Artigos

por Ruy Ferreira

 

Nossa realidade é cruel


Vi ao longo dos meus mais de setenta anos de vida as lindas pregações e orações pela paz mundial. Claro que nunca houve paz no mundo, nem mesmo no Brasil. Afinal, nem sempre é necessária uma guerra convencional entre nações para que exista a ausência da paz. Há lares em guerra mais fratricidas que nações. Qual seria, então, o motivo dessa falta de paz, ou melhor, daquela paz que só existe entre duas guerras?

Ao meu ver, há uma explicação razoável sobre tal carência na Terra. Se, em lugar de crer ser este planeta o único habitado no Universo, e mais, acreditando ser o nosso mundo um dos menos elevados em termos morais e do progresso espiritual, a barbárie passa a ser algo normal entre os seres aqui viventes. Independentemente de estarem vestidos de penas, trapos ou de paletó e gravata.

Se nos apegássemos ao ensinado em O Livro dos Espíritos, questão número 172, quando Allan Kardec pergunta: “As nossas diversas existências corporais se verificam todas na Terra?” Ao que tem como resposta um sonoro não: “Não; vivemo-las em diferentes mundos. As que aqui passamos não são as primeiras, nem as últimas; são, porém, das mais materiais e das mais distantes da perfeição.” (grifo meu) Ou seja, aqui nos posicionamos entre os mundos povoados por espíritos mais distantes da perfeição.

A realidade publicada em 1857 é tamanha que não há como contra-argumentar: somos e estamos na condição de bárbaros, diante dos espíritos viventes no restante do Universo. Isso por si só já explica a guerra e a ausência da paz. Resolvemos nossas disputas pela força bruta e, quando elas são mais extensas, os seres humanos pegam em armas para vencer a tal disputa.

O tempo é a resposta para esse estágio de barbárie, mas não é nosso tempo que conta nesse progresso coletivo, mas sim o tempo que nós chamamos de eternidade, o tempo de Deus. Diante disso, não espero um mundo de regeneração em meu tempo de vida encarnado, mas creio, sim, que meu espírito verá a transformação moral da Terra. Até lá, vamos conviver com a guerra, com os conflitos armados locais e com o emprego das armas na solução de disputas das mais variadas ordens.

Um defensor da paz tem o direito de não se armar. É o sagrado direito do exercício de seu livre-arbítrio. Tem que ser respeitado. Do outro lado da reta da convivência social de um povo em estágio de barbárie, surge aquele que tem necessidade de possuir uma arma. Da mesma forma, o livre-arbítrio desse indivíduo tem que ser respeitado. Entre as duas posições extremas, há uma complexa sucessão de posições, onde cada uma delas marca não mais o desejo pessoal, mas sim a necessidade.

Exemplificando: um agricultor que precisa defender a si, sua família, seu rebanho e sua propriedade necessita possuir uma arma, afinal, o Estado não o socorrerá a contento diante do perigo iminente de feras selvagens variadas. Uma coisa é a minha utopia de um mundo ideal, outra é a realidade onde vivemos.

Da mesma forma, o policial armado que usa a violência estatal para obrigar o criminoso a sucumbir ao cumprimento da lei. Mesmo as polícias desarmadas no cotidiano das ruas possuem, em sua retaguarda, unidades armadas e bem treinadas para fazer valer as leis.

Também existem os militares das Forças Armadas, que, diferentes dos policiais, não são treinados para subjugar o inimigo, mas sim para eliminar sua vida. A escala sobe de nível de violência estatal e seus efeitos são catastróficos do ponto de vista físico, espiritual e emocional, mas ainda assim necessários no estágio atual de convivência em nosso planeta azul.

A lista é longa; encerro por aqui, citando o direito que o cidadão de bem, provando sua higidez mental e após treinado adequadamente, tem de possuir uma arma em casa, para, nesses tempos de violência urbana elevada ao cubo, defender a si e sua família, aliado a todas as responsabilidades que isso implica.

Não faço apologia às armas, não faço propaganda de armas, só não posso deixar de lado a realidade em que vivemos e adentrar um mundo fantasioso, só presente em narrativas utópicas, e deixar de aceitar que somos bárbaros em pleno momento de prova e de expiação, longe no tempo da regeneração moral do indivíduo.

Isso significa que não seremos anjos em dias, meses, anos, séculos e poucos milênios. O que posso fazer, então? Mudo minha atitude moral e o mundo muda comigo. Se amanhã eu conseguir ser mais pacífico que ontem, talvez minha arma nunca saia do cofre. Enfim, quem sou eu para definir o que o próximo deverá ser ou fazer?


Nota da Redação
:

Como já afirmamos oportunamente, as opiniões expressas por nossos articulistas não coincidem, necessariamente, com as da direção deste periódico. Esclarecemos, portanto, que não compartilhamos da ideia de que o uso de armas constitua solução para os conflitos humanos.


Ruy Ferreira é bacharel em Sistemas de Informações, especialista em Banco de Dados e Análise de Sistemas. Mestre e Doutor em Educação, Ciências e Tecnologia (Informática Educativa). Atuou como Analista de TI no Superior Tribunal Militar, exerceu funções militares em quartéis de Artilharia do Exército, em 1994 deixou a carreira militar para atuar no Ensino Superior como professor da área da Ciência da Computação, onde permaneceu até a aposentadoria. É autor de onze livros, entre eles: acadêmicos, romance, contos, manuais e crônicas.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita