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por Ricardo Orestes Forni

 

A dupla sentença


A inspiração para esta história que passarei a narrar com as minhas palavras tem origem em uma página do livro Atravessando a Rua, 3ª edição, IDE, 1986, do grande orador, escritor e trabalhador espírita da cidade de Bauru (SP), Richard Simonetti.

Um julgamento atraía muito a atenção de uma cidade norte-americana, por se tratar de um caso em que um homem faminto havia roubado um pão para mitigar a própria fome.

Acrescentava interesse a esse julgamento a fama do juiz do caso, tido como um homem de sentenças muito justas e, ao mesmo tempo, humanas, carregadas de consideração pelo réu.

A sala onde ocorreria o julgamento comportava apenas cem pessoas e estava com todos os lugares totalmente ocupados.

A sentença a ser prolatada pelo ilibado juiz fervilhava na mente das pessoas, ávidas por ouvi-la e verificar se realmente confirmava a fama do julgador.

A autoridade adentrou o recinto, e todos se colocaram em pé, em sinal de respeito ao eminente juiz.

O julgador deu por aberta a sessão e ouviu as palavras do promotor e, da mesma forma, a manifestação do advogado de defesa do réu, bem como as testemunhas, tanto as favoráveis ao acusado quanto as que se manifestaram em contrário, servindo aos propósitos da promotoria.

Após as devidas considerações, um clima de grande expectativa preenchia o silêncio respeitoso do ambiente, enquanto todos aguardavam ansiosamente a sentença. Em cada mente ali presente, as mais variadas suposições eram elaboradas, na tentativa de prever qual seria a decisão do tão afamado julgador.

Após alguns minutos que, devido à grande ansiedade, transmitiam ao público a sensação de horas, veio a sentença: o réu era condenado a pagar cem dólares pelo pão roubado!

Um uníssono "Oh!" preencheu o ambiente, diante da aparente intolerância do magistrado.

O bochicho de um ouvido para o outro comentava a rigidez da sentença diante do crime cometido, apesar do silêncio exigido dos presentes, em razão do impacto da decisão.

Como um juiz íntegro, honesto em suas sentenças e benevolente com a fragilidade humana poderia ter chegado àquela determinação?!

O magistrado percebeu o burburinho da plateia, mas manteve-se em silêncio, porque tinha outra surpresa para os presentes.

Após os ânimos se acalmarem, a voz do julgador fez-se ouvir novamente e comunicou, para espanto geral, uma segunda sentença.

Os olhos muito abertos dos presentes voltaram-se para a tribuna onde ele se encontrava e maior ainda foi o espanto ao ouvirem: todos os presentes, sem nenhuma exceção, estavam condenados a pagar um dólar cada um! Justificava o juiz que aquela segunda decisão devia-se ao fato de pertencerem a uma sociedade em que um homem faminto havia chegado ao ponto de ter de roubar um pão para socorrer a própria fome.

Dessa forma, o dinheiro arrecadado com essa decisão quitava o débito do réu, que foi colocado em liberdade.

Temos ainda, apesar dos dois milênios transcorridos desde a vinda de Jesus, sem contar os seus emissários anteriores a Ele, dificuldade de amar verdadeiramente o nosso semelhante.

Mesmo no ambiente do lar, onde a misericórdia de Deus nos recoloca pela bênção da reencarnação, essa dificuldade existe, porque amamos com sentimento de posse.

Isso está bem evidenciado nos termos "meu" e "minha".

O meu filho, a minha mulher, o meu marido... e assim vai se estendendo pelo círculo familiar.

Como já dizia uma música que fez sucesso em sua época, ninguém é de ninguém; na vida, tudo passa.

Se na família acontece dessa maneira, imagine estender esse conceito de amor ao próximo àqueles que não estão ligados a nós pelos laços da consanguinidade, como se fôssemos irmãos!

Enquanto não entendermos que todos os Espíritos do Universo devem caminhar juntos como uma imensa família, na qual os irmãos mais velhos socorrem os mais novos, para estabelecermos um verdadeiro Éden, a marcha evolutiva se fará lentamente, à medida que, por meio de duras e árduas lutas íntimas, formos eliminando, em doses homeopáticas, o orgulho e o egoísmo que ainda trazemos em nossas almas.

Esse é o propósito divino, que nos concede o retorno à escola da Terra para realizarmos essa tarefa abençoada da redenção de nossa consciência.

Ensina-nos o autor, no livro mencionado anteriormente, que os Espíritos Superiores dizem ser a felicidade do Céu socorrer a infelicidade da Terra. Diríamos que somente na medida em que estivermos dispostos a socorrer a infelicidade da Terra é que estaremos a caminho da felicidade do Céu.

Não há alternativa. Podemos nos isolar da multidão aflita e sofredora, mas jamais estaremos bem, porquanto a infelicidade é o clima crônico daqueles que se fecham em si mesmos.

Mãos que servem são antenas que estendemos para a sintonia com as Fontes da Vida e a captação das bênçãos de Deus!

André Luiz, no livro Meditações Diárias, Editora IDE, 6ª reimpressão, novembro de 2011, ensina-nos:

"Quando, enfim, nos enlaçamos, na experiência comum, na posição de filhos de Deus e irmãos autênticos uns dos outros, esquecendo as nossas faltas recíprocas e cooperando na oficina do auxílio mútuo, sem reclamações e sem queixas, a reconhecer que o mais forte é o apoio do mais fraco e que o mais culto é o amparo do companheiro menos culto, então, o egoísmo terá desaparecido da Terra, para que o Reino do Amor se estabeleça, definitivo, em nossos corações."

Até que atinjamos tais condições, creio que seremos "multados" pelo juiz da nossa consciência por vivermos em um mundo onde o amor, como nos ensinou Jesus, vivenciando-o plenamente, seja ainda tão pouco presente.
  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita