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Debilitar
o corpo com privações
inúteis contraria a lei
de Deus
Uma leitora de São Paulo
(SP) pede-nos que
comentemos o conceito de
sacrifício à luz da
doutrina espírita. Na
mensagem ela fez
referência também a
alguns sacrifícios que,
embora seja espírita,
costuma fazer durante o
período da chamada
Quaresma.
Para os não afeitos à
liturgia católica,
lembramos que a Quaresma
faz parte do ano
litúrgico e compreende
os 40 dias que vão da
quarta-feira de cinzas
até o domingo de Páscoa,
período esse que deve
ser destinado, por
católicos e ortodoxos, à
penitência. É aí, então,
que dentro da penitência
surge a ideia da
realização de
sacrifícios.
O vocábulo sacrifício
tem, conforme a
etimologia, o sentido de
se “fazer alguma coisa
sagrada”. Em seu sentido
primitivo e unicamente
religioso, representa
uma oferenda que se faz
à Divindade por meio de
rituais.
O propósito declarado do
sacrifício varia muito
entre as diferentes
culturas. Por extensão,
pode ele ser considerado
como uma renúncia ou
privação voluntária de
alguma coisa, como a
privação dos gozos
inúteis, que a doutrina
espírita considera ato
meritório, porque
desprende da matéria o
homem e eleva sua alma.
Resistir à tentação que
arrasta ao excesso ou ao
gozo das coisas inúteis,
tirar do que temos para
dar aos que carecem do
bastante, fazer o bem
aos nossos semelhantes –
eis algumas práticas que
apresentam grande mérito
dentro do rol das
chamadas privações
voluntárias.
A realização de
sacrifícios religiosos
está geralmente
relacionada com as
mortificações e as
penitências. O verbo
mortificar é sinônimo de
afligir, atormentar,
castigar, macerar o
próprio corpo com
penitências. A
mortificação ocorreria
devido ao arrependimento
ou à dor resultante do
pecado que a pessoa
tenha cometido.
Em função do
arrependimento, certas
autoridades religiosas
impõem uma pena ao
arrependido para
remissão de seus
pecados, pena essa
representada por jejuns,
orações, macerações do
corpo e outras tantas
mortificações inerentes
às manifestações de
culto externo.
Em seu livro Elucidações
Evangélicas, Antônio
Luiz Sayão examina o
assunto “penitência” e
diz que essa prática é,
segundo algumas
religiões, necessária ao
pecador que não deseja
agravar sua culpa e
tornar-se, por
conseguinte, passível de
maiores castigos. A
penitência, tal como a
entendia Jesus, não
consiste, porém, na
reclusão em claustros,
nos cilícios e em outras
tribulações materiais.
Ela consiste no
arrependimento sincero e
profundo e no propósito
firme em que a criatura
se coloca de não tornar
a cometer as faltas que
a arrastaram à mísera
condição humana e
esforçar-se por
repará-las.
O Espírito penitente –
afirma Sayão –
“absorve-se todo na
oração e na vigilância
que Jesus recomendava e
que formam uma espécie
de antemural às ondas de
paixões que nos lançam
no abismo do
infortúnio”.
No intuito de obter
favores ou mesmo agradar
a Deus ou aos Bons
Espíritos, algumas
pessoas executam
determinadas ações ou se
impõem certas privações
a que chamam de
promessa. Ora, as
promessas já tiveram sua
época e já vai distante
o tempo das
supersticiosas
imposições da teocracia.
Ao seu reinado sucedeu o
império da inteligência
e da razão, únicos
fundamentos inabaláveis
da fé esclarecida e
ativa. Sacrifícios,
mortificações e
promessas são, portanto,
manifestações materiais
do culto externo,
praticadas por pessoas
ainda distantes das
verdades espirituais.
Falando sobre a
mortificação e seu
mérito, aconselham os
Espíritos superiores:
“Procurai saber a que
ela aproveita”. “Se
somente serve para quem
a pratica e a impede de
fazer o bem, é egoísmo,
seja qual for o pretexto
com que entendam de
colori-la. Privar-se a
si mesmo e trabalhar
para os outros, tal a
verdadeira mortificação,
segundo a caridade
cristã.” (O Livro dos
Espíritos, 721.)
Debilitar o corpo com
privações inúteis e
macerações sem objetivo,
torturar e martirizar
voluntariamente o corpo
material são atos que,
evidentemente,
contrariam a lei de
Deus, porquanto
enfraquecer o veículo
corpóreo sem necessidade
é verdadeiro suicídio.
Sobre o tema sugerimos a
quem nos lê que
consulte, também, as
questões 669 a 673 d´O
Livro dos Espíritos,
de Allan Kardec.
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