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por Maurício Rodrigues

 

Espírita ou espírita? Que trazes contigo?

 
Em tempos de pandemia somos naturalmente estimulados a observar e sentir o meio de convivência de maneira diferente e mais serena, bem como refletir com natural cuidado e profundidade sobre nossa situação evolutiva; é oportunidade de desfrutar os ganhos advindos desse momento tão diferente e especial que estamos passando, e indagar de nós mesmos: Como extrair dessa experiência um substancial aprendizado evolutivo?

Parafraseando Guimarães Rosa, “sou figura reduzida e de pouco aparecimento. Quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa”, essa desconfiança salutar sobre nossas conquistas evolutivas é o presente que podemos receber do Espiritismo ao nos interessarmos em estudá-lo metodicamente, como sugere o codificador na introdução de O Livro dos Espíritos, Item VIII.

A inspiração para escrever esse texto veio de uma recordação em um momento especialíssimo de estudos de O Livro dos Espíritos, quando Allan Kardec grafa, na primeira parte (Do Princípio Vital - Questões de 01 a 75), espírito com “e” minúsculo para fazer referência ao princípio inteligente e, apenas na segunda parte (Do Mundo espírita ou Mundo dos Espíritos – Questões 76 a 131), a palavra Espírito passa a ser escrita com “E” maiúsculo, destacando o ser individualizado. Que detalhe extraordinário e quão zeloso foi o codificador!

Estimulado pelo encadeamento dessas ideias e inspirado no método admirável, surgiu outra lembrança luminosa sobre os tipos de espíritas que constam em O Livro dos Médiuns – Item 28, e ocorreu-me, então, a indagação: utilizando a metodologia do codificador pelo critério da letra maiúscula/minúscula, como ficaria essa aplicação?

Recordando algumas palestras de confrades e conversas fraternas com irmãos do Movimento Espírita, identifiquei alguns personagens interessantes e curiosos nessas recordações:

 O Espírita silencioso, que pouco fala e produz muito, de forma simples e desinteressada, está sempre disposto a auxiliar e nunca recusa convite de trabalho, costuma ser pouco notado por não provocar ruído, e estar ocupado nas tarefas mais singelas, construindo sua paz interior.

O “espírita de pijama” que, no conforto de sua poltrona, demonstra indignação profunda e reclama com veemência sempre que assiste, nos meios televisivos, a matérias que relatam injustiças sociais e desprezo pelo ser humano e, no entanto, raramente são encontrados nas frentes de trabalho efetivo, padecem de dificuldade para colocar a mão na massa e, quando na casa espírita, estão sempre fazendo reparo em condutas alheias e criticando com rigor encarnados e desencarnados.

O Espírita de um livro só vive com recursos financeiros muito modestos e, assim, não goza de facilidade para a aquisição de obras diversas e de se aprofundar doutrinariamente. Escolheu como companheiro inseparável de sua existência o evangelho, dedica sua energia em aplicar os ensinamentos que aprende na convivência cotidiana com seus semelhantes, tratando-se de um servidor dedicado que consagra sua vida a seguir e servir na seara de Jesus com simplicidade.

O “espírita enciclopédico”, portador de um conteúdo extraordinário de informações armazenadas consigo, é devorador contumaz de livros, estudos e pesquisas, carrega represado em seus registros mnemônicos toneladas de informações que não consegue escoar, traduzindo em conhecimento libertador, mas padece de pesada inquietação íntima, pela sensação de estar sempre incompleto.

O Espírita servidor, uma alma serena sempre em busca de direção e oportunidades de servir, é capaz de doar os últimos recursos que guarda no bolso para atenuar o sofrimento e a dor alheia, entrega seu próprio agasalho sem fazer esforço e, reconciliado com sua história de vida, vive com simplicidade e desapego.

O “espírita marqueteiro”, cuja característica evidente nesse personagem é alardear seus feitos e destacar sua bondade, tem profunda admiração por si e não guarda dúvidas sobre seu relevo espiritual; costuma ficar abrigado na bolha do ego, como alguém que se basta a si mesmo e eventualmente sai para pregar sua bondade vaidosa.

O Espírita aprendiz está sempre buscando compreender para fazer e conviver melhor; reconhece suas limitações e, por isso, é perseverante no esforço de conhecer a doutrina consoladora que abraça com dedicada atenção e apreço; trabalhador incansável, está sempre pronto a servir.

O “espírita missionário”, de voz melíflua e dócil, este se comporta como alma necessária e insubstituível, sempre sobrepondo conhecimentos e distribuindo conselhos e soluções para todos os dramas humanos; age em conformidade com sua crença pessoal de que é alma redimida e está na Terra para edificar Espíritos endurecidos com sua bondade.

Ponderando nessas considerações, vale refletir sobre a pergunta que consta no capítulo XVI - item 09 do E.S.E.: “Que trazes contigo?”.

Conta-se que Chico Xavier, esse ESPÍRITA que todos respeitamos e admiramos, foi perguntado certa vez sobre se o seu destino, depois de tantas obras realizadas no bem, seria “o céu”, ao que ele aquiesceu e, em seguida, completou CEU-Centro Espírita Umbral.

Feitas essas considerações fraternas, cabe uma indagação íntima: Qual posição nos aguarda na espiritualidade?


Fontes
:

O Livro dos Espíritos

O Livro dos Médiuns

O Evangelho segundo o Espiritismo

Grande Sertão Veredas.


Maurício Rodrigues é articulista e palestrante espírita em Brasília (DF).



 

     
     

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