O poder do contexto
Não muito tempo atrás, na Micronésia, no Pacífico Sul,
um rapaz de 17 anos, chamado Sima discutiu com o pai.
Ele estava com a família na casa do avô quando, um dia,
o pai – um homem severo e exigente – o tirou da cama
cedo e lhe disse para ir buscar uma faca de bambu para
colher fruta-pão. Sima passou horas na cidade tentando
encontrar aquele objeto, mas não teve sucesso. O pai
ficou furioso por vê-lo chegar de mãos vazias. A família
agora ir ficar com fome, ele falou para o filho,
acenando com um facão:
- Suma daqui. Procure outro lugar para morar.
Sima deixou a casa do avô e retornou a pé para a sua
aldeia. No caminho, encontrou com o irmão de 14 anos e
pediu uma caneta emprestada. Duas horas depois, curioso
para saber aonde Sima tinha ido, o irmão foi procurá-lo.
Voltou para a casa da família, agora vazia, e espiou
pela janela. No meio de um quarto escuro, balançando
inerte na ponta de uma corda, estava Sima. Morto. O
bilhete do suicida dizia:
- Minha vida chega ao fim agora. Hoje é um dia triste
e também de sofrimento para mim. Mas é um dia de
comemoração para papai. Hoje papai me mandou embora.
Obrigado por me amar tão pouco.
Casos semelhantes ao de Sima assumiram uma proporção
quase epidêmica no fim da década de 1980 na Micronésia.
Enquanto nos Estados Unidos, o índice de pessoas entre
15 e 24 anos que se matavam era de 22 em 100 mil, na
Micronésia essa taxa era de 160 em 100 mil, mais de sete
vezes superior. O estranho é que antes de 1960 o
suicídio era quase desconhecido nessas ilhas.
O antropólogo Donald Rubinstein, examinando o fenômeno,
concluiu que, à medida que a quantidade de suicídios
cresce, a ideia se alimenta de si mesma, contagiando um
número cada vez maior de garotos e transformando o ato
que era inimaginável em algo possível.[i]
A tragédia da Micronésia reflete um dos mais importantes
universais humanos: a conformidade, ou seja, o
fato de copiarmos avidamente os outros. O antropólogo de
Oxford, Harvey Whitehouse, acredita que os humanos são
animais rituais. Segundo ele temos uma predisposição
natural para absorver o comportamento dos outros mesmo
quando não tem um propósito óbvio. Isso decorre da
motivação para a conformidade – para nos estabelecermos
de forma segura no cerne do grupo, ao imitar aqueles ao
nosso redor.[ii]
Em torno desse princípio gravita o que ficou conhecido
como Teoria das janelas quebradas. Embora se
venha questionando, nos últimos anos, que os crimes
graves possam ser causados pela desordem, é quase
consenso entre os psicólogos sociais que o ambiente
influencia muito o comportamento. Estudos de psicologia
social mostram há décadas que sinais de ordem aumentam
conformidade e sinais de desordem aumentam
comportamentos desviantes (não necessariamente crime).
Um exemplo clássico: pesquisas do holandês Kees Keizer
(2008) mostraram que, se tem grafite num muro, as
pessoas são mais propensas a jogar lixo no chão ou
burlar regras. Ou seja, pequenas quebras de norma
realmente desencadeiam outras quebras.[iii]
Esses conceitos tornam evidente que nossas ações não
importam apenas a nós mesmos; possuem implicações muito
mais amplas. São, na verdade, fatores indutores de
comportamentos alheios. Obviamente, nem todos serão
influenciados, e mesmo os influenciados conservam sua
decisão livre de agir, mas não se pode negar que, de
alguma forma, o que fazemos pode ter a ver com aquilo
que os outros fazem.
Assim, nosso empenho em movimentos sociais que visam o
melhoramento da humanidade não vale unicamente por si
mesmo; consiste em força propulsora do bem,
sensibilizando almas sensíveis a desiderato equivalente.
Em sua mensagem aos membros da Sociedade parisiense
de estudos espíritas, na sessão de 30 de abril de
1869, o Espírito de Allan Kardec escreveu:
As brochuras, os jornais, os livros, as publicações de
toda sorte são meios poderosos de introduzir a luz por
toda parte, mas o mais seguro, o mais íntimo e o mais
acessível a todos é o exemplo na caridade, a doçura e o
amor.[iv]
Segundo a tradição oral espírita, quando indagaram ao
Espírito Emmanuel como a espiritualidade superior
avaliava a “Campanha do quilo”, atividade intimamente
relacionada ao movimento espírita do passado, o autor
espiritual assim se expressou:
- Vê com muita alegria. Não tanto pelos recursos
materiais revertidos para a população de baixa renda,
mas, muito mais, pela presença dos espíritas nas ruas.
[i] O
ponto da virada, Malcolm Gladwell
[ii] Herança,
Harvey Whitesouse
[iii] Para
acessar clique aqui: LINK
[iv] RE
junho de 1869.