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por Ricardo Orestes Forni

 
Concurso de tragédias


O título é estranho? Num planeta de provas e expiações onde existem muitas pessoas estranhas, ele acaba por se encaixar, como procuraremos explicar.

Existe em determinadas pessoas a necessidade de chamar atenção para os problemas que a afligem como um mecanismo para inspirar piedade, compaixão, comiseração ou algo parecido. Transformar a pessoa queixosa no centro do Universo dos sofrimentos.  Essa atitude dá origem ao concurso de tragédias como iremos exemplificar.

Duas pessoas se encontram e ambas estão com gripe. Uma diz assim: “Estou com uma gripe! Me dói muito a cabeça”. A outra que também está com a mesma enfermidade responde: “Ah! Eu também! Minha garganta dói muito!”. Como numa espécie de réplica, a primeira acrescenta à sua doença: “Mas além da forte dor de cabeça, estou também com dor nos dois ouvidos! Que coisa horrorosa!”. A segunda, então, soma mais uma queixa: “Além da forte dor de garganta, tenho tido uma febre muito alta que me impõe um grande mal-estar!”. Dito isso, a primeira volta à carga para valorizar suas queixas: “Pois é. Além da dor de cabeça, da dor nos ouvidos, estou também com os meus olhos doendo!”. A tréplica por parte da segunda não se faz esperar: “Que coisa horrível, não? Acredita que além da dor de garganta, da febre alta, parece que um caminhão passou sobre meu corpo quebrando todos os ossos?”.

Pronto! Instalou-se o concurso de tragédias.

Se o exemplo não foi muito convincente, citemos outro.

Duas pessoas que fraturaram a perna se encontram para falar dos seus dramas, e uma coloca o seguinte: “Sabe que tive uma fratura horrorosa na minha perna?”. A outra participante do concurso de tragédias logo argumenta: “Que coincidência! Também quebrei a minha, mas em dois lugares! A sua foi num lugar só, não é?”. A primeira logo responde: “Foi, mas o osso saiu para fora da pele! Você não imagina a dor!”. A segunda que é dona das duas fraturas pergunta preparando o terreno para vencer a disputa: “Mas quantos parafusos você precisou colocar para consertar a sua perna?”. A primeira responde sem perceber a manobra da rival para vencer o concurso: “Seis parafusos!” Já imaginou?! Seis!”. E a segunda, com ares de vencedora dá o xeque-mate: “Isso não é nada. Eu precisei colocar doze parafusos, porque quebrei em dois lugares!”.

É o concurso de tragédias muito concorrido entre determinadas pessoas que desconhecem o alerta que nos faz o irmão José através da psicografia de Baccelli no livro Não Nos Deixes Cair Em Tentação, na página intitulada Palavra e Auto-Obsessão. Ensina ele: “Assim, nunca admita que você esteja mais doente do que realmente possa estar nem que os problemas que você faceia sejam maiores do que realmente possam ser.

Não se fragilize a partir de você mesmo, ensejando que os que estão à sua volta potencializem o seu pessimismo, com o qual, não raro, você pretende apenas submeter a chantagens emocionais quem se disponha a ouvi-lo.

Recorde-se de que o seu pensamento, feliz ou infeliz, vencendo a pequena distância existente entre a sua boca e os seus ouvidos, sempre retornará ao ponto de origem com a força de um decreto lei”.

Recordo-me, assim como muitos outros confrades espíritas, da ocasião em que Jerônimo Mendonça procurou Chico para praticamente se despedir do médium mineiro, porque uma hemorragia muito forte ameaçava-lhe a existência. Recebeu energias do plano espiritual pelas mãos do Chico curando o problema e a explicação daquela forte hemorragia: era provocada pelo fato de Jerônimo estar acatando a condição de “coitadinho” em seu íntimo, palavra essa pronunciada pelas pessoas que o viam naquela situação de grande comprometimento físico.

Essas disputas de concurso de tragédias induzem ao desequilíbrio emocional que atrai Espíritos interessados em que nossa situação seja realmente cada vez mais grave.

Onde existe a ferida, existe a mosca, se não se tomar os devidos cuidados. E onde existe o desequilíbrio existe o Espírito inferior ou que ignora o que a sua presença possa causar, valendo-se da oportunidade que estamos proporcionando gratuitamente a ele por força de não colocarmos em prática o alerta de Jesus do orar e vigiar para não cairmos em tentação.

Nesses tempos de transição que o planeta atravessa para ingressar, lentamente, em um novo clima moral, não devemos alimentar o concurso de tragédias. Aliás, não é o planeta que irá ingressar em um período de regeneração, mas o homem que nele habita dando espaço ao ser regenerado que construirá um planeta melhor.

Se há que existir disputas, que seja para ver quem mais trabalha, silenciosamente, no campo do bem em cumprimento da recomendação de não saber uma mão o que a outra faz.

Se o verdadeiro espírita é aquele que, reconhecendo suas imperfeições, procura ser melhor hoje do que foi ontem, o concurso de tragédias é uma situação que não devemos incentivar e, muito menos, participar dela.

 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita