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por Leonardo Marmo Moreira

 

A Reencarnação como pré-requisito para o entendimento do Evangelho e das Leis Espirituais da Vida


Diferentemente de outras doutrinas reencarnacionistas, o Espiritismo não admite a retrogradação do Espírito, ou seja, na pior das hipóteses, estacionamos evolutivamente, mas nunca regredimos. Essa relação Reencarnação – Lei de Progresso – Lei de Justiça, Amor e Caridade consiste em uma das maiores contribuições do Espiritismo para o nosso entendimento do que é a Vida.

O próprio Médium e Apóstolo do Bem Francisco Cândido Xavier chegou a afirmar: “Com todo o respeito às doutrinas cristãs tradicionais, sem o conceito da reencarnação, considero muito difícil entender o Evangelho”.

De fato, até mesmo a famosa questão, ainda muito polêmica em várias denominações cristãs, envolvendo fé, obras e graça, quanto ao problema da salvação, é facilmente resolvida dentro do contexto reencarnacionista.

Todos são agraciados com a herança divina por sermos filhos de Deus e, por isso, todos somos destinados à perfeição e à felicidade. Por outro lado, todos temos responsabilidades pelos nossos atos, em função de nosso livre-arbítrio, implicando no mérito pelo bem praticado e no demérito pelos equívocos exercidos e as inerentes consequências abrangendo nossas oportunidades de ascensão e/ou de reajuste.

Então, a graça, realmente, é de todos, mas o efetivo usufruto dessa graça em termos de conquista de paz e de felicidade depende de nossas ações (“a cada um é dado conforme suas obras”).

Essa discussão ajuda-nos a entender o famoso “Muitos são os chamados e poucos os escolhidos”, porque, de fato, “todos são chamados”, no sentido de que as chances de iluminação espiritual, trabalho e evolução são rigorosamente oferecidas a todos os filhos de Deus, sem exceção. Por outro lado, “poucos são escolhidos” porque somos nós mesmos que nos escolhemos, quando decidimos por isso. E, como pelo livre-arbítrio, cada um tem um momento diferente de decisão, as “escolhas” vão se dando de forma lenta e paulatina, no processo de evolução espiritual dos Espíritos da Terra (mundo de provas e expiações). Daí, poucos costumam ser escolhidos por si mesmos, em determinada faixa de tempo, ou seja, em determinada época, envolvendo um conjunto de experiências, em uma única reencarnação ou em certo grupo de reencarnações. Por isso, as evoluções de coletividades muito grandes, tais como a população planetária da Terra (só de encarnados, algo próximo a sete (7) bilhões e meio de habitantes), costumam ser processos muito lentos.

O conhecimento reencarnacionista projeta luz em uma série de discussões teológicas, tais como o debate sobre a predestinação e outros.

A própria “Parábola dos Talentos” é difícil de ser compreendida, sem a noção prévia do conceito reencarnacionista. Realmente, três funcionários receberam quantidades diferentes de talentos: três (3), dois (2), e um (1). Seria o caso de se perguntar: por que não receberam a mesma quantidade? A resposta a esse questionamento está na própria Parábola, cada um deles recebeu “conforme sua capacidade”, denotando, obviamente, que as capacidades dos três trabalhadores eram bem diferentes entre si. Daí surge outra questão: por que não tinham a mesma capacidade? Se a vida física fosse uma só, as quantidades de talentos inatos completamente diferentes seria a evidência de uma grande injustiça da parte de Deus, o que, sob vários parâmetros, seria algo totalmente inadmissível (vide Lei de Justiça, Amor e Caridade). No entanto, com a reencarnação, as aparentes injustiças nada mais são do que diferentes tipos de experiências para o enriquecimento evolutivo do Espírito imortal, que deve vivenciar diversificados modelos de exercícios para progredir em todas as áreas do comportamento humano. E cada situação específica está relacionada a pré-requisitos evolutivos e potencialidades de progresso para a presente encarnação.

Vejamos algumas questões que só podem ser bem esclarecidas através do entendimento da reencarnação como mecanismo da Lei de Progresso:

1) Expectativas de vida (Extensão temporal da vida) completamente discrepantes;

2) Condições de vida, no que se refere a aspectos socioeconômicos, completamente diferentes;

3) Condições de vida, em termos de oportunidades culturais e educacionais, totalmente distintas;

4) Condições de vida, no que se refere ao amor familiar, completamente distintas;

5) Acesso (ou não) ao ensino religioso e/ou espiritual de variadíssima qualidade e com distintas oportunidades;

6) Talentos inatos completamente distintos;

7) Desenvolvimento pessoal sempre muito incompleto, por mais longa que seja a vida física humana – o que implica em algumas situações completamente absurdas: a) o Espírito vai para o inferno eterno por causa de erros predominantes em sua pequena oportunidade, sem chance de refazimento das experiências (o que seria incompreensível, tendo-se em vida a bondade e a sabedoria de Deus); b) o Espírito vai para o céu porque o seu “saldo espiritual” foi positivo e permanece com a mesma evolução com a qual deixou a Terra (outro absurdo, pois, mesmo tendo valores positivos, por mais elevada que seja a pessoa, e por mais longa que tenha sido sua vida, sempre ainda haverá muito o que ainda evoluir); c) o Espírito vai para o céu porque o seu “saldo espiritual” foi positivo, mas continua evoluindo no Paraíso (proposta estranhíssima, pois a entidade espiritual vai continuar sua evolução por toda a eternidade no mundo espiritual, após uma única vida física aqui na Terra, o que faz questionar: seria, então, necessária, a vida física única aqui na Crosta?!);

8) A condição espiritual e a possibilidade de evolução daqueles que desencarnam como crianças ou como bebês, ou até mesmo no útero materno (se não fizeram nada de mal, também não tiveram chances de fazer o bem; por conseguinte, não foram testados e, ainda assim, teriam um “paraíso” eterno?);

9) A chance de reeducação para os grandes criminosos da história da humanidade, os quais, em havendo inferno eterno, teriam grandes chances de serem condenados a esses ambientes de sofrimento, pois não mereceriam compartilhar o “céu” eterno com aqueles que são Espíritos muito mais evoluídos, amorosos e fraternos;

10) A condição espiritual e a possibilidade de evolução dos animais;

11) O problema do mundo espiritual, mais notadamente o chamado “céu”, povoado por Espíritos não merecedores de uma condição celestial definitiva, ou, nas palavras de Jesus, sem a “veste nupcial” (o que acaba nos remetendo, novamente, à discussão exposta no item número 7);

12) A possibilidade de vida em outros planetas, pois, com a reencarnação, todos os Espíritos do Universo estão interligados, fraternalmente, em um mesmo processo evolutivo, comum a todos e, portanto, igualitário. Se existe vida em outros planetas, e a vida física é uma só, as “humanidades” originadas de cada planeta seriam completamente discrepantes cultural e educacionalmente, o que nos remete novamente ao tópico número sete (7) e também aos itens um (1), dois (2), três (3) e cinco (5).

A reencarnação, por conseguinte, retira da aparente injustiça observada em uma única encarnação, mecanismos de oportunidade evolutiva mais amplos e promovedores de todos os Espíritos imortais. Assim sendo, as aparentes injustiças identificadas por quem analisa uma única oportunidade de vivência física, em verdade, representam estadas evolutivas de curta extensão, mas úteis para o Espírito imortal para a aquisição de valores eternos.

Da ilusória injustiça de uma única existência física, surgem vivências educativas, equânimes e progressivas para todos os Espíritos imortais, isto é, todos os irmãos espirituais, Filhos de Deus, os quais, vivenciando várias e diferentes experiências encarnatórias, crescem para Deus a cada experiência física e a cada experiência no mundo espiritual, entre encarnações. É a grande Justiça de Deus!
 


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita