É do sentimento geral que atravessamos tempos
conturbados, de grande dor e incerteza quanto a um
futuro que, talvez para a maioria, não augura grande
felicidade e bem-estar. Refiro-me às sociedades terrenas
na generalidade, porque, seja qual for o cantinho deste
planeta que habitemos ou a que estejamos ligados,
sentimos que a confusão, o desânimo, a deceção, tomam
conta de todos os países e povos, por uma ou outra
razão.
Vemos as verdades em que sempre acreditamos serem
contestadas, os valores que nos moviam caírem por terra,
as religiões digladiarem-se em nome de dogmas absurdos,
os interesses financeiros sobreporem-se ao
humanitarismo, os políticos servirem-se a si mesmos,
traindo os ideais com que se apresentaram ao seu povo.
Vemos a Humanidade cada vez mais desumana e afastada de
Deus, caindo num materialismo persistente e
aproximando-se, de forma acelerada, de um ateísmo que
afasta, inexoravelmente, do verdadeiro sentido da vida e
da existência.
As velhas crenças, dogmas e rituais sem significado já
não servem a um mundo marcado pela rapidez das mudanças
tecnológicas, pela complexidade das relações sociais e
pela busca incessante de sentido.
Não podemos, entretanto, cair num desânimo, tão inútil
como perigoso. Quando desistirmos de nós mesmos e/ou da
Humanidade de que fazemos parte, restará apenas o nada,
e o nada, não existindo, não nos levará a lado algum.
Apesar de tudo, nós sabemos o que queremos e onde
queremos chegar. Falta, possivelmente, encontrar um
caminho, traçar um rumo. A Humanidade está ávida,
consciente ou inconscientemente, de uma tábua de
salvação a que se possa agarrar.
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus.
Mas, ao longo dos séculos, o que fizemos dessa mensagem
de Vida que o Mestre nos ofereceu como Caminho? O que
fizemos dos seus ensinamentos? Demo-nos pressa em nos
apelidarmos de cristãos, mas temos andado bem distantes
do cristianismo. Mal dávamos os primeiros passos no
entendimento das palavras de Jesus, sem aprofundar o
sentido, apenas apegando-nos à “letra que mata” (no
dizer do próprio Cristo), apressamo-nos a
institucionalizar a crença e a impingi-la aos outros,
sem que nem mesmo nós fôssemos capazes de a vivenciar.
Quando “crescemos” e nos apercebemos de vacuidade do
nosso proceder, que prolongamos ao longo de demasiados
séculos, caímos nesse desânimo/descrença a que me referi
acima, sem refletir que o erro esteve sempre não na
nossa crença numa Doutrina que, tendo sido trazida pelo
Cristo, sempre foi perfeita, mas antes na forma como a
deturpamos ao sabor das nossas perfeições.
Mas crescemos, avançamos em inteligência e, esperemos,
amadurecemos também em moralidade, pelo menos o
suficiente para adquirirmos mais experiência e
capacidade de reflexão. Importa agora buscar novos rumos
que nos acelerem a evolução espiritual e nos ensinem a
viver de acordo com padrões positivos que nos permitam
acertar o passo com as Leis Divinas.
Poderá a Doutrina Espírita ser uma alavanca positiva
nessa busca de acerto? Poderá proporcionar-nos os meios
e recursos de que necessitamos para encontrar um novo
sentido para a nossa Humanidade? Como concretização da
promessa de Jesus do envio de um Consolador que
restabeleceria as verdades por Ele anunciadas, são
inúmeros os recursos oferecidos pela Doutrina dos
Espíritos. Se não, vejamos:
O Espiritismo oferece uma compreensão racional da vida,
consolando através de noções como a imortalidade da
alma, a reencarnação e a lei de causa e efeito. O seu
foco é a reforma íntima, através da prática da caridade
e da compreensão do propósito do sofrimento,
incentivando o autoaperfeiçoamento sem dogmas ou
rituais.
Podemos apontar algumas das principais razões para ser
espírita:
A Existência de Deus: Oferece-nos
uma “visão” de Deus descentralizada do antropomorfismo
tradicional (que apresenta um deus humanizado). Para o
Espiritismo Deus é a Inteligência Suprema, Causa
Primária de todas as coisas. É Eterno, Imutável,
Imaterial, Único, Omnipotente, Soberanamente Justo e
Bom, possuindo ainda outros atributos que, por enquanto,
não conseguimos sequer antever, por estarem para além da
nossa capacidade de entendimento.
Estudo da Espiritualidade: Proporciona
conhecimento sobre a origem do homem, seu papel no
Universo e seu destino espiritual.
Entendimento da Imortalidade: A
crença na continuidade da vida após a morte traz consolo
e diminui o medo da morte.
Reencarnação como Justiça: Explica
as desigualdades sociais e os sofrimentos como
oportunidades de aprendizagem e evolução, eliminando a
ideia de um Deus castigador.
Livre-Arbítrio e Causa e Efeito: Enfatiza
que somos responsáveis pelo nosso próprio destino,
colhendo o que plantamos nesta ou em vidas passadas.
Consolo nas Dificuldades: A
Doutrina oferece uma visão lógica para as aflições,
ajudando a lidar com as dores com resignação ativa.
Caridade como Meta: O
foco no amor ao próximo e no autoconhecimento (reforma
íntima) visam o aperfeiçoamento moral.
Conexão Ciência e Fé: O
Espiritismo baseia-se na tríade: Ciência (fenômenos),
Filosofia (estudo da vida) e Religião (moral cristã),
buscando respostas lógicas.
Comunicação com o Além: Acredita
na possibilidade de intercâmbio com Espíritos,
oferecendo orientação e conforto.
O Espiritismo convida à transformação
interior, focada no bem, na paciência e na
tolerância.
Gostaria de concluir esta humilde reflexão com um
excerto da obra A Génese, de Allan Kardec, que
resume com toda a propriedade o benefício que a Doutrina
Espírita pode trazer a cada um de nós como indivíduo e à
Humanidade no seu conjunto:
Quem quer que haja meditado sobre o Espiritismo e suas
consequências e não o circunscreva à produção de alguns
fenómenos terá compreendido que ele abre à Humanidade
uma estrada nova e lhe desvenda os horizontes do
infinito. Iniciando-a nos mistérios do mundo invisível,
mostra-lhe o seu verdadeiro papel perpetuamente ativo,
tanto no estado espiritual, como no estado corporal. O
homem já não caminha às cegas: sabe donde vem, para onde
vi e por que está na Terra. O futuro se lhe revela em
sua realidade, despojado dos prejuízos da ignorância e
da superstição. Já não se trata de uma vaga esperança,
mas de uma verdade palpável, tão certa como a sucessão
do dia e da noite. Ele sabe que o seu ser não se acha
limitado a alguns instantes de uma existência
transitória: que a vida espiritual não se interrompe por
efeito da morte: que já viveu e tornará a viver e que
nada se perde do que haja ganho em perfeição: em suas
existências anteriores depara com a razão do que é hoje
e reconhece que: do que ele é hoje, qual se fez a si
mesmo, poderá deduzir o que virá a ser um dia. (São
Chegados os tempos, A Génese, Allan Kardec, pp. 522-523,
Federação Espírita Portuguesa.)
Maria de Lurdes Duarte reside em
Arouca, Portugal.