Entrevista

por Orson Peter Carrara

Padre Donizetti em Tambaú-SP: ação firme na caridade e mediunidade de cura caracterizaram o pároco


 
Natural de Tambaú (SP), onde reside, Luiza Helena Costa Zumstein Voltarelli (foto) é professora aposentada e atual presidente da Casa Espírita Beneficente Renovação e Luz. Sua cidade ficou muito conhecida pela fecunda e inspiradora atividade do Padre Donizetti (1882–1961), que marcou a história local, ultrapassando fronteiras, fato que, em face de fenômenos extraordinários atribuídos a ele, levaram a Igreja Católica à sua beatificação em 2019. Independentemente de crenças, buscamos o exemplo do homem bom que auxiliou todos que o buscavam. Como nossa entrevistada é da cidade, fomos buscar na fonte mais informações sobre o citado pároco.

 

Como você conheceu o Espiritismo?

Eu nasci em família espírita. Meus avós já traziam um refino principalmente para a mediunidade, e eu acompanhei toda a história de suas vidas. Eles realizavam reuniões em casa.

Situe a cidade de Tambaú para os leitores.

Nossa cidade localiza-se na região de Ribeirão Preto, dista aproximadamente 270 km da capital e sua população é estimada em 19 mil habitantes. Sua economia gira em torno de fábricas de cerâmica e agricultura.  A religiosidade é nela um traço característico, sendo fundamentalmente católica por conta do Pe. Donizetti. Temos algumas casas espíritas e alguns templos umbandistas.

O Centro Espírita a que se vincula, quando foi fundado?

Nossa Casa foi fundada em janeiro de 1990, sendo meus pais, alguns amigos e eu seus fundadores.

Você conheceu Padre Donizetti?

Não conheci o Pe. Donizetti, uma vez que ele partiu para a espiritualidade antes do meu nascimento. Conheço, porém, sua influência, que ecoa até hoje em nossa cidade. Conheço as histórias dos chamados milagres de cidadãos daqui e de outros lugares. Já ouvi muitas narrativas sobre as romarias que vinham de todas as partes do Brasil em busca dos milagres. Hoje a fé das pessoas está embasada nas lembranças deixadas. Aqui, em memória ao Padre, existe a Casa dos Milagres, onde as pessoas, até hoje, deixam os objetos que usavam antes de receberem o milagre. A vida do Padre é muito inspiradora.

Considerando as virtudes do sacerdote que aí atuou, o que você gostaria de destacar?

Ele era íntegro e trabalhava pela população com desinteresse de si mesmo. Fazia o bem, pela pura vontade de que as pessoas ficassem em condições melhores. Ele, ao assumir o sacerdócio, fez votos de pobreza. Era austero e exigente, como eram os padres de sua época.

Sobre o aspecto mediúnico presente na atuação dele, o que lhe chama a atenção?

Sempre me perguntei quando foi que o Padre se descobriu médium de cura, porque os arquivos que estavam disponíveis não falam disso. Mas um dia, lendo um jornal antigo, li um depoimento do irmão dele comentando um acontecimento ocorrido aos 6 anos de idade. Ali estava um médium de cura! O irmão do Padre chamava-se Chopin Tavares de Lima. Eles, ainda crianças, com mais amigos, brincavam no pasto, quando um dos meninos mexeu em uma caixa de marimbondos e saiu correndo. Os demais também correram, mas um deles não conseguiu escapar e os insetos picaram o rosto dele. O menino gritava muito. E o pequeno Donizetti volta, e com as mãos vai tirando os marimbondos. Depois, passando as mãos no rosto do menino, ia dizendo: Vai passar, não foi nada, vai melhorar! Quando terminou, no rosto do menino não havia mais nada, como se nada tivesse acontecido.

Há notícias sobre ele depois da desencarnação?

Sim, muitas. Ainda há romarias, ainda são deixados pertences na Casa dos Milagres. Faz pouco tempo que houve a beatificação do Padre. Fato marcante, entre outros, todavia, aconteceu na minha própria casa: minha filha tinha 1 ano e 2 meses, quando resolvi mostrar uma foto do Padre pra ela. Então peguei um jornal com a foto e falei assim pra ela: "Filha, você conhece?" Eu estava querendo apresentar o Padre. Então ela me respondeu: "Sim, mamãe! É o padi Zeti". Fiquei perplexa! Aí veio o mais incrível: perguntei de onde ela conhecia o "padi Zeti"? E ela me respondeu: "Da casa da vó Deda!” Vó Deda era minha avó materna já falecida havia mais de 30 anos.  Deda era apelido, e só os irmãos e pais a chamavam assim.

Como era o relacionamento dele com os espíritas da cidade?

A realidade, como era muito comum à época, é que ele perseguia um pouco os espíritas. Meus avós me contaram que nas procissões, quando passavam em frente da casa deles, o Padre fazia muito barulho com rojões.

O que mais a marcou no homem Donizetti? E no padre? E também agora no Espírito que deixou tantas lembranças?

Como toda cidade pequena, e também por falta de ocupação, na época em que o Padre estava vivo, sempre havia as fofocas, colocando em dúvida alguns comportamentos, nas comuns intrigas humanas. Mas o fato é que ele conduziu a cidade com pulso forte e realizou a obra que deveria fazer. Poderia falar de muitos contatos com ele após sua morte. São "causos" encantadores.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Gostaria de dizer, como ele mesmo diz, que “do lado de cá sou apenas Donizetti”.

Suas palavras finais.

Nossa cidade respira religião. Ser espírita em uma cidade muito católica é um desafio. Quando falamos o que sabemos do Padre depois que ele partiu, as pessoas acham graça e dizem: "ele jamais debandaria". Face à tradição católica, a cidade nunca chamaria tais fenômenos de mediunidade. Médium não, mas milagreiro. Isso é, porém, secundário, pois vale a bondade que ele praticou quando aqui viveu.

Gratidão à revista por estas lembranças.


Nota do entrevistador:

Sugerimos aos interessados – para conhecimento da biografia do Padre Donizetti – visita ao site dedicado a ele. Para acessá-lo clique aqui: Pe. Donizetti A pesquisa se torna pertinente para estudo das potencialidades humanas, seja pelo homem bom e firme que ajudou muita gente, seja pela mediunidade de cura.

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita