Especial

por Maria de Lurdes Duarte

A busca de sentido em tempos de incerteza: o Espiritismo como resposta filosófica


É do sentimento geral que atravessamos tempos conturbados, de grande dor e incerteza quanto a um futuro que, talvez para a maioria, não augura grande felicidade e bem-estar. Refiro-me às sociedades terrenas na generalidade, porque, seja qual for o cantinho deste planeta que habitemos ou a que estejamos ligados, sentimos que a confusão, o desânimo, a deceção, tomam conta de todos os países e povos, por uma ou outra razão.

Vemos as verdades em que sempre acreditamos serem contestadas, os valores que nos moviam caírem por terra, as religiões digladiarem-se em nome de dogmas absurdos, os interesses financeiros sobreporem-se ao humanitarismo, os políticos servirem-se a si mesmos, traindo os ideais com que se apresentaram ao seu povo. Vemos a Humanidade cada vez mais desumana e afastada de Deus, caindo num materialismo persistente e aproximando-se, de forma acelerada, de um ateísmo que afasta, inexoravelmente, do verdadeiro sentido da vida e da existência.

As velhas crenças, dogmas e rituais sem significado já não servem a um mundo marcado pela rapidez das mudanças tecnológicas, pela complexidade das relações sociais e pela busca incessante de sentido.

Não podemos, entretanto, cair num desânimo, tão inútil como perigoso. Quando desistirmos de nós mesmos e/ou da Humanidade de que fazemos parte, restará apenas o nada, e o nada, não existindo, não nos levará a lado algum. Apesar de tudo, nós sabemos o que queremos e onde queremos chegar. Falta, possivelmente, encontrar um caminho, traçar um rumo. A Humanidade está ávida, consciente ou inconscientemente, de uma tábua de salvação a que se possa agarrar.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus. Mas, ao longo dos séculos, o que fizemos dessa mensagem de Vida que o Mestre nos ofereceu como Caminho? O que fizemos dos seus ensinamentos? Demo-nos pressa em nos apelidarmos de cristãos, mas temos andado bem distantes do cristianismo. Mal dávamos os primeiros passos no entendimento das palavras de Jesus, sem aprofundar o sentido, apenas apegando-nos à “letra que mata” (no dizer do próprio Cristo), apressamo-nos a institucionalizar a crença e a impingi-la aos outros, sem que nem mesmo nós fôssemos capazes de a vivenciar. Quando “crescemos” e nos apercebemos de vacuidade do nosso proceder, que prolongamos ao longo de demasiados séculos, caímos nesse desânimo/descrença a que me referi acima, sem refletir que o erro esteve sempre não na nossa crença numa Doutrina que, tendo sido trazida pelo Cristo, sempre foi perfeita, mas antes na forma como a deturpamos ao sabor das nossas perfeições.

Mas crescemos, avançamos em inteligência e, esperemos, amadurecemos também em moralidade, pelo menos o suficiente para adquirirmos mais experiência e capacidade de reflexão. Importa agora buscar novos rumos que nos acelerem a evolução espiritual e nos ensinem a viver de acordo com padrões positivos que nos permitam acertar o passo com as Leis Divinas.

Poderá a Doutrina Espírita ser uma alavanca positiva nessa busca de acerto? Poderá proporcionar-nos os meios e recursos de que necessitamos para encontrar um novo sentido para a nossa Humanidade? Como concretização da promessa de Jesus do envio de um Consolador que restabeleceria as verdades por Ele anunciadas, são inúmeros os recursos oferecidos pela Doutrina dos Espíritos. Se não, vejamos:

O Espiritismo oferece uma compreensão racional da vida, consolando através de noções como a imortalidade da alma, a reencarnação e a lei de causa e efeito.  O seu foco é a reforma íntima, através da prática da caridade e da compreensão do propósito do sofrimento, incentivando o autoaperfeiçoamento sem dogmas ou rituais.

Podemos apontar algumas das principais razões para ser espírita:

A Existência de Deus: Oferece-nos uma “visão” de Deus descentralizada do antropomorfismo tradicional (que apresenta um deus humanizado).  Para o Espiritismo Deus é a Inteligência Suprema, Causa Primária de todas as coisas. É Eterno, Imutável, Imaterial, Único, Omnipotente, Soberanamente Justo e Bom, possuindo ainda outros atributos que, por enquanto, não conseguimos sequer antever, por estarem para além da nossa capacidade de entendimento.

Estudo da Espiritualidade: Proporciona conhecimento sobre a origem do homem, seu papel no Universo e seu destino espiritual. 

Entendimento da Imortalidade: A crença na continuidade da vida após a morte traz consolo e diminui o medo da morte.

Reencarnação como Justiça: Explica as desigualdades sociais e os sofrimentos como oportunidades de aprendizagem e evolução, eliminando a ideia de um Deus castigador.

Livre-Arbítrio e Causa e Efeito: Enfatiza que somos responsáveis pelo nosso próprio destino, colhendo o que plantamos nesta ou em vidas passadas.

Consolo nas Dificuldades: A Doutrina oferece uma visão lógica para as aflições, ajudando a lidar com as dores com resignação ativa.

Caridade como Meta: O foco no amor ao próximo e no autoconhecimento (reforma íntima) visam o aperfeiçoamento moral.

Conexão Ciência e Fé: O Espiritismo baseia-se na tríade: Ciência (fenômenos), Filosofia (estudo da vida) e Religião (moral cristã), buscando respostas lógicas.

Comunicação com o Além: Acredita na possibilidade de intercâmbio com Espíritos, oferecendo orientação e conforto.

O Espiritismo convida à transformação interior, focada no bem, na paciência e na tolerância. 

Gostaria de concluir esta humilde reflexão com um excerto da obra A Génese, de Allan Kardec, que resume com toda a propriedade o benefício que a Doutrina Espírita pode trazer a cada um de nós como indivíduo e à Humanidade no seu conjunto:

Quem quer que haja meditado sobre o Espiritismo e suas consequências e não o circunscreva à produção de alguns fenómenos terá compreendido que ele abre à Humanidade uma estrada nova e lhe desvenda os horizontes do infinito. Iniciando-a nos mistérios do mundo invisível, mostra-lhe o seu verdadeiro papel perpetuamente ativo, tanto no estado espiritual, como no estado corporal. O homem já não caminha às cegas: sabe donde vem, para onde vi e por que está na Terra. O futuro se lhe revela em sua realidade, despojado dos prejuízos da ignorância e da superstição. Já não se trata de uma vaga esperança, mas de uma verdade palpável, tão certa como a sucessão do dia e da noite. Ele sabe que o seu ser não se acha limitado a alguns instantes de uma existência transitória: que a vida espiritual não se interrompe por efeito da morte: que já viveu e tornará a viver e que nada se perde do que haja ganho em perfeição: em suas existências anteriores depara com a razão do que é hoje e reconhece que: do que ele é hoje, qual se fez a si mesmo, poderá deduzir o que virá a ser um dia. (São Chegados os tempos, A Génese, Allan Kardec, pp. 522-523, Federação Espírita Portuguesa.)


Maria de Lurdes Duarte reside em Arouca, Portugal.

 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita