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por Maiza Silva

Letramento racial nas Casas Espíritas: caminho para o acolhimento


A Doutrina Espírita, fundamentada nos princípios de justiça, amor e caridade, tem como uma de suas missões acolher os que sofrem e promover a elevação moral da humanidade. Em um país marcado por profundas desigualdades históricas, como o Brasil, é imprescindível que os espaços espíritas se posicionem de forma consciente diante das questões sociais que atravessam a vida dos indivíduos.

Neste contexto, o letramento racial nas casas espíritas surge como um caminho necessário para fortalecer o compromisso com o acolhimento, a escuta respeitosa e a inclusão, uma forma de viver, na prática, os valores que o Espiritismo preconiza:

 

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas más inclinações” (O Evangelho Segundo O Espiritismo, cap. XVII, item 4).

 

Muito além do conhecimento técnico, o letramento racial é um processo formativo que possibilita o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre as manifestações do racismo na sociedade e suas raízes históricas e sociais. Quando adotado como ferramenta de capacitação no ambiente da casa espírita, especialmente para expositores e dirigentes, esse processo permite ampliar a sensibilidade para as questões raciais, evitar discursos excludentes e promover práticas mais acolhedoras, alinhadas aos princípios de fraternidade, igualdade e justiça presentes na Doutrina Espírita.

Essa sensibilização se torna ainda mais relevante quando consideramos o papel da reunião pública como espaço de acolhimento e introdução à Doutrina Espírita. Para muitos que vão à casa espírita pela primeira vez, ela é a porta de entrada para o Espiritismo, sendo o expositor uma espécie de anfitrião. Nele, o visitante pode encontrar conforto e identificação, ou, ao contrário, sentir-se repelido, a depender da linguagem utilizada, das abordagens adotadas e da sensibilidade diante das diversas realidades que compõem o público presente.

Um exemplo bastante comum é atribuir provas ou expiações exclusivamente à cor da pele ou à origem social, ignorando a complexidade das trajetórias reencarnatórias e a desigualdade estrutural presente na sociedade, o que exige do expositor cuidado para não reproduzir estereótipos ou reforçar visões excludentes. Esse cuidado é um aspecto importante do letramento racial aplicado ao ensino da Doutrina Espírita alinhado à ética, à caridade e à responsabilidade pela palavra.

Segundo O Livro dos Espíritos (questões 258 a 273), o espírito escolhe o gênero de provas que deve enfrentar ciente da missão que deve cumprir, mas as particularidades, como o meio social em que reencarna, são consequências de sua trajetória e da complexidade das Leis Divinas e não meros castigos ou definições exclusivas.  Assim, ao escolher suas provas e expiações, o espírito faz conforme sua evolução e necessidades individuais e não unicamente em função de características superficiais como cor da pele ou origem social.  

Em João 16:12, Jesus destaca a importância da maturidade espiritual para o entendimento das verdades mais profundas, ao afirmar: "Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora." Por isso, determinados temas considerados mais polêmicos precisam ser tratados com discernimento e sensibilidade, especialmente em ambientes de reunião pública, onde a diversidade do público é uma realidade, estando todos os presentes em busca do mesmo objetivo: acolhimento e consolo.

Contudo, a responsabilidade pela palavra no púlpito espírita vai além da simples transmissão de conteúdo, ela envolve ética, caridade e compromisso com a elevação moral; cabendo ao expositor promover a empatia e contribuir para que a casa espírita seja, de fato, um espaço de acolhimento, luz e transformação.

 

A responsabilidade da palavra e o cuidado na retórica espírita

A prudência, tão ensinada pelo Cristo, nos orienta a oferecer o alimento espiritual conforme a capacidade de compreensão do ouvinte, sem, no entanto, negligenciar temas urgentes e necessários à evolução coletiva.

Tendo em vista que o público das casas espíritas é diverso também em instrução, compreensão doutrinária e experiência de vida; expressões que pareçam simples para alguns podem soar ofensivas ou confusas para outros. Do mesmo modo, reflexões sobre racismo, desigualdade ou privilégio devem ser conduzidas com base no Evangelho, com clareza, empatia e foco na construção do bem, e não em acusações ou julgamentos.

Nem todos têm o mesmo repertório teórico, e isso exige que tanto expositores quanto dirigentes tenham prudência nas colocações e saibam dosar o conteúdo de acordo com o contexto. Cabe aqui ressaltar que filtrar determinados assuntos antes de levá-los ao público não significa omitir verdades, mas respeitar o tempo de assimilação do grupo e garantir que a mensagem seja edificante, e não divisiva.

Saber colocar as palavras de maneira correta é outro ponto a ser observado. Com uma sociedade cada vez mais diversa e inclusiva, é evidente que a língua também acompanhe essas transformações. No entanto, levar essas mudanças diretamente para o ambiente das reuniões públicas pode ser, ao mesmo tempo, delicado e, em alguns casos, até desnecessário.

As reuniões públicas são, sobretudo, ambientes de tratamento espiritual, nos quais o palestrante espírita está a serviço. Compete a ele manter-se vigilante em suas atitudes, a fim de ponderar suas ações e evitar qualquer postura ou fala que possa causar desconforto ao público que o assiste.

Ainda assim, o cuidado com as palavras é fundamental. Eliminar do vocabulário expressões que hoje são reconhecidas como pejorativas, como enegrecer ou denegrir, e substituí-las por outras mais adequadas deve ser um esforço constante e consciente, de forma que se torne um hábito, dentro e fora do ambiente da casa espírita.

Em relação aos dirigentes, reconhecer que a condução de uma casa espírita requer sensibilidade, escuta e preparo é fundamental, o que requer compromisso em manter o ambiente da casa em sintonia com os valores doutrinários e com os desafios contemporâneos. A ausência de preparo acerca do tema pode levar a decisões equivocadas, afastar frequentadores e, pior ainda, causar dor a quem já carrega marcas profundas de exclusão social.

A atualização sobre temas como diversidade e inclusão não é uma concessão à modernidade, mas um compromisso com o Evangelho de Jesus em sua expressão mais viva: amar ao próximo como a si mesmo (Mateus 22:39).      

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo O Espiritismo. Cap. XVII, item 4. Trad. Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Questões 258 a 273. Trad. Guillon Ribeiro. 104. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

BÍBLIA. Sagrada Bíblia. João 16:12. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

BÍBLIA. Sagrada Bíblia. Mateus 22:39. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.


Maiza Silva reside em Belo Horizonte-MG.

 

 

     
     

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 Revista Semanal de Divulgação Espírita