Especial

por Rogério Miguez

O Espírito elementar


Na segunda obra publicada por Allan Kardec sobre o Espiritismo - Instruções práticas sobre as manifestações espíritas - o autor, na seção Vocabulário Espírita, definiu um Espírito como elementar caso houvesse a abstração do seu perispírito ou invólucro semimaterial.1

É interessante notar que o Codificador jamais registrou esta expressão novamente, exceto na Revista Espírita de 1860, em uma resposta assinada por São Luís sobre O gênio das flores: 2

[...] O Espírito não preside, de maneira particular, à formação das flores. Antes de passar pela série animal, o Espírito elementar dirige sua ação fluídica para a criação dos vegetais. Este ainda não encarnou e somente age sob a direção de inteligências mais elevadas, que já viveram o bastante para adquirir a ciência necessária à sua missão. Foi um desses que se comunicou. Ele vos fez uma mistura poética da ação de duas classes de Espíritos que atuam na criação vegetal. (Grifo nosso)

Entretanto, neste contexto, Espírito elementar significa o ser que está entre o reino animal e o hominal, ensaiando-se para a vida, nos dizeres dos Imortais na resposta à questão 540 – vista mais à frente -, objeto de estudo do Codificador em O Livro dos Espíritos sob o título: Ação dos Espíritos sobre os fenômenos da Natureza.

Conclui-se que o primeiro significado para Espírito elementar difere desse e São Luís criou um conceito semelhante ao ser elemental da teosofia e do esoterismo.

Os elementais, observados na antiguidade, são de diversos tipos, alguns ligados aos quatro elementos: Água – Ondinas; Fogo – Salamandras; Terra – Sílfides; Ar – Gnomos, conforme o misticismo da Cabala. Tentavam explicar os fenômenos da Natureza. Contudo, há outros: devas, fadas, gênios, silfos, elfos, djins, faunos, duendes... Helena Blavatsky fundadora da Sociedade Teosófica e até Paracelso admitiram a existência dos seres elementais, embora, sob o ponto de vista da Doutrina, não existam na forma como foram descritos e nomeados.

Não foram catalogados como homens, ao invés, eram criaturas estranhas. Possuíam asas, caudas, chifres, trajavam roupas e portavam artefatos extravagantes..., sendo vistos até como deuses. Não existiam corporificados no Plano físico, habitavam o Plano etéreo, mas, eventualmente, podiam se tornar visíveis aos encarnados.

Ocorre que, além de Espírito elementar, há outra expressão usada por Lázaro para designar estas entidades: 3

Os homens descobrem, mas nada inventam. Assim, as crenças mitológicas não eram meras ficções, mas revelações de Espíritos inferiores. Os sátiros, os faunos eram Espíritos secundários, que habitavam os bosques e os campos, como ainda o fazem hoje. (Grifo nosso)

Entretanto, Allan Kardec não usou nenhuma destas duas designações – elementar ou secundário - muito menos elemental, quando abordou o tema em O Livro dos Espíritos ao longo das questões 536 até 540. Particularmente na 540, temos: 4

Os Espíritos que exercem ação nos fenômenos da Natureza agem com conhecimento de causa, em virtude do livre-arbítrio, ou por impulso instintivo e irrefletido?

Enquanto se ensaiam para a vida, antes que tenham plena consciência de seus atos e estejam no gozo do livre-arbítrio, atuam em certos fenômenos, dos quais são agentes, mesmo de forma inconsciente.

A literatura espírita subsidiária também abordou o tema - Espíritos da Natureza - sob aspectos variados. Destaque-se na série de livros sobre a Vida no Mundo Espiritual de André Luiz:

1-  Nosso lar: [Narcisa falando a André Luiz] Não só o homem pode receber fluidos e emiti-los. As forças naturais fazem o mesmo, nos reinos diversos em que se subdividem. Para o caso do nosso enfermo, precisamos das árvores. Elas nos auxiliarão eficazmente.5

Admirado da lição nova, segui-a, silencioso. Chegados a local onde se alinhavam enormes frondes, Narcisa chamou alguém, com expressões que eu não podia compreender. Daí a momentos, oito entidades espirituais atendiam-lhe ao apelo. Imensamente surpreendido, vi-a indagar da existência de mangueiras e eucaliptos. (Grifo nosso)

2-  Libertação: [Gúbio falando a André Luiz] Quem não cumpre aqui dolorosa penitência regenerativa, pode ser considerado inteligência sub-humana. Milhares de criaturas, utilizadas nos serviços mais rudes da natureza, movimentam-se nestes sítios em posição infraterrestre.6

[...]

Em desenvolvimento de tendências dignas, candidatam-se à humanidade que conhecemos na Crosta. Situam-se entre o raciocínio fragmentário do macacoide e a ideia simples do homem primitivo na floresta.

3-  Evolução em dois mundos: É assim que o lavrador, no repouso físico, retoma, em corpo espiritual, ao campo em que semeia, entrando em contato com as entidades que amparam a Natureza; [...]7

Espírito elementar, secundário ou elemental, seja como for, tudo se encadeia nas leis divinas, do átomo ao arcanjo.

 

Referências:

1 KARDEC, Allan. Instruções práticas sobre as manifestações espíritas. Tradução de Wallace Leal V. Rodrigues. 5. ed. Matão, SP: O Clarim, 1978.

2 ________. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 3, n. 3, mar.1860. Perguntas sobre o gênio das flores. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília, DF: FEB, 2019.

3 ________. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 3, n. 8, ago.1860. Origens. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília, DF: FEB, 2019.

4 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024. q. 540.

5 XAVIER, F. Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. cap. 50.

6 ________. Libertação. Pelo Espírito André Luiz. cap. IV.

7 ________. Evolução em dois Mundos. Pelo Espírito André Luiz. 1ª Parte, cap. XVII.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita