Corrida desabalada por mais possuir
O significado da palavra desabalada, entre
outros, é: o que parece não ter freios ou limites,
ou o que se mostra excessivo e mesmo o que é
desmedido, como uma paixão gigantesca, desenfreada,
indicando falta de moderação e reflexão. Daí
adjetivar a palavra corrida.
E referida corrida não fica restrita apenas ao mais
possuir, pode ser ampliada ou enquadrada também para
ser mais reconhecido, ser mais famoso, por mais
aparecer, por ser mais destacado socialmente, mais
seguido ou curtido, como se diria na linguagem das
redes sociais, atualmente.
É um vício, muito absorvido, da sociedade atual, que
desenvolve a ambição e o amor às riquezas. É preciso
cuidado para igualmente não nos enquadrarmos. Afinal o mais
possuir, e nisso concentrando toda força e esforços,
redundará de alguma forma para que falte aos demais. E
isso, mais cedo ou mais tarde, gerará conflito, podendo
caminhar para uma disputa e até para uma guerra. Basta
ir analisando gradativamente os efeitos em escala
daqueles que tudo querem para si diante daqueles que
nada tem, muitas vezes nem o mínimo para a dignidade
humana. Daí os conflitos variados que se estabelecem na
sociedade e mesmo entre as nações.
Valho-me, nessas considerações, nas excelentes reflexões
apresentadas pela professora e filósofa Lúcia Helena
Galvão, muito conhecida pela lucidez de suas ponderações
em inúmeros vídeos disponíveis no canal Nova Acrópole
Brasil, ao analisar o belo filme Dias Perfeitos,
disponível no YouTube.
O filme acompanha a história de Hirayama (Koji
Yakusho), um homem de meia idade reflexivo que vive sua
vida de forma modesta como zelador e limpando banheiros
em Tóquio. Sua vida é revelada ao espectador através da
música que ouve, dos livros que lê e das fotos que tira
das árvores, uma vez que são suas três paixões. À medida
que a vida de Hirayama avança, encontros inesperados
começam a surgir revelando um passado sombrio e não tão
metódico do zelador. O longa explora temas como a
solidão, fuga e busca de sentido na vida moderna. (sinopse
transcrita do portal Adorocinema).
O raciocínio da professora é muito claro e abrangente e
conecta-se diretamente à velha questão do egoísmo e do
orgulho e seus derivados, que os espíritos classificaram
– respondendo a Kardec na questão 785 de O Livro dos
Espíritos, como o maior obstáculo ao progresso.
O tema é bem extenso e está bastante desenvolvido também
em O Evangelho Segundo o Espiritismo, em vários
capítulos, além do próprio O Livro dos Espíritos,
onde outras questões igualmente abordam o tema. Há
referências magníficas para aprofundar o assunto.
Por isso é sábia a resposta dos espíritos na questão 922
do mesmo O Livro dos Espíritos. Reproduzimos a
pergunta e a resposta, na íntegra. Nunca será demais
refletir sobre ela:
922. A felicidade terrestre é relativa à posição de cada
um. O que basta para a felicidade de um, constitui a
desgraça de outro. Haverá, contudo, alguma soma de
felicidade comum a todos os homens? Com relação à
vida material, é a posse do necessário. Com relação à
vida moral, a consciência tranquila e a fé no futuro.
Estamos no “X” da questão (grifos acima são meus). E
voltamos ao início da abordagem. O vício do sempre
querer mais, além do necessário, é uma das causas das
extremas desigualdades que vivemos. O egoísmo quer mais
e ignora o que se passa à sua volta. A posse do
necessário traz paz à consciência e dilui os conflitos.
São conteúdos sempre à disposição para serem refletidos,
comentados, divulgados. E Lúcia foi direto no assunto,
com clareza, objetividade e exemplos do cotidiano. Não
deixe de ver.
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