O Espiritismo e seus mecanismos de
controle de credibilidade
Diante de inúmeras comunicações, mensagens e revelações
espirituais ou textos psicografados, atribuídos a certos
Espíritos, conhecidos ou não, ficamos com dúvidas, até
mesmo receosos, para acreditar quanto à sua autoria,
confiabilidade e veracidade, dadas as circunstâncias e
os contextos em que elas ocorreram.
Não raro, as denominadas “revelações espirituais”
circulam por meios de divulgação para diversos
destinatários, inclusive, dependendo de como são
percebidas e assimiladas, podem influenciar as vidas de
seus simpatizantes.
Devemos confiar nos conteúdos de todas essas mensagens
ou revelações?
Além disso, há livros intitulados de “espíritas” que
revelam mensagens, ensinamentos, esclarecimentos,
orientações e instruções espirituais que deixam leitores
receosos acerca de seus conteúdos como “verdades
espirituais”.
Como agir nessas situações?
Algumas respostas encontramos nos Evangelhos sagrados:
“Amados, não creiais em todos os Espíritos, mas examinai
se eles são de Deus, porque já muitos falsos profetas se
têm levantado no mundo”. (1
João, 4: 1)
“Guardai-vos dos falsos profetas que vêm ter convosco
cobertos de peles de ovelha e que por dentro são lobos
rapaces. Conhecê-los-eis pelos seus frutos. Podem
colher-se uvas nos espinheiros ou figos nas sarças?
Assim, toda árvore boa produz bons frutos e toda árvore
má produz maus frutos. Uma árvore boa não pode produzir
frutos maus e uma árvore má não pode produzir frutos
bons. Toda árvore que não produz bons frutos será
cortada e lançada ao fogo. Conhecê-la-eis, pois, pelos
seus frutos”. (Mateus,
7: 15-20)
“Tende cuidado para que alguém não vos seduza; porque
muitos virão em meu nome, dizendo: ‘eu sou o Cristo’, e
seduzirão a muitos. Levantar-se-ão muitos falsos
profetas que seduzirão a muitas pessoas; e porque
abundará a iniquidade, a caridade de muitos esfriará.
Mas aquele que perseverar até o fim se salvará. Então,
se alguém vos disser: ‘o Cristo está aqui, ou está ali’,
não acrediteis absolutamente; porquanto falsos cristos e
falsos profetas se levantarão e farão grandes prodígios
e coisas de espantar, ao ponto de seduzirem, se fosse
possível, os próprios escolhidos”. (Mateus,
24: 4, 5, 11-13, 23-24; Marcos, 13: 5, 6, 21-22)
Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, na Introdução,
no título II – Autoridade da doutrina espírita, Allan
Kardec explica o “Controle universal do ensino dos
Espíritos”, que dá credibilidade à Doutrina Espírita.
Controle universal do ensino dos Espíritos
Kardec expressa, em síntese, que a única garantia segura
do ensino espírita está na concordância das revelações
de diferentes Espíritos, feitas espontaneamente por
grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em
diversos lugares.
A credibilidade do Espiritismo está nessa universalidade
do ensino dos Espíritos.
Mensagem de único Espírito
A verdade espírita não se apoia na mensagem de um único
Espírito ou médium, porquanto se
os Espíritos tivessem revelado a Doutrina Espírita tão
somente a uma pessoa, nada garantiria a sua origem, pois
seria preciso acreditar naquele que a tivesse recebido.
Por isso, as mensagens espíritas devem ser repetidas e
confirmadas por muitos Espíritos e médiuns diferentes e
não por uma única fonte isolada.
Assim, as revelações, que cada um possa receber, terão
caráter individual, sem cunho de autenticidade, devendo
ser consideradas opiniões de determinado Espírito, sendo
imprudente aceitá-las e propagá-las levianamente como
verdades absolutas.
Razão, bom senso e lógica
O que vem dos Espíritos deve ser submetido à razão,
porquanto toda teoria que contrarie o bom senso, a
lógica e os conhecimentos adquiridos precisa ser
rejeitada, por mais respeitável que seja o autor da
mensagem.
A credibilidade reside na coerência resultante da
análise comparativa, onde as mensagens espontâneas e
descentralizadas formam um corpo homogêneo de ensino
moral e filosófico, validado pela razão.
Identidade dos Espíritos
A identidade do Espírito, na maioria das vezes, é
difícil de se verificar, sobretudo quando se trata de
Espíritos superiores, antigos relativamente à nossa
época.
Entre os que se manifestam, muitos não têm nomes para
nós, mas para fixar as ideias, eles podem tomar o nome
de um Espírito conhecido, da mesma categoria da sua.
A identidade é de mais fácil verificação quando se trata
de Espíritos contemporâneos, cujo caráter e hábitos
sejam conhecidos, porque é por esses mesmos hábitos e
particularidades da vida privada que a identidade se
revela mais seguramente e de modo incontestável.
Quando se evoca parente ou amigo, é a personalidade que
interessa, sendo natural buscar-se reconhecer a
identidade. Ela se revela nos detalhes íntimos quando
entra espontaneamente com as pessoas a quem ama. São as
melhores provas.
Entretanto, o Espírito demonstra a sua identidade como
quer e pode, segundo o gênero de faculdade do seu
intérprete e, às vezes, essas provas são
superabundantes.
O erro está em querer que ele as dê, como deseja o
evocador; é então que ele recusa sujeitar-se às
exigências.
A assinatura de um Espírito famoso não garante a
verdade, em que o ensino moral deve prevalecer sobre o
nome do comunicante.
Por fim, a questão da identidade é secundária, pois o
que importa é a natureza do ensino, se é bom ou mau,
digno ou indigno, da personagem que o assina.
Linguagem e princípios morais
Kardec recomenda prudência para aceitar sem exame tudo o
que vem dos Espíritos, pois é preciso conhecer o caráter
com quem nos comunicamos. Para tanto, deve-se analisar
os Espíritos por sua linguagem.
Os Espíritos verdadeiramente bons e superiores utilizam
linguagem digna, nobre, lógica e isenta de contradições,
eivada de sabedoria, benevolência, modéstia e pura
moral. Esta linguagem é concisa e despida de
redundâncias.
Os bons Espíritos atraem para o bem, sustentam nas
provas da vida, ajudam a suportá-las com coragem e
resignação, dão confiança, consolo, fé, alegria e
resignação nas provas e expiações.
Na linguagem de Espíritos inferiores, ignorantes ou
orgulhosos, há vácuo de ideias e quase sempre é
preenchida pela abundância de palavras. Os maus impelem
para o mal. É um prazer ver-nos sucumbir.
As comunicações ou revelações de Espíritos inferiores
deixam-nos aflitos, ansiosos, deprimidos, derrubando-nos
em nossas provas e expiações.
As comunicações que dão provas de sabedoria e erudição
são de Espíritos adiantados e as que mostram
inferioridades são de Espíritos atrasados.
A revelação espírita foca os princípios morais que devem
ser coerentes e universais.
Revelação contaminada de erros ou sujeita a alterações
não pode emanar de Deus.
Espíritos que tudo sabem
Espíritos somente conseguem responder o que sabem,
conforme seus adiantamentos, dentro dos limites a eles
permitido dizer, porque há coisas que não devem ser
reveladas, por não ser o momento de o ser humano
conhecer.
Da diversidade de graus da escala de evolução espírita,
não basta dirigirmos a um Espírito qualquer para obter
uma resposta segura para qualquer questão. Isso porque,
sobre certas coisas, ele não pode dar mais que uma
opinião pessoal, podendo ser correta ou errada.
Progressividade das revelações espíritas e o futuro do
Espiritismo
O Espiritismo é uma doutrina dinâmica e progressiva,
significando que novos conhecimentos são aceitos, desde
que passem pelo crivo da razão e da concordância
universal.
Pode haver revelações sérias e verdadeiras como existem
as apócrifas e mentirosas.
Quando um princípio novo tem de ser enunciado, isso se
dá espontaneamente em diversos pontos ao mesmo tempo e
de modo idêntico.
Se um Espírito formular um sistema excêntrico, baseado
unicamente nas suas ideias e com exclusão da verdade,
pode ter-se a certeza de que tal sistema conservar-se-á
circunscrito e cairá, diante das instruções dadas de
todas as partes, conforme os múltiplos exemplos que já
se conhecem.
Foi essa unanimidade que pôs por terra todos os sistemas
parciais que surgiram na origem do Espiritismo, quando
cada um explicava à sua maneira os fenômenos, e antes
que se conhecessem as leis que regem as relações entre
os mundos visível e invisível.
Essa é a base em que se apoia quando foi formulado um
princípio da doutrina.
A verificação universal constitui garantia para a
unidade futura do Espiritismo e anulará todas as teorias
contraditórias.
O princípio da concordância é também uma garantia contra
as alterações que poderiam sujeitar o Espiritismo às
seitas que se propusessem apoderar-se dele em proveito
próprio e acomodá-lo à vontade.
