No momento de julgar
No momento de julgar alguém, como poderás julgar esse
alguém, de todo, se não conheces tudo?
Terá sucedido um crime, estarrecendo a multidão.
Suponhamos que um homem desequilibrado haja posto uma
bomba em certa casa, no intuito de destruir-lhe os
moradores. Entretanto, por trás dele estão aqueles que
fabricaram o engenho mortífero; os que o conservaram
para utilização em momento oportuno; os outros que lhe
identificaram o perigo, aprovando-lhe a existência; e
aqueles outros ainda que, indiferentes, lhe acompanharam
o fogo no estopim, sem a mínima disposição de apagá-lo.
De que maneira medirias o remorso do Espírito de um
homem assassinado, na hipótese desse mesmo assassinado
haver provocado o seu contendor até que o antagonista
lhe furtasse o corpo, num instante de insanidade? E como
observarias o pesar do semelhante, às vezes, ilhado no
fundo de uma penitenciária, na posição de um vivo-morto,
quando o imaginado morto permanece vivo? E com que metro
verificarias o sofrimento de um e outro?
Com que pancadas ou palavras agressivas conseguirias
punir, durante algumas horas, a criatura menos feliz que
já carrega em si o tormento da culpa, à feição de
suplício que lhe atenaza o coração, noite e dia?
Ante a queda moral de alguém, é mais razoável entrarmos
para logo no assunto, na condição de partícipes dela,
antes que nos alcemos à indébita função de censores.
Não precisaríamos tanto de justiça, se não praticássemos
a injustiça e nem tanto de medicina se não tivéssemos
doença.
Necessitaríamos, porventura, na Terra, de tantas e tão
multiplicadas lições, em torno do bem, se o mal não nos
armasse riscos, quase que em todas as direções do
Planeta?
E onde estão aqueles que estejam usufruindo a glória da
instalação segura no bem, sem o prejuízo de algum mal,
ou aqueles outros que atravessam os espinheiros do mal,
sem a vantagem de algum bem?
No momento de julgar, peçamos a Inspiração da
Providência Divina para os magistrados que as
circunstâncias vestiram com a toga, a fim de que
acertem, nas suas decisões, em louvor do equilíbrio
geral, porquanto é tão delicado o encargo do juiz
chamado a interferir no corpo da ordem social, quão
difícil é a tarefa do cirurgião convocado a interferir
no corpo físico.
E quanto a nós outros, os que não somos trazidos a
sentenças de lei, já que não nos achamos compromissados
para isso, usemos a sobriedade e a compaixão em todos os
nossos processos de vivência pessoal no cotidiano,
conscientes, quanto devemos estar, de que os justos são
as âncoras dos injustos e de que os bons constituem a
esperança para todos aqueles que a maldade ensandece.
No momento de julgar, ainda que te coloquem no último
banco, entre os últimos réus, e mesmo que se te negue o
direito de defender a própria consciência edificada e
tranquila, a ninguém condenes, nem mesmo àqueles que,
porventura, te condenem.
Usa sempre a misericórdia e acertarás.
Do livro Chico Xavier pede
licença, obra psicografada pelo médium Francisco
Cândido Xavier.
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