Guimarães Rosa: duas imortalidades no
mesmo tempo
Guimarães Rosa, notável escritor, consagrado por ter
produzido Grande Sertão: Veredas, vivia
apoquentado com uma questão: caso fosse agraciado com
uma vaga na Academia Brasileira de Letras, tendo seu
nome grafado no panteão dos imortais, não suportaria
tamanha emoção e, além de ser um imortal em vida, seria
um imortal em morte.
Resumindo: sucumbiria, tombado pela forte emoção.
Por conta desse pressentimento, Rosa adiou por vários
anos receber a condecoração. Alguns amigos tentavam
dissuadi-lo, dizendo que a ideia era mera bobagem
mística e, como diz o ditado, água mole em pedra dura
tanto bate até que fura, o escritor aceitou receber a
honraria.
Pois bem, 3 dias após o seu discurso de posse, Guimarães
Rosa, conforme previra, passa, de fato, ao mundo dos
imortais, deixando, aqui na Terra, seu nome gravado como
um dos maiores da literatura brasileira.
É muito comum, aqui e acolá, ouvirmos conversas que
relatam mais ou menos assim:
—“Fulano sentiu que estava no fim.”
—“Sicrano percebeu que se aproximava o momento de sua
morte.”
Minha sogra conta que, no dia em que seu pai partiu, ele
avisou a todos os filhos que iria embora. Sem nenhum
problema aparente, desencarnou naquela noite, como
previra aos filhos horas antes.
Enfim, há muitos casos e causos.
Mas o que há de real nisso, segundo o Espiritismo?
Em geral, os Espíritos sabem quando se aproxima o
momento da desencarnação, assim como sentem, também, o
momento em que se aproxima a reencarnação.
É uma questão razoável: por que deveríamos estar
desprevenidos em momentos cruciais de nossa existência,
como o de partir para o além ou o aquém?
Portanto, é natural que sintamos os ventos da mudança
soprando em nossas vidas. Ocorre que muitos, desligados
demais, deixam de captar as coisas que dizem respeito ao
próprio caminho.
Contudo, se estivermos um pouco mais ligados, sentiremos
o findar e o iniciar de ciclos. Essa percepção, que pode
ser aguçada ou obliterada pelo tipo de vida que leva a
alma, colabora muito para que as coisas fluam de forma
mais leve em nossa existência.
Percebamos que muitas decepções e frustrações são
oriundas de mudanças que, ao nosso sentir, são radicais;
porém, se tivéssemos observado com um pouco mais de
atenção, perceberíamos que não foram tão radicais assim.
A realidade é que fomos nós que não captamos os pequenos
sinais enviados pela vida de que aquela estação já
estava se findando. Pegos “desprevenidos”, dizemos que
não esperávamos que aquilo ocorresse naquele momento.
Pressentimentos, sensações, inspirações, intuições:
todos esses elementos são ferramentas para ajudar nosso
trabalho enquanto Espíritos. Servem não para nos
assustar; ao contrário, devem facilitar as coisas para
nós, proporcionar uma melhor adaptação às mudanças.
São informações que propiciam despedidas e inícios mais
leves, tranquilos, serenos, sem os traumas tão
característicos dos bruscos rompimentos.
É desafiador, eu sei, mas, se pensarmos bem, veremos
que, no final das contas, estamos aqui para vencer os
desafios.
Que tal ficarmos mais ligados em nós mesmos para não
perdermos esses toques da amiga vida?
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