Tédio e infância
As
coisas que não existem são as mais bonitas. Manoel
de Barros
Meninazinha, sentia tédio às vezes. No quarto, sentada
na cama, em silêncio, de súbito, me punha a buscar uma
saída para aquela sensação interna de inação, perdida e
desorientada para as atividades costumeiras.
Minha mãe nunca se envolveu com o tédio do qual eu me
queixava dizendo várias vezes: “Ah! E o que vou fazer
agora?”
Ela
simplesmente se fazia calada, não contestava minha
queixa, deixando-me no quarto em companhia com esse
grande tédio e minhas repetidas perguntas…
Sem
saber que o tédio é ferramenta poderosa no
desenvolvimento infantil, a atitude de minha mãe, sua
não interferência, me forçava a inventar coisas novas, a
redescobrir brincadeiras, brinquedos, experimentando,
por causa disso, habilidades e recursos pessoais.
A
criança que se entedia tem a chance de aprender a se
entreter sozinha e, em consequência, cresce em
autonomia, confiança, capacidade para resolver
problemas…
Hoje, adulta, sei que grande parte da minha habilidade
para encarar bem a solidão, para ocupar-me em nutrir de
forma responsável a minha saúde mental, dando valor a
meus momentos de pausa, de silêncio, de não fazer, vem
dessa minha intimidade com o tédio…
E o
seu filho? Ele tem a oportunidade de no dia a dia provar
o tédio, de lidar com momentos aborrecidos e para fazer
uso da imaginação?
Notinha
É
normal que crianças sintam tédio. Essa sensação é parte
do crescimento e do processo de autoexploração.
Reconhecer que o tédio é comum, algo inerente ao ser
humano, pode ajudar pais a abordarem essa questão de
maneira mais positiva, incentivando momentos de reflexão
e criatividade…