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Natural de Franca (SP) e atualmente residente em
Uberlândia (MG), Ítalo Ribeiro Paula (foto)
é fisioterapeuta de formação pela UFTM, mestre
em Fisioterapia pelo programa de pós-graduação
em Fisioterapia UFU/UFTM e especialista em Saúde
da Criança pelo programa de residência da UFU.
Vincula-se ao GELD – Grupo Espírita Léon Denis,
na cidade onde reside, exercendo a função de
tesoureiro da instituição. Entrevistamo-lo sobre
sua vivência no movimento espírita.
Como conheceu o Espiritismo?
Minha mãe passava por problemas de convulsões e
desmaios e foi procurar tratamento na medicina
humana. Depois de algumas buscas, e sem obter
melhorias, conheceu uma amiga que a apresentou
ao centro espírita. Depois disso, quando iniciou
as atividades na casa espírita, os quadros
cessaram. Dessa forma, eu, com 7 anos, e minha
irmã, com 9 anos, deixamos de frequentar a
Igreja Católica e nos juntamos ao Espiritismo.
O que mais lhe chama a atenção no conhecimento
espírita?
A possibilidade de entender que nada é estático.
As dores, as angústias, os sofrimentos, mas
também as felicidades. Claro que, enquanto
Espíritos mais aprimorados, conseguiremos esse
estágio de felicidade eterna. Porém, entender
que temos a possibilidade de nos acolher e
refazer aquilo que um dia vivenciamos na prática
de forma diferente do que gostaríamos, que somos
hoje uma continuidade pelo conceito de
imortalidade da alma e que podemos ressignificar
nossos passos em busca de melhorias de virtudes
e sentimentos, me conforta e incentiva a ser
melhor a cada dia.
Sendo jovem, como vê o movimento espírita nas
oportunidades que tem de atuar?
Eu consigo ter uma área de atuação dentro da
casa espírita. Sendo jovem, o que vejo é uma
dificuldade dos jovens de frequentarem a casa
espírita. Isso não é uma novidade, e nem
tampouco ocorre apenas entre os jovens. Muitas
casas têm sofrido com a falta de participação.
Situações como a pandemia, a falta de
modernização dos métodos de ensino das casas
espíritas e temas que não refletem as
necessidades atuais, das mais diversas
naturezas, fizeram com que o acolhimento se
mostrasse insuficiente para dar conta das
demandas dos jovens na atualidade. Em pesquisa
com 100 jovens, realizada via Google Forms pela
AME JOVEM, em Uberlândia, a principal causa de
evasão relatada tem a ver com a falta de
acolhimento; muitos também não se sentem
ouvidos. Ou seja, hoje tenho oportunidade de
trabalhar onde estou, porém não são todas as
casas que oferecem ao jovem essa oportunidade.
Fale-nos de sua atividade no CEU – Congresso
Espírita de Uberlândia.
Eu sempre gostei de trabalhar com jovens, embora
esteja considerando, cada dia mais, que ser
jovem é uma questão mais da mente do que do
corpo, pois os 34 anos chegaram para mim. Minha
irmã, porém, tem uma amiga muito especial que,
na época, estava na coordenação da evangelização
do CEU, chamado CEUZINHO. Ela nos convidou para
participar e, desde então, não fico um ano sem
ajudar nesse evento.
O CEUZINHO é um evento à parte. É um momento de
extrema doação para as crianças. Já estivemos
com quase 150 crianças em uma determinada
edição. São diversas reuniões de preparação,
planos de aula e capacitações.
Nesse evento, pude presenciar a espiritualidade
de uma forma curiosa, em um sonho. Certa vez,
lembro-me de começar a atividade a ser
desenvolvida na evangelização e, em sonho, ela
se materializou em histórias em quadrinhos,
teatro e outras atividades. Quando acordei, a
sensação e a lembrança de que estava trabalhando
nisso com o corpo adormecido foram muito reais e
intensas. Isso demonstra como somos apenas
instrumentos. Com essa oportunidade, pude
perceber como devemos confiar mais em Deus e em
seus planos para nós e, nessa oportunidade, para
as crianças de todo o evento.
Já ajudei também na lanchonete, no meu primeiro
ano, em que pude ter a oportunidade de servir,
algo que me deixa muito contente. Lá, preparava
cappuccinos e servia pão de queijo quentinho,
com muito amor no coração, e obtinha, em troca,
muitos sorrisos e demonstrações de afeto.
Sendo hoje o CEU um evento de grande projeção
nacional, o que você percebe no público
participante?
Meu contato é mais com as crianças, mas posso
descrever minha opinião, embora distante da
parte dos adultos. Neste ano, algumas queridas
amigas da mocidade vieram de Uberaba ao evento e
destacaram a organização, a programação, a
receptividade e uma energia de extrema
categoria.
Como sempre trabalhei nos eventos, consigo ouvir
algo de uma ou outra palestra e ver em casa as
que ficam gravadas. Ainda assim, emociono-me com
a oportunidade de receber tão ricos ensinamentos
e trocas tão sensíveis dos palestrantes, que nos
enchem de emoção e se transformam em combustível
para seguir dali adiante mais motivado e
entendendo qual é o nosso papel no mundo.
Diante do CEUZINHO, o que percebo são crianças
mais sensibilizadas, energizadas — mesmo que já
tenham energia de sobra. Elas transformam essa
energia em algo mais afetuoso e carinhoso,
demonstrando tudo aquilo que receberam de nós,
evangelizadores e colegas, e pelas atividades
realizadas, sem falar nos tratamentos
espirituais que, com certeza, ocorrem a todo
momento.
Tenho oportunidade de cantar no palco junto às
crianças e também aos jovens do CEU JOVEM, na
finalização. Este é um dos momentos mais
especiais e marcantes, pois nos faz entender que
a força de transformação começa a ser plantada
nos menores e que não existe outro caminho de
melhoria a não ser pela evangelização ensinada
pelo Cristo.
Lá no evento, tanto eu como outros
participantes, e também as crianças, adoramos
conhecer pessoas que normalmente só ouvimos
falar ou vemos em vídeos na internet ou na TV.
Essa situação nos aproxima e nos incentiva pela
real conexão criada com os palestrantes.
E os jovens de sua faixa etária, você considera
que estão bem atuantes? O movimento espírita
jovem no país está bem fortalecido, na sua
opinião?
Não estão tão atuantes e também acredito que não
esteja fortalecido, havendo apenas grupos
isolados. Acredito que, antigamente, com menos
informações no mundo da tecnologia, existia uma
maior oportunidade de adesão às atividades do
centro e melhores chances de entrosamento
pessoal, porque o fortalecimento exige contato e
confiança, que só são estabelecidos a partir
dessas trocas.
Penso que o mesmo esteja ocorrendo em grupos de
adultos nas casas espíritas, com uma provável
queda em determinadas atividades pelo mesmo
motivo. No entanto, o foco para estes é bem
maior em virtude da maturidade, das melhores
oportunidades de desenvolvimento pessoal e
espiritual e de saberem exatamente o que querem
ou o que os motiva, algo que não está tão claro
no jovem.
Na minha época de pré-mocidade e mocidade também
havia muitas possibilidades de trocas com amigos
de escola e da vizinhança. As campanhas da
mocidade e os passeios externos com os amigos da
mocidade já eram atividades típicas nossas.
Talvez trabalhar para melhorar o acolhimento,
aumentar as chances de entrosamento e
proporcionar oportunidades de fortalecimento de
vínculos seja um caminho frutífero.
E como você enxerga o conflito de gerações entre
os espíritas mais maduros e conservadores e os
jovens da atualidade?
Acredito que não podemos nunca esquecer os
ensinamentos de Jesus. A base de Kardec também
não deve ser esquecida. No entanto, se Kardec e
Jesus estivessem aqui, também estariam
diferentes daquilo que conhecemos quanto à forma
de abordagem dos mesmos assuntos.
Nesse sentido, uma mudança se faz, sim,
necessária. Por exemplo, quanto à sexualidade.
Este assunto sempre foi um tabu. Diversas
situações de conflitos familiares, processos
obsessivos e até mesmo suicídios advêm da falta
de oportunidade para a discussão sobre o
assunto.
Como deixar passar em branco assuntos tão atuais
e lembrar de assuntos também importantes, como o
amor de Jesus, abordado em palestras, se falta
amor para com os irmãos, filhos, alunos e
colegas que vivem conflitos como este? Não seria
um ato egoístico e também uma
irresponsabilidade, por sabermos que diversos
irmãos passam por essa situação e simplesmente
aceitarmos que não estamos preparados para falar
sobre o assunto?
Já sabemos, desde a época da escola, que
conversar sobre gravidez na adolescência ou
outros assuntos relacionados aos jovens garante
maior informação, confiança e disponibilidade
para o acesso a informações.
Até quando negaremos a atualidade, deixando que
mais problemas de ordem mental e espiritual
persistam?
Nascer, viver, morrer, renascer e progredir
sempre, tal é a lei. Onde está a parte de
progredir sempre, que revela Kardec que estamos
procurando viver? Acolher a novidade, as novas
dificuldades dos novos seres, não faz parte da
famosa lei de progresso? Onde estaria o
progresso se não viessem situações novas?
Você considera que o movimento espírita jovem
está bem amadurecido para gradativamente ir
assumindo as rédeas do movimento espírita no
país?
Acredito que vem se fortalecendo, por ser um
processo contínuo em que aspectos da base
espírita, diante dos novos desafios e das
adaptações ao mundo moderno, se fazem
necessários.
Os jovens que vão assumir as rédeas do movimento
espírita também têm enfrentado dificuldades para
se integrarem e se sentirem pertencentes. Com
isso, automaticamente, a forma de lidar com os
próximos jovens passa também a ser afetada,
inclusive pela falta de experiência para lidar
com aspectos relacionados ao acolhimento.
Por exemplo, a forma de se abordar um assunto
dentro da casa espírita para os jovens
encontra-se defasada. A arte, de forma geral —
música, dança, teatro etc. —, maior
possibilidade de expressão e outras metodologias
para os jovens expressarem seus sentimentos e
desenvolverem a energia sexual enquanto
criatividade sempre foram ideias que, na teoria,
são muito bem conhecidas.
O que acontece, na prática, é uma dificuldade
para a execução dessas abordagens. As casas ou
grupos espíritas que conseguem desenvolver
melhor essas metodologias com os jovens
normalmente apresentam mais sucesso na adesão
deles.
Portanto, torna-se claro que conhecer como o
jovem pensa, suas necessidades e também dar
oportunidade para que suas vozes sejam ouvidas
oferecem maiores condições de acolhimento e
confiança em seu trabalho.
Os processos de ensino-aprendizagem se atualizam
constantemente no meio educacional. Então,
entender, por exemplo, como as metodologias
ativas promovem maior envolvimento e
participação dos jovens pode não só melhorar a
apreensão de algum conhecimento, como também
incentivar a aplicação do assunto na prática.
Qual a experiência mais marcante de sua vivência
espírita que gostaria de destacar aos leitores?
Destaco, na cidade de Franca, há alguns anos, a
oportunidade de realizar um estudo, junto a
outros colegas, em um encontro de mocidades
naquela cidade. Tão jovem na época e com tamanha
vontade de fazer acontecer! O tema era
responsabilidade social.
Conseguem imaginar o quanto esse momento me
impactou e também influenciou meus anseios de
mudanças sociais? Essa lembrança eufórica e tão
determinada me faz lembrar, ao contar a vocês,
como principalmente a energia sexual do jovem
precisa ser canalizada, mas isso serve para
todos de forma geral.
Utilizamos essa energia para trabalhar, passear,
estudar e realizar qualquer outra atividade.
Naquele momento, senti-me tão motivado que, com
certeza, a espiritualidade estava me ajudando a
entregar o melhor para quem participava da
atividade.
Esta é a característica principal do jovem. Tem
força, garra e energia para transformar, mas
precisa, indiscutivelmente, de um bom
direcionamento.
Pela graça de Deus, pude ter uma boa canalização
em virtude da educação amorosa e cuidadosa dos
meus pais, do centro e dos familiares.
O que me chama a atenção é a indagação de como
conseguir uma canalização dessa energia,
chamando mais jovens para bons atos. Já é
difícil, muitas vezes, resistir ao sono para ir
trabalhar ou estudar, ter uma mudança de
pensamento positivo, ser mais paciente ou lidar
com outras situações relativamente fáceis do dia
a dia. Então, como mudar e, principalmente,
ensinar que a mudança do padrão vibratório, o
orar e o vigiar são práticas tão importantes a
serem realizadas diariamente?
São diversas interrogações que me fazem grato
por também conterem afirmações de práticas que
podem valorizar o sentimento de reforma íntima e
por mostrarem que os exemplos realmente arrastam
e transformam.
Algo mais a acrescentar?
Gostaria de contar várias experiências pessoais
quanto a dar estudos na mocidade, como foram as
preparações, mas faltaria espaço para
compartilhar. Se eu pudesse escolher algum
pensamento ou dica de como ajudar a trabalhar
com o jovem, seria dizer para se colocar em seu
lugar.
Todos já foram jovens. Lembram-se de como
pensavam, de seus anseios e de suas
dificuldades? E, mesmo se não souber, o processo
está em perguntar a ele quando não se sabe,
deixar que fale e, se não falar, pelos diversos
processos que tem enfrentado em sua formação —
por exemplo, na adolescência —, procurar
integrar o máximo possível suas vivências, seu
mundo, as séries e filmes, livros, jogos, games,
canais e redes sociais de que gosta e nos quais
está envolvido.
Esta é uma grande oportunidade de conhecimento,
estreitamento de vínculos e troca, que, com
certeza, fará com que um tenha muito a aprender
com o outro.
Suas palavras finais.
Considerando que o pensamento jovem está no
Espírito e não na idade, chamo os “jovens ainda”
a contribuírem para a melhoria do processo de
embasamento e fortalecimento do Espiritismo.
Todos podem contribuir para esse processo. Não
se esqueçam de que somos Espíritos imortais e de
que passaremos por quaisquer situações pelas
quais um jovem dos dias de hoje passa.
Entendo que o olhar amoroso e cuidadoso para
cada jovem pode desenvolver importantes laços e
contribuir para o mútuo processo de aprendizagem
e desenvolvimento do Espírito que, com certeza,
todos os seres podem proporcionar uns aos
outros.
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