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por Ricardo Baesso de Oliveira

 

O poder do contexto


Não muito tempo atrás, na Micronésia, no Pacífico Sul, um rapaz de 17 anos, chamado Sima discutiu com o pai. Ele estava com a família na casa do avô quando, um dia, o pai – um homem severo e exigente – o tirou da cama cedo e lhe disse para ir buscar uma faca de bambu para colher fruta-pão. Sima passou horas na cidade tentando encontrar aquele objeto, mas não teve sucesso. O pai ficou furioso por vê-lo chegar de mãos vazias. A família agora ir ficar com fome, ele falou para o filho, acenando com um facão:

Suma daqui. Procure outro lugar para morar.

Sima deixou a casa do avô e retornou a pé para a sua aldeia. No caminho, encontrou com o irmão de 14 anos e pediu uma caneta emprestada. Duas horas depois, curioso para saber aonde Sima tinha ido, o irmão foi procurá-lo. Voltou para a casa da família, agora vazia, e espiou pela janela. No meio de um quarto escuro, balançando inerte na ponta de uma corda, estava Sima. Morto. O bilhete do suicida dizia:

Minha vida chega ao fim agora. Hoje é um dia triste e também de sofrimento para mim. Mas é um dia de comemoração para papai. Hoje papai me mandou embora. Obrigado por me amar tão pouco.

Casos semelhantes ao de Sima assumiram uma proporção quase epidêmica no fim da década de 1980 na Micronésia. Enquanto nos Estados Unidos, o índice de pessoas entre 15 e 24 anos que se matavam era de 22 em 100 mil, na Micronésia essa taxa era de 160 em 100 mil, mais de sete vezes superior. O estranho é que antes de 1960 o suicídio era quase desconhecido nessas ilhas.

O antropólogo Donald Rubinstein, examinando o fenômeno, concluiu que, à medida que a quantidade de suicídios cresce, a ideia se alimenta de si mesma, contagiando um número cada vez maior de garotos e transformando o ato que era inimaginável em algo possível.[i]

A tragédia da Micronésia reflete um dos mais importantes universais humanos: a conformidade, ou seja, o fato de copiarmos avidamente os outros. O antropólogo de Oxford, Harvey Whitehouse, acredita que os humanos são animais rituais. Segundo ele temos uma predisposição natural para absorver o comportamento dos outros mesmo quando não tem um propósito óbvio. Isso decorre da motivação para a conformidade – para nos estabelecermos de forma segura no cerne do grupo, ao imitar aqueles ao nosso redor.[ii]

Em torno desse princípio gravita o que ficou conhecido como Teoria das janelas quebradas. Embora se venha questionando, nos últimos anos, que os crimes graves possam ser causados pela desordem, é quase consenso entre os psicólogos sociais que o ambiente influencia muito o comportamento. Estudos de psicologia social mostram há décadas que sinais de ordem aumentam conformidade e sinais de desordem aumentam comportamentos desviantes (não necessariamente crime).

Um exemplo clássico: pesquisas do holandês Kees Keizer (2008) mostraram que, se tem grafite num muro, as pessoas são mais propensas a jogar lixo no chão ou burlar regras. Ou seja, pequenas quebras de norma realmente desencadeiam outras quebras.[iii]

Esses conceitos tornam evidente que nossas ações não importam apenas a nós mesmos; possuem implicações muito mais amplas. São, na verdade, fatores indutores de comportamentos alheios. Obviamente, nem todos serão influenciados, e mesmo os influenciados conservam sua decisão livre de agir, mas não se pode negar que, de alguma forma, o que fazemos pode ter a ver com aquilo que os outros fazem.

Assim, nosso empenho em movimentos sociais que visam o melhoramento da humanidade não vale unicamente por si mesmo; consiste em força propulsora do bem, sensibilizando almas sensíveis a desiderato equivalente.

Em sua mensagem aos membros da Sociedade parisiense de estudos espíritas, na sessão de 30 de abril de 1869, o Espírito de Allan Kardec escreveu:

As brochuras, os jornais, os livros, as publicações de toda sorte são meios poderosos de introduzir a luz por toda parte, mas o mais seguro, o mais íntimo e o mais acessível a todos é o exemplo na caridade, a doçura e o amor.[iv]

Segundo a tradição oral espírita, quando indagaram ao Espírito Emmanuel como a espiritualidade superior avaliava a “Campanha do quilo”, atividade intimamente relacionada ao movimento espírita do passado, o autor espiritual assim se expressou:

Vê com muita alegria. Não tanto pelos recursos materiais revertidos para a população de baixa renda, mas, muito mais, pela presença dos espíritas nas ruas.


 

[i] O ponto da virada, Malcolm Gladwell

[ii] Herança, Harvey Whitesouse

[iii] Para acessar clique aqui: LINK

[iv] RE junho de 1869.

 
  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita