Especial

por Jorge Hessen

Uma reflexão sobre o sectarismo às avessas


Voltamos a um tema que já examinamos em outra oportunidade: a tentativa de transformar a defesa da Codificação em uma espécie de fundamentalismo kardequista. Não se trata da fidelidade a Allan Kardec — dever inalienável de todo espírita consciente —, mas da deformação de seu método, substituído por um comportamento de intolerância que rejeita, de antemão, qualquer contribuição oriunda da literatura subsidiária, especialmente a de Emmanuel.

Basta mencionar o nome de Emmanuel para que alguns confrades reajam com indisfarçável aversão. Não examinam argumentos; repelem autores. Não confrontam princípios; desqualificam pessoas. Não aplicam o método kardequiano; recorrem ao instrumento do preconceito. Emmanuel passa a ser condenado antes de ser lido. Essa atitude não traduz rigor doutrinário; revela um dogmatismo incompatível com a natureza científica e filosófica do Espiritismo.

É oportuno recordar uma verdade elementar: Allan Kardec nunca ensinou a rejeição automática de qualquer comunicação espiritual. Ao contrário, edificou toda a Codificação sobre o exame crítico, a comparação, a lógica, a experiência e o Controle Universal do Ensino dos Espíritos. O Codificador jamais propôs uma ortodoxia fechada, mas um método permanente de investigação.

No capítulo I de A Gênese, Kardec afirma que, diante de novos conhecimentos comprovados, o Espiritismo não permaneceria imóvel; se uma verdade nova fosse demonstrada, a Doutrina a acolheria. Essa afirmação destrói qualquer pretensão de transformar a Codificação em um sistema intelectual impermeável à análise, à pesquisa e ao diálogo. Fidelidade a Kardec jamais significou fossilização do pensamento.

Curiosamente, alguns dos que proclamam "Espiritismo é Kardec" acabam contrariando justamente aquilo que Kardec mais prezava: a liberdade do exame. Criam uma espécie de magistério informal do qual  determinados autores são proscritos, determinados livros tornam-se suspeitos e determinados estudiosos passam a ser vistos como desviacionistas simplesmente por reconhecerem méritos na obra de Emmanuel.

É preciso afirmar, com absoluta clareza: Emmanuel não é codificador. Nunca reivindicou esse título. Nunca afirmou estar corrigindo Allan Kardec. Nunca pediu que suas obras substituíssem a Codificação. Pelo contrário, inúmeras vezes reconheceu Kardec como o fundamento doutrinário do Espiritismo. Essa realidade histórica é frequentemente omitida pelos seus críticos mais severos.

Isso significa que Emmanuel é infalível? Evidentemente, não.

Existem temas em sua vasta produção que suscitam legítimas reservas doutrinárias. Entretanto, reconhecer divergências não autoriza condenações globais.

Quem rejeita integralmente Emmanuel por causa de alguns aspectos discutíveis abandona precisamente o critério estabelecido por Kardec. O método espírita não recomenda nem aceitação cega nem rejeição absoluta. Recomenda discernimento. Recomenda separar o acessório do essencial. Recomenda conservar aquilo que resiste ao exame racional e deixar como opinião pessoal aquilo que não alcançou confirmação doutrinária.

Infelizmente, alguns preferem um caminho mais simples: substituir a análise pelo anátema. Esse comportamento aproxima-se muito mais do espírito das antigas controvérsias confessionais do que da investigação espírita. Em vez de argumentos, apresentam rótulos. Em vez de comparação, distribuem suspeitas. Em vez de estudo, cultivam a exclusão.

O resultado é paradoxal. Combatendo aquilo que chamam de "emmanuelismo", acabam criando uma nova ortodoxia: o fundamentalismo kardequista.

Não se trata do legítimo retorno às fontes da Codificação, absolutamente necessário para preservar a identidade doutrinária do Espiritismo. Trata-se da tentativa de reduzir toda a cultura espírita às cinco obras fundamentais, como se mais de um século e meio de produção séria de autores respeitados nada tivesse a oferecer.

A consequência inevitável seria o empobrecimento intelectual do movimento espírita. Mais grave ainda é observar que esse fundamentalismo frequentemente se apresenta revestido de uma aparente superioridade doutrinária. Alguns comportam-se como se fossem guardiões exclusivos da ortodoxia, distribuindo certificados de fidelidade a Kardec conforme simpatias pessoais. Esquecem-se de que o primeiro inimigo do conhecimento espírita sempre foi o orgulho intelectual.

Kardec jamais instituiu tribunais doutrinários. Jamais autorizou caças às bruxas literárias. Jamais incentivou campanhas de desmoralização contra autores. Ao contrário, advertiu repetidas vezes contra o fascínio, contra o personalismo e contra os julgamentos precipitados.

Paradoxalmente, aqueles que denunciam a idolatria em torno de Emmanuel muitas vezes caem no extremo oposto (idolatria a Kardec): transformam sua rejeição em verdadeira obsessão intelectual. Emmanuel passa a ocupar permanentemente suas preocupações, não como objeto de estudo, mas como alvo preferencial de ataques. O que deveria ser análise converte-se em aversão sistemática.

Essa postura não fortalece a Doutrina. Fragiliza-a. Porque transmite às novas gerações a falsa ideia de que o Espiritismo se preserva por meio de proibições, listas de autores aceitáveis ou condenações sumárias. Kardec jamais propôs semelhante método. A força do Espiritismo reside justamente na liberdade responsável de investigação.

O espírita maduro não idolatra Emmanuel. Também não o demoniza. Lê-o criticamente. Confronta suas afirmações com a Codificação. Aproveita aquilo que se harmoniza com os princípios fundamentais. Suspende o juízo sobre o que permanece controverso. Essa é a postura verdadeiramente kardequiana.

Quem transforma Emmanuel em autoridade infalível erra. Mas quem o transforma em inimigo da Doutrina também erra. Os extremos sempre empobrecem o pensamento.

O Espiritismo não necessita de novos dogmas nem de novos inquisidores (idólatras de Kardec). Precisa de homens e mulheres capazes de estudar sem paixões, discutir sem sectarismo e divergir sem hostilidade.

A fidelidade a Allan Kardec não se mede pelo número de condenações lançadas contra autores subsidiários. Mede-se pela disposição de aplicar, com honestidade intelectual, o método que ele próprio legou ao mundo: observar, comparar, raciocinar, submeter tudo ao crivo da lógica, da experiência e da universalidade do ensino dos Espíritos.

Quem abandona esse método, ainda que o faça em nome de Kardec, já começou a afastar-se do verdadeiro espírito da Codificação.


Referências bibliográficas
:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 132. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018

DENIS, Léon. Depois da morte. 32. ed. Brasília: FEB, 2019

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. 29. ed. Brasília: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. 42. ed. Brasília: FEB, 2018.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita