Tema: Bondade, perdão
O Besouro e o Gafanhoto
Numa linda manhã de primavera, do terraço de sua mansão,
o Besouro sorria, vendo os filhos brincarem no gramado
de seu enorme jardim.
O Besouro estava bem-humorado. Tinha acordado disposto a
realizar grandes negócios. Era o que dizia à esposa,
durante o café matinal:
— Sabe, querida, hoje tive um lindo sonho! Sonhei com a
cantina que desejo construir! Ela estava pronta!

Tinha azulejos floridos na fachada, telhas brilhantes e
letreiros luminosos. Ah!... Vou ganhar rios de dinheiro!
— Mais dinheiro? Para que tanto dinheiro, querido? —
perguntou a esposa, pensativa.
— Ora! Quanto mais, melhor! — respondeu o Besouro. — É
para o futuro dos nossos filhos.
— Sim, concordo, mas já temos tantas propriedades! Não
acha que também seria bom ajudarmos quem precisa? Que
tal cuidar um pouco dos outros? — disse ela.
— O quê? Cuidar dos outros?! Cada um que cuide de si! Eu
tenho é que cuidar dos meus interesses. Ainda bem que
sou eu quem cuida do dinheiro nesta casa! Mas não
briguemos por tão pouco. Hoje acordei feliz, com a
cabeça cheia de planos.
— Você vai sair, querido?
— Sim, tenho que ir à casa do Gafanhoto. Preciso
pedir-lhe que desocupe a casa, pois pretendo construir
lá a minha nova cantina. Ele vai ter que sair o quanto
antes.
— Não faça isso, Besouro. O Gafanhoto é tão pobre. Onde
ele vai morar? Deixe-o em paz. Temos tantas outras
casas...
— Sim! Mas quero aquele local para instalar minha
cantina.
O Besouro estava decidido. Arrumou-se, entrou no seu
belo carro e pediu ao motorista que o levasse até a casa
do Gafanhoto.
— Bom dia, senhor Besouro. Vamos entrar? — disse o
Gafanhoto, ao vê-lo. — A casa é pobre, mas minha mulher
fará um cafezinho.
— Não se preocupe. Vim apenas dar-lhe um aviso. Quero
que se mude daqui. Preciso destas terras.
Se um raio tivesse caído aos seus pés, o Gafanhoto não
se assustaria tanto.
— Por favor, senhor Besouro! Não faça isso, não tenho
para onde ir...
— O problema é seu, meu caro. Passe bem! — disse o
Besouro, encerrando a conversa e voltando para seu
carro.
Nessa noite, na casa do Gafanhoto, houve muitas lágrimas
e preocupações. O Gafanhoto e sua esposa não sabiam o
que fazer.
O tempo passou, e a família do Gafanhoto conheceu dias
amargos. Tiveram de deixar a casa e abrigar-se embaixo
de uma grande folha, à margem de uma lagoa.
Os gafanhotinhos tiveram de superar o medo da noite e
acostumar-se com o barulho dos sapos e das cigarras.
Mesmo sem casa onde morar e enfrentando dificuldades,
procuravam se alegrar, porque se amavam e, pelo menos,
estavam juntos, cuidando uns dos outros.
Certo dia, uma boa formiguinha, que morava por ali,
falou às irmãs:
— Temos de ajudar o Gafanhoto, que não tem onde morar.
Vive aflito com a filharada, coitado! Desconfio que
andam passando fome! O que poderemos fazer?
No dia seguinte, as formigas acordaram bem cedo para
trabalhar, como de costume, e combinaram falar a todos
que encontrassem pelo caminho que a família do Gafanhoto
precisava de ajuda.
Assim, joaninhas, borboletas, libélulas, aranhas e até
os animais maiores ficaram sabendo da situação e se
dispuseram a ajudar. Cada um dava uma ideia e queria
ajudar à sua maneira, mas foi o passarinho João-de-Barro
quem resolveu a situação.
— Não se aflijam! Vou fazer para o Gafanhoto uma linda
casa, com dois compartimentos, além da sala e da
cozinha!
— Que maravilha! — gritaram todos! — O Gafanhoto merece!
Ele é muito legal e vai ficar muito feliz.
— Viva o João-de-Barro! Viva! Viva! — gritavam ainda as
formigas.
Com o incentivo de todos, em poucos dias o João-de-Barro
conseguiu construir a nova casa. Foi uma alegria geral.
Todos queriam ajudar de alguma forma.
As abelhas trouxeram gotinhas de mel. Os grilos,
frutinhas gostosas. Pirilampos, centopeias e caramujos,
todos chegavam com sua oferta, pequenina, humilde, mas
tão amiga! A família do Gafanhoto recebeu flores,
alimentos e carinho.
Com a despensa cheia e já acomodado na casa que o
João-de-Barro, às pressas, tinha construído, o Gafanhoto
pôde encontrar emprego e cuidar da família. Uma nova era
principiava em sua vida!
Em sua sala forrada de cetim, o Besouro cochilava depois
do almoço quando ouviu, lá fora, a algazarra dos
bichinhos.
— Mordomo! Mordomo! — chamou o Besouro. — O que está
acontecendo? Que barulheira é essa?
— Patrão, lá fora está uma beleza! Estão comemorando e
dando vivas ao João-de-Barro, que construiu uma casa
nova para o Gafanhoto! De graça!
O Besouro ficou tão admirado com a atitude do
João-de-Barro que não disse mais nada. Ele, que só
pensava em dinheiro, não imaginava que alguém pudesse
ter um gesto assim, sem ganhar nada em troca. Pela
primeira vez, uma pontinha de remorso sacudiu seu
coração.
Lembrou-se dos conselhos de sua esposa. Se ele tivesse
dado ouvidos a ela, poderia ter evitado todo o
sofrimento dos gafanhotos. Mas, agora, não podia fazer
mais nada.
O tempo passou...
Certo dia, voltando de uma viagem, o Besouro ouviu, já
no caminho de sua casa, vozes gritando:
— Fogo! Fogo! Fujam! O incêndio vai se alastrar!
Salve-se quem puder!
A floresta estava em chamas. Os animais fugiam
desesperados, enquanto o Besouro via rolos de fumaça
saírem de sua casa.
O Besouro pensou na família e pôs-se a correr, aflito.
— Socorro! Socorro! Quem me ajuda a salvar minha
família? Ah! Quem tem pena de mim? Ah! Quem me ajuda?
O Besouro não conhecia aquela sensação. Estava
acostumado a mandar e ser obedecido. Não sabia o que era
ter de pedir ajuda e depender da boa vontade de alguém.
Todos corriam para se salvar! Ninguém se importava com
seu desespero!
De repente, uma voz estridente dominou a confusão. O
Besouro olhou. Era o Gafanhoto.
— Amigos! Vamos dar uma prova de coragem e ajudar o
Besouro. Vamos dominar o fogo e lutar contra o incêndio!
Vamos ajudar! Vamos tirar a família do Besouro de lá!
O Besouro teria perdido sua família se o Gafanhoto não
tivesse sido tão bom e corajoso. Depois que tudo
serenou, abraçado à sua mulher e aos filhos, o Besouro
começou a chorar diante dos animais que o tinham
ajudado.
— Mas o que é isso, Besouro? Não é hora de chorar!
Ninguém se queimou! Ninguém se feriu! — disse alguém.
— Eu sei... Eu sei.
— Compreendo. O senhor terá muitos gastos, mas, depois
que pintar sua casa e comprar novos móveis, tudo ficará
mais bonito.
— Não, eu não choro pelo dinheiro que perdi. Choro
porque vocês foram bons e generosos. Como pôde me
perdoar, Gafanhoto? — disse o Besouro. — Eu também acabo
de aprender uma coisa muito importante: o dinheiro não é
o que vale mais neste mundo. Daqui para a frente, quero
ser bom e ajudar as pessoas como eu puder. O segredo da
felicidade está num coração bom, que sabe compreender as
necessidades dos outros.
E foi assim que o Besouro se tornou uma boa pessoa.
Continuou fazendo bons negócios, mas sem causar mais
sofrimento aos outros, apenas ajudando e promovendo o
bem.
Adaptação do livro de mesmo título, da autora Regina
Melillo de Souza.