Olhos com prevenção
O relacionamento humano nem sempre é harmonioso,
normalmente é tenso, por variados motivos, que vão do
medo à timidez, do orgulho às pretensões, da ambição à
cupidez e mesmo da ganância e até com o desrespeito ou
preconceitos diversos.
Para que haja perfeita conexão entre duas ou mais
pessoas, é preciso que haja espontaneidade de afeto, sem
segundas intenções, sem qualquer prevenção, o que
resulta em harmonia que estabelece ambientes agradáveis,
sem hipocrisia. O que pode ser visto em todos os
segmentos da sociedade. Tanto nesse equilíbrio citado,
como na ausência dele, referido no primeiro parágrafo.
A questão é bem definida no estudo do item 5 – capítulo
28 – de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Embora
o título e objetivo sejam específicos: Reuniões
Espíritas (englobando itens 4 a 7), o raciocínio
cabe em qualquer situação inspirada pela anotação de
Mateus (18:20): Onde quer que se encontrem duas ou
três pessoas reunidas em meu nome, Eu com elas estarei.
No capítulo em referência Kardec colocou modelos de
preces (não para serem decorados, mas como referências
de estudos), antecedidos de preciosos e compactos Prefácios, onde
o critério doutrinário espírita surge com expressão
magnífica.
Portanto, desse Prefácio – no caso, recordando as
reuniões espíritas – de apenas 4 parágrafos, extraímos,
em transcrição parcial, essas pérolas:
1 - Estarem
reunidas, em nome de Jesus, duas, três ou mais pessoas,
não quer dizer que basta se achem materialmente juntas.
É preciso que o estejam espiritualmente, em comunhão de
intentos e de ideias, para o bem. Jesus, então, ou os
Espíritos puros, que o representam, se encontrarão na
assembleia.
2 – (...) quis Jesus revelar o efeito da união e da
fraternidade. O que o atrai não é o maior ou menor
número de pessoas que se reúnam, pois, em vez de duas ou
três, houvera Ele podido dizer dez ou vinte, mas o
sentimento de caridade que reciprocamente as anime. Ora,
para isso, basta que elas sejam duas.
3 - Contudo, se essas duas pessoas oram cada uma por
seu lado, embora dirijam-se ambas a Jesus, não há
entre elas comunhão de pensamentos, sobretudo se
ali não estão sob o influxo de um sentimento de mútua
benevolência. Se se olham com prevenção, com
ódio, inveja ou ciúme, as correntes fluídicas de seus
pensamentos, longe de se conjugarem por um comum
impulso de simpatia, repelem-se.
4 - . Segue-se que, se, numa assembleia numerosa,
somente duas ou três pessoas se unem de coração, pelo
sentimento de verdadeira caridade, enquanto as
outras se isolam e se concentram em pensamentos
egoísticos ou mundanos, Ele estará com as primeiras,
e não com as outras.
Tais reflexões (grifos são meus) surgem diante da
constatação diária dos olhos de prevenção, diante
de pessoas, das presunções e muitas vezes segundas
intenções, que precisamos efetivamente vencer para
atrair a presença irradiadora espontânea de amor enviado
pelos Benfeitores e, claro, por Jesus que prometeu estar
com as pessoas que se reúnem em seu nome. E já
entendemos que reunir-se em nome Dele é despojar-se de
quaisquer sentimentos contrários à fraternidade, agindo
com espontaneidade e união no e para o bem.
E isso a começar pela convivência familiar, e no
ambiente onde praticamos a fé que adotamos,
estendendo-se na vida social em todos os ambientes.
Agir em harmonia, com respeito mútuo em pleno exercício
de benevolência, é reunir-se em nome de Jesus, inclusive
nos ambientes de religiosidade que procuramos.
Quanta clareza presente nos parágrafos lógicos e
profundos de Kardec!