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Chico Xavier passou a vida consolando famílias que
haviam perdido pessoas queridas. O que poucos imaginam é
que um cachorro foi responsável por uma das maiores
lições espirituais que ele recebeu.
Existe uma história envolvendo Chico Xavier que chegou a causar
estranheza até mesmo entre alguns espíritas. Afinal, por que um
homem que tinha plena convicção da sobrevivência da alma sofreu
tanto com a morte de um cachorro?
Adelino da Silveira descreve a relação de Chico Xavier com os
animais não como um simples traço de excentricidade ou um apego
sentimental, mas como uma expressão concreta de sua ética e de
sua visão de mundo. Para o médium, orientado por Emmanuel, os
cães não eram objetos de estimação, mas almas ou princípios
inteligentes em processo de evolução, dignos da mesma compaixão
e do mesmo respeito dispensados aos seres humanos.
Dois cães, em especial, ilustram essa convivência: Lorde e
Boneca. A presença deles revelava o lado mais humano, sensível e
vulnerável de Chico Xavier, contribuindo para desfazer a imagem
quase intocável que muitos admiradores criaram em torno dele.
Sua rotina era reconhecidamente exaustiva. Dividia o tempo entre
o trabalho burocrático e as longas madrugadas dedicadas à
psicografia. Ainda assim, jamais descuidava dos animais que
viviam sob sua responsabilidade.
Quando Lorde envelheceu, tornou-se cego, surdo e perdeu grande
parte da mobilidade, passando a exigir cuidados permanentes. Em
vez de transferir essa tarefa a outras pessoas ou alegar falta
de tempo, Chico assumiu pessoalmente todos os cuidados. Levava o
cão ao colo para tomar banho de sol, limpava-lhe as feridas e,
nos últimos dias de vida, alimentava-o diretamente na boca. Era
um cuidado sem sentimentalismo exagerado, voltado unicamente
para aliviar-lhe o sofrimento.
Quando a morte finalmente levou seus cães, a reação de Chico
causou surpresa e até desconforto em alguns seguidores mais
rigorosos. O homem que consolava mães enlutadas com a certeza da
imortalidade da alma chorou profundamente, vivendo um luto
sincero e doloroso.
Para aqueles que julgavam inadequado um líder espiritual sofrer
tão intensamente pela morte de um animal, Chico respondia com um
princípio muito simples: o verdadeiro afeto não faz distinção
entre espécies. A dor da separação demonstrava que o
conhecimento da vida espiritual não elimina o sofrimento humano
diante da ausência de quem se ama. A vivência espiritual exige
sinceridade emocional, não a supressão dos sentimentos.
Segundo relata Adelino da Silveira, a superação desse luto
ocorreu graças a uma orientação de Emmanuel. O benfeitor
espiritual explicou que a alma ou princípio inteligente que
anima os animais sobrevive à morte do corpo e recebe amparo de
equipes espirituais dedicadas ao cuidado da fauna.
Mais tarde, Chico teve a oportunidade de ver, por meio da
clarividência, o cão já restabelecido e saudável no plano
espiritual. Meses depois, um novo filhote chegou à sua casa.
Observando que o animal apresentava maneirismos, hábitos e
comportamentos muito semelhantes aos do cão desencarnado, Chico
compreendeu que aquela alma ou princípio inteligente havia
retornado para prosseguir sua caminhada evolutiva.
Mais do que emocionar, essa narrativa procura mostrar que a
responsabilidade moral, o respeito e a continuidade da vida
alcançam todas as formas de existência.
Do livro Chico,
de Francisco,
de Adelino da Silveira.
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