amor e nas
separações entre os casais, razão do grande número de
divórcios”. [1]
Nessa direção caminha Barbara Fredrickson, diretora do
Laboratório de Emoções Positivas e Psicofisiologia da
Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill [EUA],
que sugere novo conceito sobre o amor, baseado no
arranjo biológico. Para ela a ideia do amor eterno é um
mito e uma impossibilidade fisiológica, pois o “amor” é
fugaz. Trata-se tão somente de “micromomentos de
ressonância de positividade”. Bárbara destaca três
protagonistas-chave no microcenário do amor. O primeiro
é o cérebro, ou, mais precisamente, os
neurônios-espelhos. O segundo é a oxitocina, produzida
no hipotálamo, para ela um hormônio vinculado ao “amor”
e ao “afeto”. O terceiro é o nervo vago, que liga o
cérebro ao resto do corpo, e em especial ao coração –
isso torna a pessoa mais amorosa e aumenta suas conexões
positivas.
Não se pode definir amor como se fosse a abrasadora
paixão que provoca os desejos carnais. Esta não passa de
uma imagem de um grosseiro simulacro do amor. Nos dias
de hoje, fala-se e escreve-se muito sobre sexo,
sensualismo, erotismo; raramente sobre amor. Certamente,
porque o “sentimento por excelência” não se deixa
decifrar academicamente, repelindo toda tentativa de
definição científica.
Distinguindo a necessidade de amor (como o amor de uma
criança para sua mãe) e o amor divino (De Deus pela
humanidade), podemos refletir das naturezas mais
básicas do amor até as mais complicadas, que a princípio
se semelham.
Tal qual os gregos podemos dividir o amor em quatro
categorias, baseadas nas quatro palavras gregas para o
amor: storge, philia, eros e ágape.
Storge (Afeição/Amor
Fraternal) É o amor natural e instintivo que nasce da
familiaridade, como o laço entre pais e filhos ou
membros de um círculo social próximo. É emotivo,
difundido e não exige "mérito" para existir. Por parecer
algo "pronto" ou garantido, as pessoas tendem a esperar
sua presença sem esforço, o que pode desgastá-lo.
Philia (Amizade)
É o laço forte entre pessoas que compartilham um
interesse ou propósito comum.
É o menos "biológico" ou instintivo dos amores. Não
nasce da necessidade física, mas de algo que os amigos
olham juntos (o "embasamento"). É um admirável
sentimento, pois combate a solidão e enobrece a psique
humana através da escolha consciente.
Eros (Amor
romântico) é o estado de "estar apaixonado",
frequentemente associado ao desejo, mas que transcende o
puro instinto sexual. É intenso e capaz de total devoção
ao amado.
Se ,porém, não houver lucidez ,pode tornar-se cruel e
levar a tragédias, pois sua intensidade cega o
julgamento.
Ágape (Amor
Incondicional/Caridade) é o amor divino e
desinteressado, é o maior de todos sentimentos que
transborda e não depende da beleza ou do valor do objeto
amado. Se os amores naturais (Storge, Philia, Eros) são
o jardim, o Ágape é a ação de Deus (sol e chuva) e do
homem (jardineiro) que impede que esse jardim morra ou
se torne selvagem.
Uma relação de amor saudável (como a de uma filha ou um
filho) pode envolver Storge (carinho familiar) e Philia
(amizade com os pais), e até Eros (em um amor romântico,
mas não no sentido parental). O Ágape é visto como a
base e o ápice, o amor que transcende os outros,
tornando o amor familiar e o amor romântico mais
altruístas e completos, unindo-os ao amor divino.
O Espiritismo demonstra que a natureza nos deu a
necessidade de amarmos e de sermos amados. Um dos
maiores encantos que nos são concedidos na Terra é o de
encontrar corações que com o nosso simpatizem. “Dá-lhe
ela [a natureza], assim, as primícias da felicidade que
nos aguarda no mundo dos Espíritos perfeitos, onde tudo
é amor e benignidade.” [2] Paulo de Tarso, escrevendo
aos filipenses, informou que “o amor deve crescer, cada
vez mais, no conhecimento e no discernimento, a fim de
que o aprendiz possa aprovar as coisas que são
excelentes”. [3] Se atendermos ao conselho do Apóstolo
dos Gentios, cresceremos em valores espirituais para a
eternidade, mas se rumarmos por atalhos escorregadiços,
“o nosso amor será simplesmente querer e tão somente com
o “querer” é possível desfigurar, impensadamente, os
mais belos quadros da vida”. [4]
Léon Denis interpretou: “O amor, profundo como o mar,
infinito como o céu, abraça todas as criaturas. Deus é o
seu foco. Assim como o Sol se projeta, sem exclusões,
sobre todas as coisas e reaquece a natureza inteira,
assim também o Amor divino vivifica todas as almas; seus
raios, penetrando através das trevas do nosso egoísmo,
vão iluminar com trêmulos clarões os recônditos de cada
coração humano”. [5]
O Amor “resume a doutrina de Jesus toda inteira, visto
que esse é o sentimento por excelência, e os sentimentos
são os instintos elevados à altura do progresso feito. O
ponto delicado do sentimento é o Amor, não o Amor no
sentido vulgar do termo, mas esse sol interior que
condensa e reúne em seu ardente foco todas as aspirações
e todas as revelações sobre-humanas”. [6]
O amor, um sentimento por excelência, é a
dinâmica da vida, e a harmonia da Natureza é o remédio
para todos os males que atormentam o homem. Tudo o que
possamos idealizar sobre o amor pode se consubstanciar
como parcela deste sentimento, mas ele é muito maior e
mais abrangente, até porque o bem-querer, toda a
bondade, a tolerância, a alegria, a proximidade, só
poderão ser um fragmento do amor quando não tiverem
laços no apego, na imperiosa necessidade de permuta, no
egoísmo que exige sempre condições e regras.
Referências bibliográficas:
[1]Fischer , Helen. The Anatomy of
Love, New York: Norton,1992
[2]Kardec, Allan. O Livro dos
Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB ed. 2002, questão
983-a
[3]Filipenses 1:9-11
[4]Xavier, Francisco Cândido. Fonte
Viva, Cap 91, Problemas do amor, RJ: Ed FEB, 1999
[5]Denis, Léon. O Problema do Ser do
Destino e da Dor, RJ: Ed FEB, 2000
[6]Allan Kardec. Da obra: O Evangelho
Segundo o Espiritismo. Lázaro. [Paris, 1862.] 112ª
edição.
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