É difícil encontrarmos alguém capaz de condensar grandes
princípios em poucas palavras, alguém que sintetize
ideias complexas sem lhes retirar a profundidade. Em
geral, o ser humano explica longamente aquilo que
compreende apenas parcialmente; multiplica conceitos,
cria normas e elabora discursos na tentativa de tornar
inteligível o que, muitas vezes, permanece confuso até
para si mesmo. A verdadeira sabedoria, porém, costuma
possuir uma característica singular: a simplicidade.
Talvez por isso, ao observarmos a mensagem de Jesus, uma
das primeiras impressões que temos seja a sua
impressionante capacidade de síntese. O Cristo não
empobrece o pensamento; ao contrário, concentra-o,
retirando-lhe os excessos e conduzindo-o ao essencial. O
Mestre não destrói a Lei anterior, nem a contradiz.
Antes, ilumina-lhe o núcleo, revelando o princípio moral
que a sustenta.
Em verdade, o princípio já se encontrava nas Escrituras.
Em Deuteronômio 6,5
lemos sobre o amor a Deus; em Levítico 19,18,
sobre o amor ao próximo. O Cristo, porém, reúne ambos e
os apresenta como a síntese moral de toda a Lei.
Na tradição hebraica, o Decálogo entregue a Moisés
representava um marco moral de extraordinária
importância. Em um contexto histórico de rudeza,
violência e instabilidade social, os mandamentos
funcionavam como diretrizes fundamentais de convivência
e de elevação espiritual. Não matar, não furtar, não
levantar falso testemunho, honrar pai e mãe, guardar
fidelidade e respeitar o nome divino constituíam um
esforço pedagógico destinado a disciplinar as paixões e
organizar a vida moral.
Contudo, Jesus realiza algo admirável: sem negar a
grandeza da Lei mosaica, resume-a.
Quando interrogado acerca do maior mandamento, o Mestre
responde que o ser humano deve amar a Deus acima de
todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Em poucas
palavras, sintetiza não apenas o Decálogo, mas o
espírito inteiro da legislação moral dos antigos. O
Cristo deixa claro que toda Lei verdadeiramente justa
encontra seu fundamento no amor.
A partir desse momento, a moral deixa de apoiar-se
apenas na obediência exterior e passa a fundamentar-se
principalmente na transformação íntima da criatura. O
essencial já não é apenas cumprir normas, mas
desenvolver dentro de si a capacidade de amar.
Mas Jesus não se limita a ensinar que é necessário amar.
O Mestre também ensina de que maneira esse amor deve ser
vivido.
Se, em um primeiro momento, sintetiza o Decálogo no
duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo,
posteriormente realiza uma condensação ainda mais
profunda ao apresentar aquilo que chamou de “Seu
Mandamento”: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
Aqui, o Cristo não abandona o mandamento anterior;
antes, aprofunda-o. Amar como Jesus amou passa a
incluir, ao mesmo tempo, o amor a Deus e o amor ao
próximo. O “Seu Mandamento” torna-se, assim, uma síntese
ainda mais elevada do mandamento maior.
Existe aí um avanço moral decisivo. Antes, a medida
consistia em amar o próximo como a si mesmo; agora, a
referência passa a ser o próprio Cristo. O amor deixa de
ter por base apenas os limites humanos e passa a
orientar-se pelo exemplo do Mestre.
Jesus não amou somente os amigos, mas também os
adversários; não auxiliou apenas os que lhe eram
simpáticos, mas igualmente os marginalizados; não
perdoou apenas faltas pequenas, mas ensinou a
indulgência mesmo diante da injustiça. Seu amor era
ativo, paciente, firme e misericordioso.
Quem ama verdadeiramente a Deus dificilmente fará da
violência, do orgulho ou da desonestidade um modo de
viver. E quem ama sinceramente o próximo naturalmente
evita tudo aquilo que lhe causa sofrimento ou dano. Não
mata, porque reconhece no outro um semelhante digno de
respeito. Não rouba, porque compreende que ninguém deve
crescer à custa do prejuízo alheio. Não mente
deliberadamente, porque entende que a confiança sustenta
as relações humanas. Honra pai e mãe, porque reconhece
neles os afetos mais imediatos, aqueles que a vida
colocou como primeiras referências de convivência,
aprendizado e afeto.
Assim, compreender a síntese moral do Evangelho
significa perceber que toda Lei verdadeira converge para
uma única direção: o amor vivido concretamente.
Não se trata de abolir mandamentos, mas de
compreendê-los em sua raiz. Quem ama sinceramente não
necessita de longas listas proibitivas, porque o próprio
amor funciona como bússola ética. Quando ele orienta a
consciência, o bem passa a ser consequência natural.
Por isso, estava certo o Sublime Pastor ao responder ao
Dr. da Lei, muitas vezes preso às aparências exteriores
da religião, que amar a Deus acima de todas as coisas e
ao próximo como a si mesmo dependem toda a Lei e os
profetas.
E, ao apresentar mais tarde o “Seu Mandamento”, o Cristo
levou essa síntese ao seu ponto mais elevado, mostrando
que o verdadeiro amor a Deus se manifesta no amor ao
próximo e que ambos encontram no exemplo do Mestre o
modelo mais perfeito.
O Cristo apontava, assim, para uma verdade simples e
profunda: no centro da vida moral não estão o medo, a
formalidade ou a mera obediência, mas o amor que se
converte em ação.
E, quando esse amor se torna verdadeiro, toda a Lei
encontra espontaneamente o seu cumprimento.