Especial

por Roni Ricardo Osorio Maia

A transformação de Saulo em Paulo de Tarso

 

O admirável livro Paulo e Estêvão, ditado por Emmanuel ao dedicado médium Francisco Cândido Xavier, nos envolve em profundas reflexões; para isso, explanaremos sucintamente as duas partes dessa magistral obra, cada parte composta de dez capítulos. O personagem central  foi um vencedor de si mesmo.

Na Primeira Parte, a história inicia-se em Corinto, Acaia (região Sul da Grécia), dominada pelo Império Romano. O ancião Jochedeb andava devagar com um cesto; por isso foi desprezado por soldados imperiais e, acusado infamemente de afrontar os tribunos, foi preso e maltratado por meio de uma injustiça. O filho Jeziel tentou interceder pelo pai, mas também foi preso e enviado ao cativeiro. O idoso foi supliciado.  A filha do ancião - Abigail - ficou abrigada na casa de Zacarias ben Hanan, em Jerusalém.

No ano 35, o jovem Saulo – procedente de Tarso (cidade ao sul da Turquia) – destacava-se no Sinédrio e na sinagoga em Jerusalém. Doutor, exímio conhecedor da Lei de Moisés, ele enamorou-se com Abigail, que ele conhecera na casa do amigo Zacarias. Perseguidor ferrenho dos  homens simples que viviam na Casa do Caminho. Logo,  prendeu Simão Pedro, João, Filipe e Estêvão (nome dado a Jeziel, o qual se abrigara na casa dos apóstolos nas cercanias de Jerusalém, após libertação do cativeiro). Na sequência dos acontecimentos, Pedro e Filipe foram liberados, João deveria foragir-se da cidade, Tiago - por ter ascendência no estudo na lei mosaica ficou livre e Estêvão condenado ao apedrejamento, apesar do mestre Gamaliel tentar impedir Saulo de tamanha insensatez.

Perante o Tribunal de Israel, a turba ensandecida atirava pedras no mártir Estêvão. Abigail, que fora convidada para assistir ao infeliz julgamento, reconheceu o irmão flagelado, correu ao seu encontro. Saulo resolveu retirar o cunhado moribundo, no entanto, era tarde, ainda assim, Estêvão recolhido a um gabinete falou à irmã sobre o Mestre Jesus e perdoou o noivo dela, que o condenara, antes do seu derradeiro final.

Abigail dedicou-se ao Evangelho de Jesus, através das palavras de Ananias. Muito fragilizada, adoeceu, mas antes de expirar falou ao noivo sobre Jesus. Saulo empreendeu uma busca contra a igreja do “Caminho”, martirizou um jovem  adepto da causa do “carpinteiro”, uma referência a Jesus e seguiu ao encontro de seu alvo  - Ananias  na cidade de Damasco. No caminho,  Saulo e sua caravana foram surpreendidos  por uma luz diferenciada, o doutor da lei caiu do camelo na areia desértica. A visão do jovem perseguidor, entre tamanha luminosidade, alcançara o alvo de sua meta – Jesus.

Na Segunda Parte, deparemos com Saulo abalado e cego, depois de ter se encontrado com o Mestre, e por ele ter sido indagado por aquela perseguição. Saulo foi conduzido até Sadoc, este o desprezou. Então, o combalido foi para uma estalagem. E, por meio da introspecção, ou seja, através do autoconhecimento, ele trabalhou sua personalidade altiva e dominadora, sujeitava-se à dependência de estranhos. Buscou o atenuante da prece. Dias depois, ele  foi procurado por Ananias que o curou a pedido de Jesus. O doutor da Lei iniciaria sua conversão.  Ananias recomendou-lhe prudência. Novamente, Saulo procurou Sadoc, o antigo amigo entranhou-lhe a transformação repentina, e na sinagoga, Saulo  foi enxotado da tribuna. Brotou-lhe a dor moral.

Daí, aconselhou-se com Ananias e viajou para divulgar o Evangelho. Chegou à cidade de Palmira (Síria), doou o camelo e procurou Gamaliel, direcionado por Ezequias (irmão do seu instrutor) encontrou o antigo mestre abrigado em uma cabana   no deserto acompanhado por Prisca e Áquila. Ganhou o Evangelho de Levi doado por Gamaliel. Um ano no deserto e reconciliado com o casal Prisca e Áquila (antigos perseguidos dele). Saulo começaria a se reencontrar noutro propósito espiritual. O espírito de Estêvão passou a acompanhá-lo e orientá-lo. Mediante sentimentos desalentadores gotejava no íntimo do ex-doutor outros ímpetos renovadores.  Reencontrou-se com Ananias, em Damasco,  instalou-se na casa de amigos, logo, ele iniciou as pregações do Evangelho do Mestre Nazareno.

Em Dalmanuta, conheceu Madalena, passou por Nazaré, reencontrou-se com a irmã Dalila, a qual se mudara da cidade,  visitou o colega israelita, Alexandre. Humilhado pelo velho companheiro foi procurar Simão Pedro na Casa do Caminho, com a estranheza de todos. Barnabé era favorável ao ex-rabino redimido e votou para o  receberem. Filipe e Tiago eram contrários àquela recepção. Tiago demonstrou atitudes em cumprimento à Lei de Moisés, destoava dos demais em ações não era favorável à chegada de Saulo. Pedro, com a peculiar fortaleza, recebeu o perseguidor visivelmente retratado. O pescador exemplificou o que ouviu, estudou,  praticou com Jesus e acolheu o ex-algoz.

Pedro e Saulo firmaram-se em sintonia, tornar-se-iam amigos dali para frente. Saulo procurou o pai e foi desprezado pelo genitor, saiu da residência arrasado, porém, na rua recebeu de um antigo servo a doação enviada pelo velho pai. O espírito de Abigail passou a assisti-lo e recomendou-lhe o perdão. Em Antioquia, conheceu o médico de nome Lucas, o qual recomendou a alteração da atribuição aos seguidores de Jesus para cristãos, o que foi unanimemente aprovado. Desse modo, nasceu o termo Cristianismo para ficar na História da Humanidade. Paulo passou a viajar acompanhado por Barnabé e João Marcos, este autorizado pela mãe - Maria Marcos. Em Nea Pafos, ilha do Chipre, aconteceu algo determinante, Saulo e Barnabé com as imposições das mãos curaram sofredores, doentes, angustiados...

O procônsul, Sérgio Paulo, convidou-os ao palácio em decorrência da fama das curas por eles realizadas. O profeta Barjesus sentiu-se tomado pela inveja e tentou desmascarar Saulo; sem sucesso, pois, o procônsul se convertera e o profeta ficou cegado, depois, Barjesus procurou Paulo a fim de se desculpar e recebeu lições de fé e remissão perante o Evangelho. Barnabé ficou impressionado com a mediunidade aflorada em Saulo, por isso apresentou-lhe a mudança de nome Saulo para Paulo, fato este, que ficou aceito. Em novas viagens, Paulo, Barnabé e João Marcos visitaram regiões rudes. Em Listra,  eles  hospedaram na casa de Loide, que possuía a filha Eunice e o neto Timóteo.

Paulo realizou diversas peregrinações para divulgar o Evangelho. Na Grécia, em face do domínio mitológico, ele foi apedrejado pelos populares; daí, recordou-se do martírio ordenado por ele a Estêvão, ficou bastante machucado e foi acudido por Gaio e Timóteo. Retornaram a Antioquia. Prosseguiu sua luta na conversão dos gentios aos preceitos cristãos por meio de suas andanças. Acompanhado por Silas, Paulo caminhou por lugares diferenciados, montanhosos ou desprovidos de alimentos; passaram por Tarso e abrigaram-se na casa de Loide, em Listra.

Nova viagem, eles chegaram a Tessalônica na cidade de Filipes, e se hospedaram na casa da generosa Lídia para a criação de uma nova Igreja. Os dois peregrinos  ficaram presos e foram flagelados pela população revoltada, conseguiram libertação com ajuda de um carcereiro convertido, o que facilitou os juízes filipenses na liberação dos pregadores, viajaram e se reencontraram com Lucas e Timóteo. Novos rumos e ensinos foram concretizados. Em Jerusalém, ele foi denunciado pelos ardilosos fariseus, novamente apedrejado. Foi  supliciado na prisão, Lucas e Timóteo intercederam pelo amigo e Paulo ficou liberado das agressões, lanhado no rosto e corpo, não perdeu a calma, ele disciplinou a sua dor. Contudo,  o ex-rabino continuou preso por dois anos.

Nesse meio tempo, foi trocado o governador, assumiu Pôncio Festo; este logo reconheceu na personalidade de Paulo os gestos nobres e bom caráter e junto ao rei Herodes Agripa ambos liberaram-no da crucificação e o mandaram para a prisão em Roma. No navio, Paulo conquistou a confiança do comandante e demais marujos, transformou-se em conselheiro da tripulação. O navio chegou ao destino. Júlio, o chefe da embarcação, hospedou-se na região do Régio e levou Paulo e os amigos, acompanhantes Lucas e Aristarco, em face da fraternidade entre eles. Era o ano 61. Paulo aumentava o prestígio nas comunidades cristãs, mesmo preso, ele realizava reuniões em torno do Evangelho, sob a anuência de Júlio. No entanto, ele soube das perseguições aos cristãos levados às arenas do circo, em Roma, acusados de inimigos do Estado.

No ano 64, um incêndio de várias proporções atingiu do Monte Célio ao Platino. A catástrofe fez vítimas em quantidade, pessoas, animais, casas suntuosas e moradias simples. Nero, ausentado propositalmente, tendo em vista que o próprio idealizou a tragédia para construir nova capital, com recursos poupados através dos impostos arrecadados, atribuiu a culpa aos cristãos. Um grande grupo de cristãos foi levado ao Grande Circo do Martírio. Tigelino, prefeito dos pretorianos e homem de confiança do Imperador, liberou Paulo e o acompanhou sob suspeita de pregações. Paulo reencontrou-se com João Marcos que fora vê-lo. 

Ao lado dos inseparáveis Timóteo e Lucas, escreveu cartas (as últimas). Tigelino mandou capturar Paulo. Recapturado pelo poder romano e conduzido à região da Via Ápia, o soldado destinado à execução titubeou, a princípio, por estar na frente de um ser humano com superioridade espiritual ostensiva. Paulo solicitou-lhe o cumprimento do dever. Foi assassinado a golpe de pesada, Na Espiritualidade, decorrido o tempo da recomposição, após a vida corporal sacrificada, o espírito do missionário teve o acolhimento de Ananias. Em seguida, os irmãos Estêvão e Abigail o receberam, para finalmente encontrar-se com o Mestre Amado: Jesus!

A obra mediúnica narra a trajetória de um homem que se permitiu recomeçar. Paulo utilizou-se do amor[1] para consigo e o próximo, aliado ou algoz, indistintamente, para lhe acalmar  as dores experimentadas. Um amor estudado, vivido, sofrido, absorvido de forma complacente, em espírito, o qual vivifica. Todavia, mesmo desacreditado, foi autossuficiente na luta pessoal, manteve sua fé radiante nos ensinamentos de Jesus. Por conseguinte, Paulo conquistou por mérito próprio, sem se reconhecer, a condição de fiel discípulo do Cristo. Ele entendeu uma melhor razão de “ser” e nos apresentou uma possibilidade de se recuperar  e, pelo seu modelo, transformado, o Cristianismo se estabeleceu como religião do mundo. Além disso,   Paulo, apóstolo,  legou seu contributo à doutrina libertadora de almas[2].

 
Roni Ricardo Osorio Maia reside em Volta Redonda (RJ).

 


[1] I Coríntios, capítulo 13, versículos 1 a 13.

[2] O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XV –  Fora da caridade não há salvação – Instruções dos Espíritos – item 10  (Ed. EME).

    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita