O que ainda poderia ser feito?
É muito comum encontrarmos, nas casas espíritas, antigos
trabalhadores e médiuns que se perguntam: será que
realizamos tudo o que estava ao nosso alcance?
Numa visão, por vezes romanceada, questionam-se:
Será que nos tornaremos completistas?
Acreditamos que essa conquista seja reservada àqueles
que realmente se prepararam e investem em sua superação
pessoal de uma falha grave que assumiram a tarefa de
corrigir.
O trabalho mediúnico é uma missão para a vida inteira,
pois, enquanto temos saúde física e mental, teremos a
oportunidade de praticar o bem e a caridade por todos
aqueles que precisam e cruzam o nosso caminho.
Esse questionamento é válido em alguns casos, quando a
Casa Espírita consegue realizar vários projetos, e os
médiuns que se encontram à frente da instituição há
várias décadas param para refletir:
O que ainda poderia ser feito?
Em outras palavras: o que poderíamos ainda fazer com o
tempo que nos resta na atual encarnação? Ou devemos
apenas dar continuidade a todo o trabalho que realizamos
até aqui?
Trata-se de uma tarefa difícil, pois, devido aos
obstáculos que encontramos para concluir as tarefas
convencionais, teremos pouco tempo para pensar em algo a
mais que ainda não fizemos.
Na passagem de O Evangelho Segundo o Espiritismo,
de Allan Kardec, no capítulo Sede Perfeitos,
encontramos orientações adequadas para que o espírita
possa conduzir sua vida da melhor forma possível:
O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de
justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Se
ele interroga a consciência sobre seus próprios atos, a
si mesmo perguntará se violou essa lei, se não praticou
o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou
voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se ninguém
tem qualquer queixa dele; enfim, se fez a outrem tudo o
que desejara que lhe fizessem.¹
Essas orientações não estabelecem um prazo para serem
realizadas, apenas um direcionamento, uma sugestão. Em
outras palavras, cada um caminha em seu ritmo: alguns
realizam mais rapidamente, outros mais lentamente, porém
todos procuram colocar em prática os conceitos ensinados
por Jesus de que fora da caridade não há salvação.
Ainda na mesma obra, encontramos o chamamento:
Ó verdadeiros adeptos do Espiritismo!... sois os
escolhidos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É
chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação
os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas
ocupações fúteis. Ide e pregai. Convosco estão os
Espíritos elevados. Certamente falareis a criaturas que
não quererão escutar a voz de Deus, porque essa voz as
exorta incessantemente à abnegação.¹
Encontramos em O Evangelho Segundo o Espiritismo várias
orientações para reavaliarmos nossa caminhada de vida,
ressignificando antigos modelos e conceitos, rompendo
velhos paradigmas que aceitávamos como verdades. Revendo
nossas crenças, pois a cultura transgeracional recebida,
em alguns casos, de nossos ascendentes precisa ser
modificada.
No livro Fonte Viva, psicografado por Chico
Xavier, existe uma mensagem que reforça a necessidade de
ressignificarmos nossa existência corpórea. Não basta
conhecer a verdade; precisamos utilizar esse
conhecimento para nossa evolução moral:
Não te apegues demasiado à carne transitória. Amanhã, a
infância e mocidade do corpo serão madureza e velhice da
forma. Entre o berço e o túmulo, o homem detém o
usufruto da Terra, com o fim de aperfeiçoar-se. Não te
agarres, pois, à enganosa casca dos seres e das coisas.²
Ela fala da transitoriedade do espírito no mundo
material, uma orientação de Emmanuel com base em um
texto bíblico de Paulo (I Coríntios, 4:18), onde Paulo
nos chama a atenção para as coisas transitórias da
matéria do mundo em relação às coisas eternas do
espírito imortal.
Existe também uma passagem atribuída ao espírito André
Luiz, presente em Agenda Cristã, que afirma que,
enquanto estamos a caminho da luz — ou seja, enquanto
estamos encarnados —, sempre haverá tempo oportuno para
colocar em prática o conhecimento e as orientações da
espiritualidade, no trabalho e na dedicação à Casa
Espírita. A mensagem aparece no contexto da reparação de
faltas e da necessidade de utilizar o tempo presente
para o aprimoramento pessoal:
Ajude o próximo, enquanto as possibilidades permanecem
de seu lado. Chegará o momento em que você não
prescindirá do auxílio dele. Utilize o corpo físico para
recolher as bênçãos da vida mais alta, enquanto suas
peças se ajustam harmoniosamente. O vaso que reteve
essências sublimes ainda espalha perfume, depois de
abandonado.³
A tarefa assumida com a espiritualidade só se encerra
com o nosso desencarne. Em outras palavras, o espírita
continua fazendo o que está ao seu alcance até o final
de sua existência física. Espírita não se aposenta;
apenas diminui suas atividades por conta das limitações
físicas.
Somos espíritos imortais estagiando em um corpo
orgânico, cercado de limitações, com o objetivo de um
aprimoramento e refinamento dos nossos sentidos, para
que, com o tempo, valorizemos as coisas sutis do mundo
espiritual, dando também o devido valor às coisas
materiais, como oportunidade para o nosso burilamento e
refinamento.
Quanto mais tempo nos dedicamos ao Espiritismo e ao
convívio com as pessoas, realizando uma troca de
conhecimentos, mais vamos nos capacitando e melhor nos
preparando para a Vida Futura, para uma nova encarnação.
Bibliografia:
1. Kardec,
Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864).
Cap. XVII – Sede Perfeitos: 3 – O homem de bem; Cap. XX
– Missão dos Espíritas. Ed. FEB.
2. Xavier,
Francisco Cândido. Fonte Viva (1956). Cap. 168 –
Entre o berço e o túmulo. FEB.
3. Xavier,
Francisco Cândido. Agenda Cristã (1947). Cap. 14
– Enquanto. FEB.
4. Wikipédia
(Enciclopédia Livre).
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