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por Mário Frigéri

 

Jesus não desiste de nós


A maior prova do amor de Jesus talvez esteja naquilo que ele faz quando os homens se afastam. O Evangelho registra deserções, incompreensões, negações e traições. Em nenhum momento, porém, o Cristo aparece reclamando dos que o abandonaram. Depois da crucificação, retorna ao convívio dos discípulos com uma frase que ressoa através dos séculos: “Estarei convosco até o fim dos tempos”.

Chico Xavier recordou essa passagem numa entrevista concedida a Hebe Camargo, na TV Bandeirantes, em 1985. Falava sobre Jesus quando afirmou que o Mestre não espera o nosso amor para nos amar. A frase contém uma das mais altas compreensões da mensagem cristã. O amor de Jesus não depende da resposta humana; nasce de uma fonte mais profunda que a aprovação, a gratidão e o reconhecimento.

A criatura humana costuma amar dentro de limites estreitos. Ama enquanto recebe, compreende enquanto é correspondida, perdoa quando a ofensa não ultrapassa determinada medida. Jesus introduz na história uma forma superior de vínculo: continua junto daquele que ainda se perde, insiste no coração que permanece fechado e oferece luz a quem conserva os olhos voltados para a sombra.

Essa permanência não significa indulgência diante do erro. O Cristo não abandona o pecador, porém também não chama o erro de acerto. Sua presença trabalha em silêncio, acompanhando o despertar lento da consciência. Cada experiência, cada consequência e cada oportunidade de reparação conduzem o espírito à compreensão da lei divina.

                                       

O amor que permanece

A visão espírita amplia o alcance dessa presença. Jesus não foi apenas um pregador que passou pela Terra e deixou ensinamentos admiráveis. É o governador espiritual do planeta, o orientador do desenvolvimento humano e o responsável pelo encaminhamento de nossa marcha coletiva. Sua ação acompanha as transformações da Humanidade sem violentar o ritmo de cada consciência.

Chico explicou que as melhorias sociais, os hospitais, as formas de assistência, os avanços do trabalho e a convivência mais respeitosa entre as pessoas resultam de um processo gradual iniciado com Jesus. A civilização progride quando o sentimento de fraternidade consegue penetrar as instituições. Cada conquista do bem representa uma pequena vitória do Evangelho sobre a brutalidade antiga.

Essa evolução segue a lei do esforço e da responsabilidade. Deus não impõe a renovação pela força, e Jesus não substitui o trabalho dos homens. Ele inspira, ampara e orienta. A transformação precisa nascer do consentimento íntimo das criaturas, porque a violência pode modificar comportamentos exteriores, porém jamais instala o amor no coração.

A história de Valéria, narrada por Chico, mostra essa ação do Cristo numa dimensão íntima. Durante seis anos, ele visitou uma mulher hemiplégica e muda, levando-lhe preces, carinho e pequenos presentes. Ela compreendia tudo, embora não conseguisse falar. Nas últimas horas de vida, depois de longa insistência, conseguiu pronunciar o nome de Jesus. A palavra saiu imperfeita, quase irreconhecível: “Josusu”. Para Chico, porém, aquele som continha uma vitória espiritual.

Valéria não recuperou o corpo. A oração não alterou o curso de sua desencarnação. Algo mais profundo aconteceu: a alma encontrou uma passagem para expressar aquilo que guardava. O nome de Jesus alcançou os lábios quando a vida física se apagava. A cena ensina que a presença do Cristo nem sempre se revela pela cura exterior; muitas vezes, manifesta-se pela força que sustenta a criatura até o último instante.

O próprio Chico compreendia que sua tarefa consistia em servir sem se colocar no centro. Quando alguém o comparou a Jesus, respondeu com humildade desconcertante. Disse que se sentia como um pé de grama numa cancha de futebol. Em outra ocasião, aceitou a brincadeira de assinar “Cisco Xavier”. A imagem esclarece o caminho do discípulo: quanto menos procura ocupar o lugar do Mestre, mais o Mestre ocupa um lugar em seu coração.

Jesus permanece conosco por meio de todos os gestos que vencem a indiferença. Está na visita ao enfermo, na paciência oferecida ao familiar difícil, na palavra que impede uma pessoa de cair e na renúncia silenciosa que ninguém aplaude. Cada vez que alguém ampara sem humilhar, perdoa sem ostentar e serve sem cobrar, o Cristo encontra espaço para viver no mundo.

Ainda estamos longe daquilo que ele ensinou. Carregamos ambições, ressentimentos e impulsos que contradizem o Evangelho. A distância entre nossa vida e a vida de Jesus, contudo, não constitui motivo para desânimo. Ele permanece justamente porque ainda precisamos de seu amparo. Sua presença antecede a nossa conquista e acompanha cada passo do caminho.

Jesus não desiste de nós. Sua paciência não é passividade; é trabalho espiritual incessante. Seu amor não é aprovação de nossas sombras; é a luz que as torna visíveis e nos dá coragem para transformá-las. Um dia compreenderemos que todas as vezes em que pensamos caminhar sozinhos havia, junto de nós, uma presença silenciosa conduzindo-nos de volta à paz.


Mário Frigéri é poeta, escritor, autor e youtuber com a mente e o coração voltados para o esplendor do Evangelho e da Doutrina Espírita. Campinas-SP
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O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita