Cinco-marias

por Eugênia Pickina

 

Tédio e infância


As coisas que não existem são as mais bonitas.
 Manoel de Barros


Meninazinha, sentia tédio às vezes. No quarto, sentada na cama, em silêncio, de súbito, me punha a buscar uma saída para aquela sensação interna de inação, perdida e desorientada para as atividades costumeiras.

Minha mãe nunca se envolveu com o tédio do qual eu me queixava dizendo várias vezes: “Ah! E o que vou fazer agora?”

Ela simplesmente se fazia calada, não contestava minha queixa, deixando-me no quarto em companhia com esse grande tédio e minhas repetidas perguntas…

Sem saber que o tédio é ferramenta poderosa no desenvolvimento infantil, a atitude de minha mãe, sua não interferência, me forçava a inventar coisas novas, a redescobrir brincadeiras, brinquedos, experimentando, por causa disso, habilidades e recursos pessoais.

A criança que se entedia tem a chance de aprender a se entreter sozinha e, em consequência, cresce em autonomia, confiança, capacidade para resolver problemas…

Hoje, adulta, sei que grande parte da minha habilidade para encarar bem a solidão, para ocupar-me em nutrir de forma responsável a minha saúde mental, dando valor a meus momentos de pausa, de silêncio, de não fazer, vem dessa minha intimidade com o tédio…

E o seu filho? Ele tem a oportunidade de no dia a dia provar o tédio, de lidar com momentos aborrecidos e para fazer uso da imaginação?


Notinha

É normal que crianças sintam tédio. Essa sensação é parte do crescimento e do processo de autoexploração. Reconhecer que o tédio é comum, algo inerente ao ser humano, pode ajudar pais a abordarem essa questão de maneira mais positiva, incentivando momentos de reflexão e criatividade…


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita