Entrevista

por Orson Peter Carrara

Diretriz educativa – exemplos vividos na infância foram decisivos


Natural de São Paulo (SP) e atualmente residente em Itobi, no interior paulista, João Abinajm Filho (foto) é mestre em Administração e atua como professor universitário nos cursos de graduação e pós-graduação em Logística de Suprimentos. Vincula-se ao Centro Espírita Luz e Caridade, de Itobi (SP), onde exerce a função de diretor financeiro, e à Sociedade Espírita Luz e Amor, de São Caetano do Sul (SP), na qual atua como educador espírita infantil. Em suas respostas, destaca a importância da diretriz educativa.
 

Como tornou-se espírita?

Sou espírita desde que nasci. Não considero isso vantagem alguma. Gostaria de haver me convertido numa "estrada de Damasco", mas essa não foi a minha realidade. No entanto, mesmo tendo nascido em um lar espírita, também vivi minha conversão. O desencarne de meu pai, quando eu tinha 14 anos, causou grande comoção em nossa família. Passei a trabalhar e, aos 15 anos, um colega me apresentou à Casa Transitória, onde iniciei minhas atividades na Educação Espírita Infantil. Desde então, jamais parei.

Fale-nos de Itobi.

Itobi é a terra de minha mãe. Assim que meus pais se casaram, instalaram-se em São Paulo, onde nasci, cresci, estudei, trabalhei e vivi até me aposentar, quando então me transferi para Itobi. Como meus avós foram excelentes multiplicadores, tiveram 11 filhos. Posso afirmar que a melhor parte de minha infância e juventude foi vivida em Itobi, durante as férias escolares, cercado de tios e primos queridos. Desde criança me lembro de participar das festas do centro espírita, principalmente da distribuição de presentes e mantimentos no Natal.

Fale-nos também sobre a atuação espírita de seu avô.

O Centro Espírita Luz e Caridade de Itobi foi fundado por uma equipe de abnegados, da qual meu bisavô, Vergílio Pioltine, fazia parte. Embora fosse um imigrante italiano e muito católico, viveu uma experiência marcante quando minha bisavó passou a sofrer de intensas dores de cabeça, sem encontrar alívio por meio da Medicina. Aconselhado por um conhecido, ele a levou a um centro espírita da região, do qual hoje não tenho maiores informações e acredito que já não exista.

O tratamento obteve êxito e levou meu bisavô a abraçar a Doutrina Espírita. Contam meus tios que, por causa dessa decisão, ele foi perseguido e seus filhos sofreram preconceito por parte dos católicos da época. Felizmente, sua convicção prevaleceu. Seu filho, meu avô Atílio, também passou a trabalhar no centro, aos 19 anos. Depois dele, vieram tios, tias, minha mãe e outros parentes, todos dedicados à instituição.

E conte-nos sobre a instituição espírita à qual se vincula em Itobi.

Na resposta anterior falei um pouco sobre sua origem. Como foi fundada em 1917, possui uma longa história. Hoje conta com excelente infraestrutura, em um amplo terreno localizado praticamente no centro da cidade.

Além do salão doutrinário, o primeiro a ser construído, existe um salão de eventos, onde realizamos os almoços beneficentes e também as refeições das crianças matriculadas no Sábado Legal, programa voltado à Educação Espírita Infantil para crianças de 4 a 14 anos.

Havia ainda diversos quartos destinados a hospedar pessoas que vinham ao centro para tratamento desobsessivo. Com o passar do tempo, essas instalações se deterioraram. Há cerca de seis anos iniciamos uma ampla reforma, e hoje a maior parte desses aproximadamente 20 antigos quartos foi transformada em salas de aula, conferindo ao centro o aspecto de uma verdadeira escola.

O que é o Sábado Legal?

O Sábado Legal é hoje o carro-chefe das atividades do Centro Espírita Luz e Caridade. Atendemos cerca de 40 crianças, de 4 a 14 anos, distribuídas em quatro turmas, conforme a faixa etária.

As crianças chegam às 9 horas. Após o café da manhã, seguem para as salas de aula, onde estudam Moral Cristã e Doutrina Espírita durante a primeira hora. Na segunda hora participam de oficinas vivenciais. Atualmente oferecemos oficinas de Jogos, Horta e Jardinagem, Teatro e Pintura. Ao final das atividades, todos se reúnem para o almoço e, depois, retornam às suas casas.

Esse formato de trabalho é uma herança da experiência que adquiri na Casa Transitória Fabiano de Cristo, no bairro do Belém, em São Paulo, onde atuei por mais de doze anos, desde os meus 15 anos de idade.

O projeto, entretanto, ainda não está completo. Pretendemos implantar uma turma maternal, para crianças de 0 a 4 anos; uma mocidade, para jovens acima de 14 anos; uma sala para os pais; e outra destinada ao curso de gestantes. Assim, toda a família poderá ser atendida, desde o bebê ainda no ventre materno até os demais membros da casa.

Todos os trabalhadores do Sábado Legal são voluntários e recebem a denominação de educadores. Há três equipes: os educadores das salas de aula, os do apoio e os da cozinha. Entendemos que todos educam por meio das palavras, dos exemplos e das atitudes junto às crianças.

Dessa vivência toda, o que mais o marcou?

Embora tenha atuado em praticamente todas as áreas de uma casa espírita — atividades mediúnicas, administrativas e educativas —, o que mais marcou minha trajetória foi o trabalho com as crianças.

Acredito que elas sejam um terreno fértil para a semeadura dos ensinamentos de Jesus, favorecidas pela própria condição infantil, que as torna mais receptivas ao aprendizado, conforme ensinam as obras da Codificação e também autores como Emmanuel, Divaldo Pereira Franco e Herculano Pires.

Como já não sou tão jovenzinho — embora pareça... —, emociona-me encontrar ex-alunos que hoje trabalham ao meu lado como educadores. Já tenho casos de pessoas a quem lecionei, depois aos seus filhos e, atualmente, até aos netos, que também passaram a integrar nossa equipe. Isso demonstra o quanto esse trabalho é fecundo para a difusão do Espiritismo.

Há algum fato emocionante que gostaria de relatar?

Certa vez, durante uma reunião mediúnica na Sociedade Espírita Luz e Amor, em São Caetano do Sul, que eu dirigia, uma médium começou a balançar a cabeça repetidamente para os lados enquanto cantava uma antiga canção infantil que eu conhecia havia muitos anos: Guli Ali. Acompanhei o espírito até que terminasse de cantar.

Em seguida, ele se apresentou como Paulinho, um ex-aluno da Evangelização Infantil da Casa Transitória. Frequentava a instituição com a mãe e uma irmã e ali recebeu importantes ensinamentos. Contudo, ao crescer, envolveu-se com o tráfico de drogas, vindo posteriormente a matar e também a ser morto.

Após o desencarne, contou que permaneceu durante algum tempo sob a influência de espíritos perversos e vingativos. Entretanto, nesse período, recordou-se de duas aulas que eu havia ministrado: uma sobre a prece e outra sobre o perdão. A partir dessas lembranças, começou a libertar-se daquela influência negativa e, naquela oportunidade, veio agradecer pelos ensinamentos recebidos.

Costumo dizer que os frutos da Educação Espírita Infantil são difíceis de avaliar, porque muitas vezes aparecem apenas anos depois e, em casos como esse, até mesmo após o desencarne.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Agradeço a Deus a oportunidade de relatar algumas vivências que talvez possam ser úteis aos educadores espíritas infantis. Gostaria também de reforçar a necessidade desse trabalho nas casas espíritas, que, infelizmente, ainda não recebe a importância que merece.

Suas palavras finais.

Precisamos trabalhar e divulgar a Doutrina Espírita, e, nessa seara, cada um contribui como pode. Podemos ser aquele trabalhador que lava o banheiro, limpa as cadeiras, varre o chão ou providencia material didático e alimentos para os mais necessitados. Podemos também dedicar nosso tempo ao alimento do espírito, iluminando consciências por meio dos ensinamentos de Allan Kardec, das obras psicografadas e dos estudos produzidos pelos grandes pesquisadores da Doutrina.

Tudo possui importância e relevância nessa grandiosa obra que é o Espiritismo. O essencial é permitir que a Doutrina Espírita permeie nossa personalidade, alcançando o coração, a mente, as palavras e as ações. Trabalhemos pela espiritualização da matéria, e não pela materialização do espírito. Assim estaremos cumprindo, ainda que em parte, aquilo que o Mestre espera de nós.

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita