Entrevista

por Orson Peter Carrara

Como nasceu a Casa de Caridade Irmã Vera Cruz


 
Natural de Bagé (RS), cidade da região oeste do Rio Grande do Sul, que faz fronteira com o Uruguai, Ana Lia Santos Brasil (foto) é enfermeira, atualmente não mais na ativa. Tarefeira da Casa de Caridade Irmã Vera Cruz, em Valinhos (SP) – cidade onde reside atualmente –, desempenha os trabalhos habituais de todo centro espírita - preleção, atendimento fraterno, médium de psicofonia e psicografia – e participa também da equipe do Departamento Doutrinário e do Boletim da Casa intitulado Correio da Caridade.

Na presente entrevista ela nos fala sobre a instituição a que se vincula e também sobre o livro Irmã Vera Cruz, psicografado por Chico Xavier.


Como conheceu o Espiritismo?

Como a maioria das pessoas que sofrem perda de entes queridos e buscam consolo e explicações que façam sentido a dor do coração. Foi através de uma mãe, que era espírita, e consolou as outras duas após os 3 jovens amigos sofrerem um acidente fatal de carro. Meu irmão era um deles e tinha só 20 anos; na época eu tinha 14 e fomos assistir a uma palestra de Divaldo Franco na minha cidade, onde percebi que muita coisa que ele falava, embora fosse adolescente e sua fala fosse rebuscada para mim, era muito familiar, verdadeiro e fazia sentido. Sou eternamente grata a Divaldo por ter-me apresentado a Doutrina Espírita naquele período tão doloroso. Embora já tivesse nascido médium (como todos nós) e tivesse manifestações ostensivas desde os 6 anos de idade, só fui educar minha mediunidade anos mais tarde já na fase adulta, mas essa é uma outra história, que teve participação especial de Chico Xavier.

Em Porto Alegre, como eram suas atividades espíritas?

Antes de mudar-me para Valinhos-SP, fazia parte da Sociedade Espírita Allan Kardec, de Porto Alegre-RS, uma casa fundada há 131 anos, que prima muito pelo estudo; lá estudei por vários anos e sempre atuando em preleção, passe e reuniões mediúnicas.

Que a motivou a mudar-se do Rio Grande do Sul para a cidade paulista de Valinhos?

Eu e minha irmã (também espírita e médium) queríamos ficar perto de São Paulo-SP, para conviver mais com um sobrinho, e acabamos escolhendo Valinhos.  Procuramos Casas Espíritas na cidade para trabalhar, mas sentimos maior afinidade espiritual com a Casa de Caridade Irmã Vera Cruz, sendo muito bem acolhidas e, por isso, estamos na Casa desde então, há mais de 8 anos.

Quem foi Vera Cruz?

Vera Cruz era a caçula dos cinco filhos do casal Antônio Leitão e Ambrosina Teixeira, natural de Matão-SP. Ela levava uma vida simples como toda cidade do interior oferece a seus habitantes na década de 1920. Nesta existência, Vera Cruz foi casada, mãe amorosa de filho único, uma dona de casa comum e amiga de todos que a procuravam. Morava então no bairro da Liberdade  em São Paulo, capital. Era católica não praticante, médium desde a infância e forte ligação de fé com São Francisco de Assis. Sempre que orava e lia O Evangelho Segundo o Espiritismo (presente de sua irmã Aparecida) enxergava frades franciscanos à sua volta, convivendo de maneira frequente com o Espírito que se identificou como um Amigo, chamado Frei Zacarias. Embora médium, Vera Cruz nunca frequentou ou trabalhou em uma Casa Espírita. Seu principal sonho era abrir uma Casa de assistência para as crianças e pessoas pobres de Valinhos, junto com sua irmã, mas desencarnou antes de concretizar sua ideia, no dia 30/maio/1975, aos 49 anos, por complicações de anestesia geral devido a cirurgia de catarata e miopia avançada. Contudo, a história não parou por aí, foi apenas o começo.

Por que a instituição leva o nome dela? Quando foi fundada e por quem?

A Casa de Caridade surgiu por um pedido que unia o amor entre duas irmãs para atender as crianças desnutridas e adultos abandonados pela sorte. Assim foi feito! D. Milza, já com a fé cevada em seu coração franciscano adornado pela coragem, dá início sozinha à entrega de pães e leite para as crianças de um bairro carente da cidade, e a obra só fez crescer com o auxílio de Vera Cruz (Espírito) da Espiritualidade Superior e a chegada de trabalhadores e voluntários. No dia 3/05/1977, quase dois anos após a mensagem de sua irmã, Milza Leitão de Camargo funda a Casa de Caridade Irmã Vera Cruz, na sede própria, no dia e mês do aniversário de Vera, colocando seu nome em uma justa homenagem aquela que era sua irmã pelos laços de sangue e do coração.

Vimos no site da instituição a intensa programação e conteúdos. Comente sobre as atividades.

Podemos dividir em várias frentes de trabalhos: Grupos de estudos da Doutrina para adultos, Evangelização de crianças e jovens, Atendimento ao público através do Atendimento Fraterno, Preleção e Passes; Reuniões Mediúnicas; Cursos de atualização e formação de novos trabalhadores para as áreas de estudo e Espiritual da Casa. Trabalhos voluntários nas áreas: bazar de roupas, enxoval mãe/bebê, entrega de cestas básicas, Grupo de mães c/ artesanato, Curso de Corte e Costura, Padaria, Café da Manhã e Almoço(sábados), pequenos reparos e manutenção da Casa além da nossa biblioteca com mais de mil títulos de livros de estudos e revistas espíritas. Para manter a obra funcionando, são realizados eventos anuais visando angariar recursos financeiros tais como: Venda de Yakisoba, Pizzas, Festa Junina, Noite dos Caldos, Chá - Beneficente, venda de livros espíritas em nossa livraria e a Padaria com confecção própria de pães, tortas, panetones, entre outras delícias preparadas pelas mãos operosas dos voluntários sob a proteção amorosa do "Frei Angelino"(Espírito).

O título Casa de Caridade no nome da instituição é muito expressivo. Como está isso na prática diária?

A Casa traz em seu DNA um forte apelo ao "Acolhimento" de todas as pessoas que lá chegam, seja para estudar a doutrina, desenvolver sua mediunidade, buscar consolo e alívio para suas dores morais e físicas, trabalhar como voluntário ou ser evangelizado. Buscar alimentos, roupas, enxoval mãe/bebê e demais necessidades do enfrentamento da vida com suas dificuldades, lutas e desafios. Para isso, o Evangelho de Jesus e as obras de Allan Kardec são a base de sustentação para que isso aconteça e a Caridade floresça nos corações de todos. Toda a Casa funciona em torno  disso, em um só ritmo, em uma só batida que une e liga todos nós como irmãos, como bem sugere o nome da Casa que traz a palavra "irmã"; somos todos irmãos de Vera Cruz que nos convida diariamente a prática da Caridade em todos os momentos do nosso dia na Casa ou fora dela. Como bem disse nossa Benfeitora em uma mensagem do livro: "A Caridade é o ponto de encontro, em que Jesus nos toma pelas mãos, guiando-nos para uma vida melhor".

Na história do Vera Cruz, o que mais lhe chama atenção? Alguma história marcante e emocionante?

Nos 48 anos de existência da Casa, o que chamou minha atenção foi o trabalho realizado com a comunidade carente de Valinhos, tendo um papel muito grande e importante para tirar muitas crianças, jovens e adultos da desnutrição e a comunidade respondeu com doações que resultaram na construção da sede própria e no socorro aos necessitados. Além da parte Espiritual havia o trabalho incrível  de muitos voluntários e tarefeiros  de todas as áreas da Evangelização de Crianças e dos jovens, com atendimento médico, odontológico, entrega de cestas básicas semanais às famílias, roupas, brinquedos, além de cursos profissionalizantes de computação, datilografia, corte e costura, artesanato, entre outros. E até hoje, muitas pessoas que foram atendidas pela Casa, agora adultas ou idosas, falam com carinho e gratidão da acolhida que sempre tiveram, relatando que foram conhecer o que era: pão, leite com chocolate, iogurte, frutas no farto café da manhã, servido tradicionalmente aos sábados a todos os frequentadores, trabalhadores e evangelizandos. Este café permanece sendo o ponto de encontro e acolhimento a todos que lá chegam ou trabalham. A Evangelização continua atuante, pelas mãos operosas e corações amorosos de trabalhadores e voluntários comprometidos e unidos pelo ideal de servir. Como nos ensina Vera em mais uma de suas mensagens: "Servir é o culto mais importante do Evangelho".

Fale-nos do livro psicografado por Chico Xavier e ligado à instituição.

O livro Irmã Vera Cruz surgiu pela iniciativa do escritor, biógrafo e amigo pessoal de Chico Xavier, Elias Barbosa, que assumiu o compromisso de transformar em livro as mensagens que Chico Xavier recebeu do Espírito de Vera Cruz Leitão Bertoni para sua irmã, Milza Leitão Camargo, no período de 1975 a 1978 por ocasião da visita de Milza ao Grupo Espírita Casa da Prece, em Uberaba-MG. Em um desses encontros, Chico disse a Milza que Vera Cruz (Espírito) pedia a ela para abrir uma Casa de Assistência às crianças pobres de Valinhos, conforme haviam combinado quando ela ainda estava encarnada. Além das palavras de consolo transmitidas nas mensagens para familiares e amigos, Vera Cruz orientou sua irmã durante todo o período da construção da sede própria e dos trabalhos a serem desenvolvidos bem como deixou transparecer a sua elevação espiritual nos relatos envolvendo os Irmãos Franciscanos e do lugar onde se encontrava. O livro traz o prefácio de Emmanuel, foi publicado em 1980,com tiragem de 15.000 mil exemplares e até hoje só teve uma única edição e pode ser adquirido nos sebos do Brasil e exterior bem como na plataformas de compras on-line.

Algo mais que gostaria de acrescentar?  

Cabe ressaltar que a aparente vida simples e comum deste Espírito em sua última encarnação, nos faz crer que poderia ser a de um "Espírito Completista" pelas seguinte considerações : a primeira mensagem foi só 3 meses após o seu desencarne e depois de a ter psicografado, Chico Xavier comenta com seus confrades que participavam dos trabalhos, "que o Centro ficara todo iluminado durante  a mensagem" e que o "benfeitor que a amparara em sua desencarnação, era o seráfico Frei Fabiano de Cristo " e Vera não mencionara isso por humildade. Suas encarnações anteriores foram como irmã Clarissa confirmado por ela em uma das mensagem, demonstra muita afinidade com os Franciscanos aos quais chama de irmãos, sendo acompanhada por um grupo deles no período de seu desencarne. O lugar onde refere se encontrar na espiritualidade recebendo assistência é no "Lar das bençãos do inesquecível São Francisco". A participação do Dr. Bezerra de Menezes, na mensagem de Chico dirigida à Milza, onde diz: "Vera Cruz continuará auxiliando os seus esforços na obra de amor e paz, Caridade e bênção a que se dedicou".

Suas palavras finais.

Agradeço ao Orson Carrara e à revista O Consolador pelo convite e a oportunidade de contar um pouco desta bonita história de nossa Benfeitora Irmã Vera Cruz, da nossa fundadora D. Milza e da Casa de Caridade Irmã Vera Cruz. Desejo a vocês votos de muita paz e êxito na continuação deste importante e iluminado trabalho de divulgação da Doutrina Espírita para o Brasil e o Mundo. "O Amor que se ilumina é entendimento e apoio" (Irmã Vera Cruz).

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita