Joias da poesia
contemporânea

Autoria: Felipe Gallesco

 

 

Menos distâncias

 

Na reunião mediúnica,
as palavras chegam mais devagar.
Como se precisassem atravessar
uma distância antiga.

Sobre a mesa,
um lápis.

Ao redor,
rostos marcados
pelas pequenas batalhas da existência.

A noite parece comum.
A mesma noite
que cobre ruas,
janelas,
árvores,
e a memória dos que parecem ausentes.

Mas há um instante —
breve como o pouso de uma ave —
em que a sintonia
começa a desenhar presença.

Então a mediunidade acontece.
Não como ruptura.
Como conexão.

Dois rios,
depois de longas viagens,
descobrem que o encontro não os muda,
apenas os confirma.

As lágrimas antigas
encontram tradução.
As culpas,
tão fiéis às próprias correntes,
afrouxam os nós.
E certas saudades,
que pareciam condenadas ao exílio,
sentam-se à mesa.

O lápis se move.
A mão obedece.
Mas não é do traço
que nasce o assombro.

O extraordinário habita
aquilo que não se escreve:
o peso que abandona um coração,
a esperança que regressa,
a certeza discreta
de que o amor não cabe
entre uma data de nascimento
e uma data de partida.

Na reunião mediúnica,
ninguém vence a morte.
Apenas se percebe
que ela nunca venceu a vida.

E a noite,
ao recolher suas sombras,
leva consigo menos distâncias
do que trouxe.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita