Voltamos a um tema que já examinamos em outra
oportunidade: a tentativa de transformar a defesa da
Codificação em uma espécie de fundamentalismo kardequista.
Não se trata da fidelidade a Allan Kardec — dever
inalienável de todo espírita consciente —, mas da
deformação de seu método, substituído por um
comportamento de intolerância que rejeita, de antemão,
qualquer contribuição oriunda da literatura subsidiária,
especialmente a de Emmanuel.
Basta mencionar o nome de Emmanuel para
que alguns confrades reajam com indisfarçável aversão.
Não examinam argumentos; repelem autores. Não confrontam
princípios; desqualificam pessoas. Não aplicam o método
kardequiano; recorrem ao instrumento do preconceito.
Emmanuel passa a ser condenado antes de ser lido. Essa
atitude não traduz rigor doutrinário; revela um
dogmatismo incompatível com a natureza científica e
filosófica do Espiritismo.
É oportuno recordar uma verdade elementar: Allan Kardec
nunca ensinou a rejeição automática de qualquer
comunicação espiritual. Ao contrário, edificou toda a
Codificação sobre o exame crítico, a comparação, a
lógica, a experiência e o Controle Universal do Ensino
dos Espíritos. O Codificador jamais propôs uma ortodoxia
fechada, mas um método permanente de investigação.
No capítulo I de A Gênese, Kardec afirma que,
diante de novos conhecimentos comprovados, o Espiritismo
não permaneceria imóvel; se uma verdade nova fosse
demonstrada, a Doutrina a acolheria. Essa afirmação
destrói qualquer pretensão de transformar a Codificação
em um sistema intelectual impermeável à análise, à
pesquisa e ao diálogo. Fidelidade a Kardec jamais
significou fossilização do pensamento.
Curiosamente, alguns dos que proclamam "Espiritismo é
Kardec" acabam contrariando justamente aquilo que Kardec
mais prezava: a liberdade do exame. Criam uma espécie de
magistério informal do qual determinados autores são
proscritos, determinados livros tornam-se suspeitos e
determinados estudiosos passam a ser vistos como
desviacionistas simplesmente por reconhecerem méritos na
obra de Emmanuel.
É preciso afirmar, com absoluta clareza: Emmanuel não é
codificador. Nunca reivindicou esse título. Nunca
afirmou estar corrigindo Allan Kardec. Nunca pediu que
suas obras substituíssem a Codificação. Pelo contrário,
inúmeras vezes reconheceu Kardec como o fundamento
doutrinário do Espiritismo. Essa realidade histórica é
frequentemente omitida pelos seus críticos mais severos.
Isso significa que Emmanuel é infalível? Evidentemente,
não.
Existem temas em sua vasta produção que suscitam
legítimas reservas doutrinárias. Entretanto, reconhecer
divergências não autoriza condenações globais.
Quem rejeita integralmente Emmanuel por causa de alguns
aspectos discutíveis abandona precisamente o critério
estabelecido por Kardec. O método espírita não recomenda
nem aceitação cega nem rejeição absoluta. Recomenda
discernimento. Recomenda separar o acessório do
essencial. Recomenda
conservar aquilo que resiste ao exame racional e
deixar como opinião pessoal aquilo que não alcançou
confirmação doutrinária.
Infelizmente, alguns preferem um caminho mais simples:
substituir a análise pelo anátema. Esse comportamento
aproxima-se muito mais do espírito das antigas
controvérsias confessionais do que da investigação
espírita. Em vez de argumentos, apresentam rótulos. Em
vez de comparação, distribuem suspeitas. Em vez de
estudo, cultivam a exclusão.
O resultado é paradoxal. Combatendo aquilo que chamam de
"emmanuelismo", acabam criando uma nova ortodoxia:
o fundamentalismo kardequista.
Não se trata do legítimo retorno às fontes da
Codificação, absolutamente necessário para preservar a
identidade doutrinária do Espiritismo. Trata-se da
tentativa de reduzir toda a cultura espírita às cinco
obras fundamentais, como se mais de um século e meio de
produção séria de autores respeitados nada tivesse a
oferecer.
A consequência inevitável seria o empobrecimento
intelectual do movimento espírita. Mais grave ainda é
observar que esse fundamentalismo frequentemente se
apresenta revestido de uma aparente superioridade
doutrinária. Alguns comportam-se como se fossem
guardiões exclusivos da ortodoxia, distribuindo
certificados de fidelidade a Kardec conforme simpatias
pessoais. Esquecem-se de que o primeiro inimigo do
conhecimento espírita sempre foi o orgulho intelectual.
Kardec jamais instituiu tribunais doutrinários. Jamais
autorizou caças às bruxas literárias. Jamais incentivou
campanhas de desmoralização contra autores. Ao
contrário, advertiu repetidas vezes contra o fascínio,
contra o personalismo e contra os julgamentos
precipitados.
Paradoxalmente, aqueles que denunciam a idolatria em
torno de Emmanuel muitas vezes caem no extremo oposto
(idolatria a Kardec): transformam sua rejeição em
verdadeira obsessão intelectual. Emmanuel passa a ocupar
permanentemente suas preocupações, não como objeto de
estudo, mas como alvo preferencial de ataques. O que
deveria ser análise converte-se em aversão sistemática.
Essa postura não fortalece a Doutrina. Fragiliza-a.
Porque transmite às novas gerações a falsa ideia de que
o Espiritismo se preserva por meio de proibições, listas
de autores aceitáveis ou condenações sumárias. Kardec
jamais propôs semelhante método. A força do Espiritismo
reside justamente na liberdade responsável de
investigação.
O espírita maduro não idolatra Emmanuel. Também não o
demoniza. Lê-o criticamente. Confronta suas afirmações
com a Codificação. Aproveita aquilo que se harmoniza com
os princípios fundamentais. Suspende o juízo sobre o que
permanece controverso. Essa é a postura verdadeiramente
kardequiana.
Quem transforma Emmanuel em autoridade infalível erra.
Mas quem o transforma em inimigo da Doutrina também
erra. Os extremos sempre empobrecem o pensamento.
O Espiritismo não necessita de novos dogmas nem de novos
inquisidores (idólatras de Kardec). Precisa de
homens e mulheres capazes de estudar sem paixões,
discutir sem sectarismo e divergir sem hostilidade.
A fidelidade a Allan Kardec não se mede pelo número de
condenações lançadas contra autores subsidiários.
Mede-se pela disposição de aplicar, com honestidade
intelectual, o método que ele próprio legou ao mundo:
observar, comparar, raciocinar, submeter tudo ao crivo
da lógica, da experiência e da universalidade do ensino
dos Espíritos.
Quem abandona esse método, ainda que o faça em nome de
Kardec, já começou a afastar-se do verdadeiro espírito
da Codificação.
Referências bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. Brasília: FEB, 2019.
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Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 132. ed.
Brasília: FEB, 2019.
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Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas.
Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018
DENIS, Léon. Depois da morte. 32.
ed. Brasília: FEB, 2019
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito
Emmanuel. O Consolador. 29. ed. Brasília: FEB,
2013.
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito
Emmanuel. Fonte Viva. 42. ed. Brasília: FEB, 2018.