Jesus não
desiste de nós
A maior prova do
amor de Jesus
talvez esteja
naquilo que ele
faz quando os
homens se
afastam. O
Evangelho
registra
deserções,
incompreensões,
negações e
traições. Em
nenhum momento,
porém, o Cristo
aparece
reclamando dos
que o
abandonaram.
Depois da
crucificação,
retorna ao
convívio dos
discípulos com
uma frase que
ressoa através
dos séculos:
“Estarei
convosco até o
fim dos tempos”.
Chico Xavier
recordou essa
passagem numa
entrevista
concedida a Hebe
Camargo, na TV
Bandeirantes, em
1985. Falava
sobre Jesus
quando afirmou
que o Mestre não
espera o nosso
amor para nos
amar. A frase
contém uma das
mais altas
compreensões da
mensagem cristã.
O amor de Jesus
não depende da
resposta humana;
nasce de uma
fonte mais
profunda que a
aprovação, a
gratidão e o
reconhecimento.
A criatura
humana costuma
amar dentro de
limites
estreitos. Ama
enquanto recebe,
compreende
enquanto é
correspondida,
perdoa quando a
ofensa não
ultrapassa
determinada
medida. Jesus
introduz na
história uma
forma superior
de vínculo:
continua junto
daquele que
ainda se perde,
insiste no
coração que
permanece
fechado e
oferece luz a
quem conserva os
olhos voltados
para a sombra.
Essa permanência
não significa
indulgência
diante do erro.
O Cristo não
abandona o
pecador, porém
também não chama
o erro de
acerto. Sua
presença
trabalha em
silêncio,
acompanhando o
despertar lento
da consciência.
Cada
experiência,
cada
consequência e
cada
oportunidade de
reparação
conduzem o
espírito à
compreensão da
lei divina.
O amor que
permanece
A visão espírita
amplia o alcance
dessa presença.
Jesus não foi
apenas um
pregador que
passou pela
Terra e deixou
ensinamentos
admiráveis. É o
governador
espiritual do
planeta, o
orientador do
desenvolvimento
humano e o
responsável pelo
encaminhamento
de nossa marcha
coletiva. Sua
ação acompanha
as
transformações
da Humanidade
sem violentar o
ritmo de cada
consciência.
Chico explicou
que as melhorias
sociais, os
hospitais, as
formas de
assistência, os
avanços do
trabalho e a
convivência mais
respeitosa entre
as pessoas
resultam de um
processo gradual
iniciado com
Jesus. A
civilização
progride quando
o sentimento de
fraternidade
consegue
penetrar as
instituições.
Cada conquista
do bem
representa uma
pequena vitória
do Evangelho
sobre a
brutalidade
antiga.
Essa evolução
segue a lei do
esforço e da
responsabilidade.
Deus não impõe a
renovação pela
força, e Jesus
não substitui o
trabalho dos
homens. Ele
inspira, ampara
e orienta. A
transformação
precisa nascer
do consentimento
íntimo das
criaturas,
porque a
violência pode
modificar
comportamentos
exteriores,
porém jamais
instala o amor
no coração.
A história de
Valéria, narrada
por Chico,
mostra essa ação
do Cristo numa
dimensão íntima.
Durante seis
anos, ele
visitou uma
mulher
hemiplégica e
muda,
levando-lhe
preces, carinho
e pequenos
presentes. Ela
compreendia
tudo, embora não
conseguisse
falar. Nas
últimas horas de
vida, depois de
longa
insistência,
conseguiu
pronunciar o
nome de Jesus. A
palavra saiu
imperfeita,
quase
irreconhecível:
“Josusu”. Para
Chico, porém,
aquele som
continha uma
vitória
espiritual.
Valéria não
recuperou o
corpo. A oração
não alterou o
curso de sua
desencarnação.
Algo mais
profundo
aconteceu: a
alma encontrou
uma passagem
para expressar
aquilo que
guardava. O nome
de Jesus
alcançou os
lábios quando a
vida física se
apagava. A cena
ensina que a
presença do
Cristo nem
sempre se revela
pela cura
exterior; muitas
vezes,
manifesta-se
pela força que
sustenta a
criatura até o
último instante.
O próprio Chico
compreendia que
sua tarefa
consistia em
servir sem se
colocar no
centro. Quando
alguém o
comparou a
Jesus, respondeu
com humildade
desconcertante.
Disse que se
sentia como um
pé de grama numa
cancha de
futebol. Em
outra ocasião,
aceitou a
brincadeira de
assinar “Cisco
Xavier”. A
imagem esclarece
o caminho do
discípulo:
quanto menos
procura ocupar o
lugar do Mestre,
mais o Mestre
ocupa um lugar
em seu coração.
Jesus permanece
conosco por meio
de todos os
gestos que
vencem a
indiferença.
Está na visita
ao enfermo, na
paciência
oferecida ao
familiar
difícil, na
palavra que
impede uma
pessoa de cair e
na renúncia
silenciosa que
ninguém aplaude.
Cada vez que
alguém ampara
sem humilhar,
perdoa sem
ostentar e serve
sem cobrar, o
Cristo encontra
espaço para
viver no mundo.
Ainda estamos
longe daquilo
que ele ensinou.
Carregamos
ambições,
ressentimentos e
impulsos que
contradizem o
Evangelho. A
distância entre
nossa vida e a
vida de Jesus,
contudo, não
constitui motivo
para desânimo.
Ele permanece
justamente
porque ainda
precisamos de
seu amparo. Sua
presença
antecede a nossa
conquista e
acompanha cada
passo do
caminho.
Jesus não
desiste de nós.
Sua paciência
não é
passividade; é
trabalho
espiritual
incessante. Seu
amor não é
aprovação de
nossas sombras;
é a luz que as
torna visíveis e
nos dá coragem
para
transformá-las.
Um dia
compreenderemos
que todas as
vezes em que
pensamos
caminhar
sozinhos havia,
junto de nós,
uma presença
silenciosa
conduzindo-nos
de volta à paz.
Mário Frigéri é
poeta, escritor,
autor e youtuber
com a mente e o
coração voltados
para o esplendor
do Evangelho e
da Doutrina
Espírita.
Campinas-SP.