Quem quer que tentasse desviá-lo do seu providencial
objetivo, malsucedido se veria, pela razão muito simples
de que os Espíritos, em virtude da universalidade de
seus ensinos, farão cair por terra qualquer modificação
que se divorcie da verdade.
As instruções dadas pelos Espíritos sobre pontos ainda
não elucidados da Doutrina não constituirão lei,
enquanto essas instruções permanecerem insuladas, em que
elas não devem ser aceitas senão sob todas as reservas e
a título de esclarecimento.
Daí a necessidade da maior prudência em dar-lhes
publicidade. Caso julgue conveniente publicá-las,
importa não as apresentar senão como opiniões
individuais, mais ou menos prováveis, porém, carecendo
sempre de confirmação. Essa confirmação é que se precisa
aguardar, antes de apresentar um princípio como verdade
absoluta, a menos se queira ser acusado de leviandade ou
de credulidade irrefletida.
Com extrema sabedoria procedem os Espíritos superiores
em suas revelações. Não atacam as grandes questões da
Doutrina senão gradualmente, à medida que a inteligência
se mostra apta a compreender verdade de ordem mais
elevada e quando as circunstâncias se revelam propícias
à emissão de uma ideia nova.
Por isso é que logo de princípio não disseram tudo, e
tudo ainda hoje não disseram, jamais cedendo à
impaciência dos afoitos, que querem os frutos antes de
estarem maduros.
Portanto, há responsabilidade em se evitar falsas
doutrinas ou indevidas mistificações de Espíritos
enganadores, que procuram demonstrar superioridade moral
e intelectual.
Conclusão
Em síntese, a credibilidade do Espiritismo fundamenta-se
na maneira universal com que os Espíritos passam seus
ensinamentos, sendo que as revelações de único Espírito
devem ser confirmadas por outras revelações de
diferentes Espíritos, médiuns e lugares.
Cada Espírito possui um nível de conhecimento,
proporcional à sua elevação moral e intelectual, por
isso está longe de possuir, individualmente, toda
verdade. O
Espírito não poderá oferecer o que não possui.
Toda teoria que contrarie a razão, o bom senso, a lógica
e os conhecimentos, já adquiridos, deve ser rejeitada,
por mais respeitável que seja o autor.
É preciso afastar o dogmático, as alegorias, o
fantasioso, o maravilhoso, o prodígio, o místico, as
paixões, as crenças específicas, as visões e os
conceitos puramente humanos de seres imperfeitos que
somos.
A Doutrina Espírita é produto de um ser coletivo,
formado pelo conjunto dos seres do mundo espiritual,
cada um trazendo o tributo de suas luzes aos homens,
para lhes tornar conhecido esse mundo e a sorte que os
espera.
Atenção para os falsos cristos e profetas,
principalmente entre os desencarnados, por meio de
Espíritos enganadores, hipócritas, orgulhosos e
pseudossábios, que passaram da Terra para a erraticidade
e tomam nomes venerados para, sob a máscara de que se
cobrem, facilitarem a aceitação das mais singulares e
absurdas ideias.
Os verdadeiros missionários de Deus ignoram-se a si
mesmos, em sua maior parte; desempenham a missão a que
foram chamados pela força do gênio que possuem,
secundado pelo poder oculto que os inspira.
Por fim, cita-se trecho do texto da Introdução de “O
Evangelho Segundo o Espiritismo”, que diz:
“Não será à opinião de um homem que se aliarão os
outros, mas à voz unânime dos Espíritos; não será um
homem, nem nós, nem qualquer outro que fundará a
ortodoxia espírita; tampouco será um Espírito que se
venha impor a quem quer que seja: será a universalidade
dos Espíritos que se comunicam em toda a Terra, por
ordem de Deus. Esse o caráter essencial da Doutrina
Espírita; essa a sua força, a sua autoridade. Quis Deus
que a sua lei assentasse em base inamovível e por isso
não lhe deu por fundamento a cabeça frágil de um só.”
Portanto, cuidado em aceitar tudo que vem do mundo
espiritual com verdade!
Bibliografia:
BÍBLIA SAGRADA
KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto
Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF:
Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan; tradução de Guillon
Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª
Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira,
2019.
KARDEC, Allan; tradução de Guillon
Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição.
Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC, Allan; tradução de Guillon
Ribeiro. O Livro dos Médiuns. 1ª Edição.
Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto
Bezerra. O que é o Espiritismo. 2ª Edição.
Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.
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