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por Marcos Paulo de Oliveira Santos

 

O Espiritismo é uma Religião?


Religião é uma palavra que carrega em si um dos sentimentos mais antigos e profundos da humanidade: o desejo de ligar-se ao sagrado, de compreender o que há além do que os olhos veem.

Sua origem vem do latim religare, que significa “ligar novamente” — como quem tenta unir o humano ao divino, o terreno ao eterno. É esse fio invisível que, desde os primórdios, une o homem ao mistério da vida, ao sentido da existência e à esperança de algo maior do que si mesmo.

A religião não se resume a templos, ritos ou dogmas. Ela é, antes de tudo, uma busca interior, uma jornada que cada povo, cada cultura e cada indivíduo percorre à sua maneira. Pode manifestar-se nas orações silenciosas, nos cânticos que ecoam em comunidades, nas danças sagradas, nas palavras dos profetas ou na contemplação silenciosa de quem olha o céu e sente gratidão.

Ser religioso não é apenas crer, mas sentir-se parte de algo vasto, compreender que há um sentido que transcende o imediato. A religião é ponte e também espelho: ponte entre o humano e o divino; espelho que reflete o que há de mais íntimo e sagrado em nós.

Assim, religião é o nome que damos ao gesto eterno de buscar o sentido da vida — e de tentar, com humildade, conversar com o grande mistério.

Sob esta acepção, SIM, o Espiritismo é uma religião. Visto ser a doutrina por excelência que busca a transformação moral do indivíduo, calcada nos ensinamentos do Cristo Jesus.

O termo “religião” também, não raras vezes, traz em sua acepção algumas características que NÃO constituem a Doutrina Espírita.

No Espiritismo não há dogmas.

O Espiritismo não tem sacerdotes e não adota, nem usa em suas reuniões e em suas práticas, altares, imagens, andores, velas, procissões, sacramentos, concessões de indulgência, paramentos, bebidas alcóolicas ou alucinógenas, incenso, fumo, talismãs, amuletos, horóscopos, cartomancia, pirâmides, cristais ou quaisquer outros objetos, rituais ou formas de culto exterior.

O Espiritismo não impõe os seus princípios. Convida os interessados em conhecê-lo a submeterem os seus ensinos ao crivo da razão antes de aceitá-los.

A prática espírita é realizada com simplicidade, sem nenhum culto exterior, dentro do princípio cristão de que Deus deve ser adorado em espírito e verdade.  

No Espiritismo não há remuneração pela administração do Centro Espírita. Todos os que lá estão, o fazem de forma voluntária.

No Espiritismo não há dízimo; oferendas; sacrifícios; indulgências...

No Espiritismo não há casamentos, batismos, extrema unção.

No Espiritismo não há hierarquias, ou seja, não há um médium especial; algum santo; um papa, tampouco um local sagrado.

Não há um livro sagrado.

Não há uma vestimenta específica para se frequentar um centro espírita. Deve-se, por óbvio e bom-senso, utilizar roupas adequadas a um local de oração. Não se pode supor que alguém vá de biquini ou sunga para uma casa espírita.

O Espiritismo é uma religião — mas não no sentido tradicional.

Explico: o Espiritismo, codificado por Allan Kardec no século XIX, é ao mesmo tempo filosofia, ciência e doutrina moral com consequências religiosas. Ele não se estrutura em torno de rituais, hierarquias sacerdotais, templos suntuosos ou dogmas inflexíveis — características típicas das religiões tradicionais.

Sua base é a fé raciocinada, isto é, uma crença que convida à reflexão, ao estudo e à compreensão lógica das leis espirituais. O Espiritismo busca unir razão e espiritualidade, propondo que o ser humano evolui moral e intelectualmente através de múltiplas existências, guiado pelas leis divinas de causa e efeito.

Assim, embora trate de Deus, da alma, da vida após a morte e da moral, o Espiritismo se distancia da noção de religião como sistema rígido. Ele se apresenta mais como um caminho de aprendizado e aperfeiçoamento espiritual, sem imposição de dogmas nem exigência de culto formal.

Em suma, o Espiritismo é religião pela essência — por ligar o ser humano a Deus e à espiritualidade —, mas não pela forma, pois rejeita o ritualismo e o autoritarismo da fé cega. É, antes de tudo, uma religião de consciência, onde crer é também compreender.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita