Tema: Persistência no bem
A semente
Era uma vez um dente-de-leão. Suas pétalas, de um
amarelo vivo, lembravam os raios do sol da manhã. Com o
passar dos dias, elas se transformaram em uma penugem
branca, que funcionava como um pequeno guarda-chuva para
cada semente, ajudando-as a flutuar.
Quando as sementes amadureceram, chegou a hora de o
vento carregá-las para longe. Com um sopro, todas
ganharam os ares, confiantes de que a brisa as levaria a
bons lugares, onde poderiam crescer.

Algumas pousaram em um vasto gramado e ficaram muito
felizes, pois sabiam que a terra era boa e poderiam se
desenvolver bastante ali. Outras caíram em vasos e
jardins e também se alegraram por encontrar outras
flores como companheiras.
Mas um vento mais forte levou uma das sementes para a
beira de uma rua, e ela ficou muito aborrecida ao
perceber que se aproximava de uma calçada.
— Ei, espere aí! Não posso ficar aqui. Preciso de terra
fofinha para germinar! — reclamava a semente. — Esse
chão duro não é lugar para planta nenhuma!
Mas não havia nada que a pequena semente pudesse fazer.
A brisa se dissipou, e ela foi deixada sobre a calçada
fria, presa em uma rachadura. Não havia nenhuma outra
planta por perto que lhe fizesse companhia nem, mais
importante ainda, que pudesse dividir com ela um pouco
de terra.
— É o meu fim! — chorava.
Caiu a noite. A sementinha olhava as estrelas e pensava
no que poderia fazer para sair daquela situação. Quem
sabe o vento voltaria e ela poderia pegar uma carona
para um lugar melhor...
Um novo dia nasceu, e a semente esperou ansiosamente
pela brisa que a salvaria. As horas passaram e, quando
se deu conta, já era noite outra vez. Ela continuava
presa no mesmo lugar.
— Quer saber de uma coisa? Sou uma semente, e meu
trabalho é florescer. A única coisa que posso fazer aqui
é criar raízes e crescer o mais alto que puder. Talvez
eu encontre terra embaixo desta calçada!
E assim fez a sementinha. A cada dia, aprofundava um
pouco mais suas raízes pela rachadura, confiante de que,
em algum momento, encontraria terra. E encontrou! Quando
veio a chuva, as gotas que penetraram pela rachadura
foram suficientes para umedecer o solo e permitir que
surgissem suas primeiras folhas.
Agora transformada em um broto, a sementinha passou a
despertar a atenção de quem transitava pela rua. As
crianças paravam para admirar suas folhas, e a calçada
parecia mais bonita com aquele toque de verde. A senhora
que morava na casa em frente emocionou-se com a
determinação daquele brotinho em crescer.
— A força desta plantinha é mesmo admirável! Vou abrir
espaço para ela crescer. Quem sabe ela não dá uma flor?
— pensou a senhora, alargando a rachadura.
Com mais espaço, o broto cresceu ainda mais e logo
surgiu um botão amarelo, parecido com um pequeno sol. E
mais pessoas passaram a parar para observá-lo.
— Mamãe, olha que linda a florzinha da vizinha! Podemos
plantar flores em frente da nossa casa também?
— É uma boa ideia, filha! As flores alegram o ambiente.
Não deve ser difícil abrir espaço no piso; até essa
plantinha conseguiu.
Nos dias que se seguiram, vários canteiros surgiram ao
longo da calçada. Alguns vizinhos plantaram flores e até
mudas de árvores, que, no futuro, refrescariam a rua com
sua sombra. A rachadura onde a plantinha crescia
transformou-se em um amplo canteiro, com espaço de sobra
para muitas flores companheiras.
Como acontece com todo dente-de-leão, a flor amarela deu
lugar às sementes, cada uma equipada com seu delicado
guarda-chuva de penugem, pronto para levá-las pelo
vento.
— Minhas sementes — disse o dente-de-leão —, logo vocês
iniciarão sua própria jornada. Guardem a lição que
também aprendi: não se preocupem com as condições do
terreno onde irão cair. Façam sempre aquilo que sabem
fazer de melhor. Toda semente carrega dentro de si o
poder de florescer e de transformar não apenas a própria
vida, mas também o ambiente ao seu redor.
E lá se foram as sementinhas, levadas pelo vento da
esperança, confiantes de que até uma calçada pode
transformar-se em um jardim.
Texto de Lívia Seneda.