Loucura e resgate
Conduzido ao recinto por devotados Instrutores
Espirituais, recomendam eles algo vos diga de minhas
provas. Entretanto, minhas dificuldades são quase
insuperáveis para relacionar com a palavra os tremendos
episódios de minha terrível experiência.(*)
Sou uma alma pobre que ainda convalesce de aflitiva
loucura no campo físico.
Não creio que o verbo articulado possa exprimir com
segurança tudo aquilo que expresse meus estados
emocionais.
Ainda assim, posso garantir-vos que tenho atravessado
inimagináveis suplícios.
Por mais de vinte anos, fui vítima de flagelações e
tormentos que culminaram em transes de pavoroso
desespero, não pelas dores de origem material que me
dilaceravam o corpo, mas sim porque, na condição de
alienado mental, guardava, no fundo de meu ser, a
consciência de todos os meus atos, embora não pudesse
governar meus infelizes impulsos.
Perambulei no mundo à maneira de alguém que se visse sob
o guante invencível de Inteligências perversas, como
pode acontecer a um homem irremediavelmente prisioneiro
de malfeitores, em sua própria moradia.
Por mais orasse, por mais anelasse o bem e por mais
quisesse comandar a própria existência, os terríveis
carcereiros das minhas atividades mentais compeliam-me a
atitudes deploráveis que, de início, me angariaram o
desafeto dos familiares mais queridos ao coração.
Era constrangido a práticas ignominiosas, impelido a
pronunciar palavras que me afastavam toda e qualquer
simpatia e a perpetrar atos que provocavam, em torno de
mim, repugnância e temor.
E, por essa razão, relegado à atmosfera deprimente dos
loucos, nela padeci não apenas os mais dolorosos
processos de tratamento médico, como sejam, a
insulinoterapia, a malarioterapia e o eletrochoque, mas
também os bofetões de enfermeiros desapiedados e o poste
de martírio, a camisa de força e a solidão.
Isso tudo sofri com a tácita aprovação de minha
consciência, pois no íntimo me reconhecia culpado.
Colocava-me na situação de quantos me assistiam
caridosamente e concluía que, na posição deles,
infligiria a mim mesmo os mais duros castigos, de vez
que os ocupantes de meu campo mental me impeliam à
delinquência e ao desrespeito, ao insulto e à viciação.
Chorei tanto, que acredito haverem as lágrimas
aniquilado os meus olhos encadeados a medonhas
alucinações.
Amarguei tanto a vida que o sofrimento por fim me venceu
diante das testemunhas implacáveis de minha dor —
testemunhas que me acusavam sem que ninguém as ouvisse,
que me espancavam sem que ninguém lhes presenciasse os
assaltos, que me acompanhavam dia e noite sem que
ninguém lhes pressentisse a presença.
E tamanho foi o meu infortúnio que, em me libertando do
cárcere da prova, desarvorado e desiludido, pedi à
Providência Divina, através de mil modos, que uma
explicação me aliviasse o torturado raciocínio,
porquanto, ainda mesmo fora do corpo carnal, a malta de
perseguidores continuava assacando contra mim gritos
soezes, tentando escravizar-me de novo a mente
desditosa…
Foi, então, que, ao socorro de Instrutores Amigos, me vi
em surpreendente retorno à condição em que me achava
antes da internação na carne para a terrível provação da
loucura…
Identifiquei-me em pleno Espaço, desolado e errante,
cercado por centenas de verdugos que me buscavam o
Espírito, impondo-me à visão tremendos quadros — quadros
esses que, pouco a pouco, me reconduziram ao posto que
eu deixara anteriormente, através da morte…
Sim, eu havia sido um juiz que abusara da dignidade do
meu cargo.
Vi-me envergando a toga do magistrado, que me competia
preservar impoluta, desfrutando invejável eminência
social na Terra, mas enceguecido pelos interesses do
grupo político a que me filiara, com desvairada paixão.
Torcia o direito para quase todos aqueles que me
buscavam, tangidos pelas circunstâncias, conspurcando o
tribunal que me respeitava, transformando-o em ominoso
instrumento de crime e revolta, perversidade e miséria,
desânimo e desespero, porque as minhas sentenças
forjavam todos esses males.
Mas não consegui ludibriar a verdadeira justiça.
Deixando o veículo físico, as minhas vítimas se
converteram em meus juízes e todas aquelas que me não
podiam perdoar seguiram-me os passos na Esfera
espiritual, tecendo-me a cadeia de tormentos
inomináveis, a explodirem no pavoroso desequilíbrio com
que ressurgi entre as criaturas humanas, na existência
última.
Atravessei uma infância atormentada…
Para os médicos, eu não passava de pobre exemplar da
esquizofrenia.
Alcancei a juventude tumultuária e triste dos que não
possuem qualquer estabilidade de raciocínio para a
fixação dos bons propósitos, e, tão logo atingi a
maioridade, meus implacáveis acusadores senhorearam-me a
estrada, conturbando-me a vida, e, desse modo, como
alienado mental fui submetido ao julgamento de todos
eles, experimentando, por mais de quatro lustros,
flagelações e torturas que não posso desejar aos
próprios Espíritos satanizados nas trevas.
Sou, assim, um doente desventurado procurando restaurar
a si mesmo, depois de terrível inferno no coração.
Não acredito que a minha palavra possa trazer qualquer
apontamento que induza ao consolo.
Entretanto, o juiz louco que fui, o juiz que impôs a si
próprio horrenda enfermidade da alma, pode oferecer
alguma advertência aos que manobram com a autoridade no
mundo e a todos os que ainda podem recuar nas
deliberações infelizes!…
Diante de mim vibra o Tempo, o grande julgador…
Possa a Divina Compaixão conceder-me com esse juiz
silencioso, cujas palavras para nós são as horas e os
dias do mundo terrestre, a oportunidade de ressarcir
minhas faltas, porque, por enquanto, o juiz que dementou
a si mesmo apenas ingressou na fase inicial do reajuste,
da qual se transferirá para o campo expiatório, onde,
face a face com as suas antigas vítimas, será obrigado a
solver seus clamorosos débitos, ceitil por ceitil.
Deus seja louvado!…
(*) O autor da mensagem, Raimundo Teixeira, sofreu, na
última existência corpórea, aflitiva provação na
alienação mental, como ele próprio descreve nesta
mensagem.
Do livro Vozes do
Grande Além, comunicação recebida psicofonicamente
na noite de 26 de abril de 1956 pelo médium Francisco
Cândido Xavier.
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