Um minuto
com Chico Xavier

por Regina Stella Spagnuolo

   

Certa ocasião, Chico Xavier surpreendeu o público com um longo discurso improvisado, repleto de dados históricos precisos e de nomes e sobrenomes das “autoridades presentes”, sem recorrer a qualquer texto. Mais uma vez, insistiu na humildade. Disse não ter qualidades para receber “semelhantes honrarias” e definiu-se como uma parede arruinada, sobre a qual se pregava um cartaz anunciando os ensinamentos de Jesus.

Terminou o discurso, diante de espectadores como Dulce Passarinho, tia do ministro Jarbas Passarinho, pedindo a “bênção generosa, a bênção imperecível de Deus”. Sua peruca havia crescido e exibia até fios grisalhos. Espíritas ficaram perplexos e enviaram cartas ao pop star de Uberaba. Seus ternos bem cortados, seu cabelo de mentira, tudo isso era inconcebível para alguns. Ele sucumbia à vaidade. Uma das cartas foi dura: “Você envelheceu e caducou”.

No dia 28 de outubro de 1972, Chico Xavier quebrou o silêncio, deixou de lado a postura de engolir desaforos e desabafou ao jornal Cidade de Santos. Estava irreconhecível. Aos críticos de sua peruca, respondeu:

“Pus cabelos na cabeça, sim. E pus mesmo porque preciso. E isso me honra muito. Eu quero viver. Não quero aparecer como uma ruína humana diante de meus amigos, todos bem-postos, bem tratados. Por que eu vou aparecer como uma pessoa que morreu e que só falta enterrar? Não, não morri, não. Eu quero viver e quero viver muito, se Deus quiser.”

Aos críticos de seus ternos, perguntou:

“Eu agora vou andar vestido de bandal do século 1? Não. Por causa dos livros? Então era melhor não ser médium. Quero andar direitinho, com a roupa limpa e com cabelos na cabeça. Me perdoem, mas eu quero. Pois, se a doutrina é a maior alegria de nossa vida, vamos chegar lá imundos, pedindo esmola? Tenho de ir desabando em glórias, uai.”

A quem lhe cobrava uma postura de santo, reagiu:

“Nós precisamos humanizar a doutrina. Nem demônio, mas também nem anjos. Somos homens e mulheres da Terra. Agora, o dia em que for promovido a anjo, ninguém sabe, porque a nomeação foi lá por cima.”

A quem criticava seu empenho em receber títulos em solenidades, desafiou:

“A Câmara Municipal vota um título para o espiritismo e diz que a besta chamada Chico Xavier deve ir receber. Posso ofender uma cidade, falando assim: ‘Muito obrigado, eu aí não vou pôr meus pés’? Não posso fazer isso.”

Estava magoado:

“Não tenho tempo nem de cortar a unha. De vez em quando o dedo dói e sangra. Uma unha entrou no outro dedo.”

E terminou com uma ironia:

“Querem que eu chegue nos lugares e diga: ‘Olhe, eu sou espírita. Vocês podiam dar uma esmola para a Comunhão Espírita Cristã?’. Mandavam a gente para a cadeia. Manda para o Carandiru, que ele está doido.”

Nunca mais Chico faria um desabafo como esse em público.

 

Do livro As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior.


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita